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Os Golpes

O elo perdido entre os Heróis do Mar e os Strokes.

Chama-se “Cruz vermelha sobre fundo branco” o disco que poderá alterar de vez o panorama da música nacional, estabelecer a música rock cantada em português e afirmar-se como um dos marcos desta década, que provavelmente irá fazer de farol orientador quando, daqui a outros tantos anos, se olhar para trás e se tentar perceber e explicar o que é que se passou nos anos 00 em termos musicais.

Depois de Os Pontos Negros, depois do Tiago Guillul e até depois dos Lacraus, Os Golpes dão mais um passo nesta nova forma de encarar o rock, género com local de nascimento bem definido, mas cada vez com proveniência mais incerta. A banda, oriunda de Lisboa, afirma não só uma forma de fazer música rock muito portuguesa, como vinca uma portugalidade que não se via desde os Heróis do Mar: a iconografia das fardas, a cruz de Cristo, um primeiro teledisco filmado em Alter do Chão (vila alentejana sobejamente conhecida pela sua coudelaria, fundada no século XVIII por D. João V, com vista à criação de cavalos de raça lusitana para a picaria real) e até a utilização da grafia róque e pópe para confirmar esta ideia.

Nuno, Pedro da Rosa, Luís e Manuel Fúria são Os Golpes – que no início eram 400, em homenagem ao filme do Truffaut –, os responsáveis por este regresso aos anos 80 (à new wave nova-iorquina das guitarras punk abrasivas e ondulantes, os Television numa esquina e os Talking Heads noutra, mas com a matriz dos ritmos portugueses (o fado, sempre o fado como mapa) a substituirem os ritmos da música negra que David Byrne, por exemplo, foi buscar), mas também ao rock que marcou a viragem de milénio, com os Strokes como pontas de lança de um movimento que serviu, especialmente, para mostrar que o género não estava moribundo e que as guitarras continuavam bem actuais.

Manuel Fúria faz ainda a ponte com a família Flor Caveira, selo fundamental no crescendo que tem tido o novo rock cantado na língua de Camões, com a sua promotora Amor Fúria, que tem levado todos estes projectos um pouco por todo Portugal, com um trabalho ímpar e digno de registo, que faz eco de uma outra vaga de rock português: o boom dos anos 80, o do Chico Fininho, dos Táxi ou dos Trabalhadores do Comércio.

Tudo isto foram pretextos para uma conversa com Os Golpes, a nova coqueluche da música portuguesa.

Arrisco-me a começar pelo fim, mas é inevitável. Os Golpes surgem na mesma vaga rock que nos trouxe o Tiago Guillul, os Pontos Negros ou os Smix Smox Smux, por exemplo. Podemos dizer que esta é a maior vaga do rock português desde o boom dos anos 80?

Acreditamos que sim. Pelo menos é a mais criativa ou aquela que coloca o português como a língua óbvia de uma canção pope.

Se o Rui Veloso foi o pai do novo rock português, nos anos 80, quem o é agora?

O verdadeiro pai (e mãe) do roque português é o José Cid e como ele, ainda, não há ninguém.

Este nova vaga de novo rock, cantado em português e com uma portugalidade assumida, poderá ser apenas um hype?

Se hype significar excitação, burburinho, entusiasmo em relação a uma coisa que é recente, sim, é um hype. Se esse entusiasmo puder ser traduzido em algo mais consistente só o tempo o dirá. No que aos Golpes diz respeito, interessa-nos que a nossa existência não fique limitada por este momento e que tenha uma expressão forte para lá do que está a acontecer agora.

Das bandas que referi, Os Golpes serão os que têm essa portugalidade mais assumida. Não só por cantarem em português, mas por causa da iconogradia assumida. Eu começava por perguntar o porquê das pinturas, a cruz de Cristo, ou mesmo Alter do Chão?

