“Os Idiotas” | Rui Ângelo Araújo

“Os Idiotas” | Rui Ângelo Araújo

Todos os meninos do papá chegam a presidentes

«Sou um desses fanfarrões que falam mais rápido do que pensam, com sacrifício da lógica e da credibilidade. Gastei uma boa parte da minha vida a tentar justificar as coisas que inventava e a ter remorsos por isso. Fechar simplesmente a boca, aceitar as limitações ou os erros, não era solução para mim.» É com este elogio em forma de machadada que Lúcio, a personagem central de “Os Idiotas” (o lado esquerdo editora, 2013), livro nascido da cabeça de Rui Ângelo Araújo, se apresenta.

Lúcio não está, porém, sozinho nesta ideia de desencaixe, pois a cretinice que o rodeia foi já objecto de uma massiva globalização: Luís é um ex-bispo das Testemunhas de Jeová  – expulso entretanto – que, para além de adorar Cristo, descobriu também o amor incondicional ao vinho; Óscar é um rústico com os maneirismos de um dandy, reformado compulsivamente na Suíça por um qualquer distúrbio que o infligiu uma incapacidade permanente; Sérgio é gay embora nunca tenha pensado muito nisso – talvez nem o saiba ainda -, usando umas barbas de tamanho considerável; Avelino, ex-bancário, tinha um esquema bem montado, mas com a justiça à perna sacrificou a mulher em nome próprio; Vasco é um perigo na estrada e fora dela.

Depois da morte do pai, Lúcio regressa à sua terra de infância para retomar no ponto onde a infância tinha sido perdida ou, pelo menos, para reviver alguns dos seus traumas, trabalhando como escritor-sombra para um político que pretende subir depressa a escadaria da vida. Ao mesmo tempo que se vai inteirando da vida na comunidade, gerida por um presidente de câmara sem escrúpulos ou qualquer sentido de ética, recorda os tempos em que viajou pelos países comunistas, tentando escolher uma de duas formas de aniquilação do indivíduo: o suicídio ou a vida em comunidade (escolheu esta última no final da viagem).

A partir do terceiro capítulo surge uma outra narradora, falando da sua relação lésbica com Fátima mas, sobretudo, da sua relação bipolar com Saavedra, um menino do papá que chegou a presidente de Câmara (o tal sem escrúpulos e sem ética). Do cruzamento destas duas histórias nascerá uma outra, com ingredientes bem conhecidos de todos nós: lobbies camarários, concursos por encomenda e bajulice popular. Mas também de amores trocados, não vividos, atirados fora, por medo ou, simplesmente, idiotice.

Rui Ângelo Araújo promove um uso algo abusivo da obscenidade, por vezes desnecessário, e é quando o romance se deixa cair numa espiral de melancolia, violência e amor trágico que o leitor se sentirá catapultado para um mundo feito de amores que passam ao lado e um desejo, quase irreprimível, de fazer da justiça um acto puramente pessoal.



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