Os Filhos do Tédio – Tedio Boys

Os Filhos Do Tédio

Onde é que estavas em 77?

Se há coisa de que Portugal não tem falta, é de bandas. Mas os Tédio Boys não foram somente uma banda, foram uma lenda.

Tive oportunidade de vê-los algumas vezes ao vivo mas foram duas as memórias mais marcantes. O primeiro concerto que vi de Tedio Boys foi numa noite perdida dos anos 90 no Ritz Club, entalado entre duas casas de alterne, o Piri-piri e o Crido, perto da Praça da Alegria. Era uma noite de semana, e esse facto aliado às poucas pessoas que conheciam a banda contribuiu certamente para a pouca afluência registada. Assisti, com alguns amigos punks, ao concerto no primeiro piso do Ritz, e ainda a banda mal tinha tido tempo para aquecer quando grande parte dos espectadores no piso inferior decidiu fazer a saudação nazi e gritar “Sieg Heil” para o palco. No meio de tudo isso, um dos meus amigos dançava de frente para o palco, e para quem não sabe, punks e skins são como água e azeite, simplesmente não se misturam. Resultado: Sair dali para fora o mais rápido possível e no dia a seguir ler no Correio da Manhã uma notícia sobre cenas de pancadaria entre nazis e seguranças à porta do Ritz.

O outro concerto de que me lembro claramente foi nos primórdios das lojas Fnac, especificamente no centro comercial Colombo. Nesse aconteceu de tudo, desde as cadeiras da sala a voar por todo o lado, cuspo para cima do público, e claro a banda a tocar tal como veio ao mundo. O meu conselho é:  se têm problemas com homens nus não vão a concertos de rock. Tedio Boys ao vivo era o equivalente a conviver com o perigo sem ter a mínima noção do que ia acontecer a seguir. Se isso não é estar vivo, então não sei o que é.

Dizer que os Tedio Boys foram só uma banda, é o mesmo que dizer que a Bíblia é só um livro. Eles foram a inspiração para muita gente, fizeram de Coimbra a capital do rock lusitano, e os seus membros deram origem a várias outras bandas mais ou menos marcantes, como os D3O de Toni Fortuna, Wraygunn e Legendary TigerMan de Paulo Furtado, Bunnyranch de Kaló, e Parkinsons (mais uma lenda), Tiguana Bibles e Blood Safari de Vitor Torpedo (um dos melhores nomes nos anais do rock nacional). Pelo meio ainda houve os 77, com dois membros de Tedio Boys, dos quais fazia também parte Paulo Eno, que foi visto a ultima vez a dançar vestido de homem aranha num club em Ibiza. Antes de vingar em Portugal, os Tedio Boys vingaram na América, e tal como Fernando Pessoa, só conheceram o sucesso dentro de portas postumamente.

Uma banda cuja história integra nudez, sangue, instrumentos partidos, polícia, porrada, tractores e carrinhas funerárias só pode ser a reencarnação do espírito do rock. Os Tedio Boys eram o momento em que se olha para o abismo e o abismo olha de volta, e sem isso não pode existir rock’n’roll.

Além de lendas, existe outra coisa que falta em Portugal: documentários musicais, e os Filhos do Tédio vem definitivamente preencher uma lacuna nesse campo. Tudo começou com a tese de licenciatura de Antropologia de Rita Alcaire, na qual o Rodrigo Lacerda viu um potencial documentário. Filmado numa ala prisional, Filhos do Tédio conta, por palavras dos membros da defunta banda, as suas aventuras mirambolantes. A edição especial contem também vídeos das digressões nos Estados Unidos da América, vários extras e um cd com remisturas de singles raros.

Que não haja enganos, senhores e senhoras, isto é Rock’N’Roll.



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