Tem a ver com gostarmos de Portugal, tem a ver com acreditarmos que sendo portugueses podemos usar símbolos nacionais e transformá-los em iconografia pope, tem a ver com a construção de um imaginário em torno das canções que criamos. Alter do Chão foi o sítio onde encontrámos a generosidade que nos permitiu filmar o nosso teledisco, com as condições, financeiras, humanas, etc, que tínhamos. Temos uma grande dívida de gratidão para com essas pessoas.

Também encontramos aqui um paralelismo com a iconografia dos Heróis do Mar. Não temem ser associados ao nacionalismo exacerbado, como aconteceu com eles?

É uma associação que não faz sentido. Como não faz sentido fazê-lo com Os Belenenses ou com a federação portuguesa de futebol por usar a cruz de cristo. O que faz sentido para nós é ter a liberdade de poder utilizar iconografia que gostamos, que faz parte da nossa História, pegar nela e dar-lhe significados novos, torná-la nossa, torná-la pope. Como os Heróis do Mar fizeram, nós fazemo-lo à nossa maneira. Não existe qualquer sentido político.

Passemos então ao vosso disco, que acaba de ser lançado. Como descreveriam “Cruz vermelha sobre fundo branco”?

É uma fotografia daquilo que fomos e somos, sobretudo musicalmente, desde o período em que começamos a tocar até ao momento em gravámos o disco. Há uma construção do disco que não é por acaso e que nos revela a quem nos quiser ouvir.

Porquê a escolha de Jorge Cruz para a cadeira de produtor?

Foi a escolha necessária. O Jorge surge por ser amigo do João Coração, que por sua vez é nosso amigo, e surge por ter as características que acreditamos serem as indispensáveis para aquilo que era preciso na altura, uma apurada intuição das estruturas pope, porque queríamos tornar o nosso som mais eficaz, retirá-lo de um plano mais introspectivo e terapêutico e torná-lo passível de ser dançado. E uma boa gestão de pessoas, porque o Jorge consegue ser um elemento que harmoniza as pessoas com quem trabalha.

Sei que as bandas não costumam gostar muito de falar de influências e referências. No entanto, ao ouvi-lo, não pude deixar de encontrar um paralelismo muito grande com o rock dos anos 80, não só do novo rock português, mas também da new-wave nova-iorquina. Faz algum sentido falarmos nisto ou é apenas a minha imaginação fértil?

Faz sentido. Antes de sermos músicos, crescemos a ouvir música e continuamos a ouvi-la. Aquilo que sai dos nosso confrontos sónicos, para além de ser resultado daquilo que nos define como indivíduos, Nuno, Luís, Manuel, Pedro, é também fruto das referências que trazemos connosco. Quando se fala do Pedro se calhar faz sentido falar dos Black Sabbath ou dos Led Zeppelin, quando se fala do Luís aparecem os Pixies e os The Sound, o Nuno é filho de uma escola que encontra no Jazz o seu grande motor, o Manuel traz os Heróis do Mar, os Joy Division ou os Television. De qualquer maneira interessam menos estes nomes e mais a maneira como eles já fazem parte da maneira de  tocar de cada um de nós. O resultado disso tudo são Os Golpes.

Voltamos novamente à pergunta inicial: com tantas bandas novas, Portugal vive actualmente uma euforia rock pouco habitual. Como têm encontrado o país quanto a esta situação? Há uma maior disponibilidade das pessoas? Há mais sítios para tocar? Há melhores condições? Poderão estar criadas, quem sabe, as oportunidades para uma internacionalização definitiva da nossa música?

Parece-nos que sim, que há mais sítios para tocar, maior disponibilidade das pessoas. Acreditamos ter ido de encontro a alguma coisa que as pessoas queriam. Quanto às condições, não nos parece serem as melhores mas, para já,, não é essa a nossa luta. Quanto à internacionalização é preciso ir ao Brasil provar que, afinal, eles podem compreender o português que se canta por aqui.

Por falar em internacionalização, é um dos vossos objectivos?

Para já, não.

E, para terminar, a pergunta da praxe. Projectos para o futuro?

Tocar para pôr as pessoas a dançar.



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