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Os Lábios @ Teatro da Trindade

Pedem “Morde-me a alma” mas dão pouca força anímica.

Os Lábios, banda pop-rock de Sintra, anunciam o primeiro concerto em Lisboa a par do lançamento do seu álbum de estreia “Morde-me a Alma”.

Nós já sabemos que os lábios não mordem, mas gostamos da sugestão e de nova música portuguesa. Ainda por cima estes Lábios aproveitam todo o imaginário da troca de beijos e do amor próprio do dia de São Valentim, e marcam o concerto para dia 14 de Fevereiro. E, como se sente no ar, na luz e nas sombras, esta coisa tão boa de Lisboa que é este “amor capital”, que nos faz brincar com as palavras e ir descobrir novas bandas, Os Lábios apresentam-se no Teatro da Trindade sob o mote: Enamorados por Lisboa.

Tudo é (quase) perfeito como no amor e fomosouvi-los e conhecer o que se toca e canta em português com a produção de Miguel Ângelo, ex-Delfins.

O Teatro da Trindade, em parceria com o Inatel, enche meia casa e apresenta um palco bem produzido com as imagens e animação de VJ Somsen. Até aqui tudo, ainda, é amor: bom, promissor, arrojado até. Boa produção, boas luzes, mas pouco brilho logo nas primeiras músicas, «O meu coração é grego», «Coração Extasiado», «Mudar».

San de Palma, Eurico Silvestre, Telmo Dias, Sérgio Franco e Louco, já a meio do concerto e até com asas em «Fado Arcado», não levantam voo mesmo que tudo seja novo, cantado em português e com a estrelinha de ter uma vocalista feminina e nós a fazermos figas que é desta que temos uma Blondie, uma Rita Lee, vá. Mas, no final, são tudo apenas desejos de que os sapatos vermelhos salto agulha dêem pontapés à séria ou que, já descalça, e, quando pensamos agora é que é, a voz de San nos faça estremecer um bocadinho para o lado bom e nos aproxime mais dela quando canta «Diva, Não». Mas apesar de ser uma presença feminina marcante, San de Palma desalinha aqui e ali no seu lirismo e teatralidade da garra das guitarras que teimam em ser roqueiras e, nem a pouca electricidade da guitarra puxa por San de Palma, nem San de Palma puxa por uma batida mais funda da bateria.

Quando já desistimos de saltar da cadeira e ficamos só ali a bater o pé devagarinho, focamos a atenção no palco, porque em algum lado tem de haver uma emoção escondida, fogo, paixão; afinal, é dia do amor e a alma quer ser mordida! Mas no palco não houve troca de emoções entre a banda, notas soltas, muito menos bis, num alinhamento tão certo que só fez o público levantar da cadeira quando subiu ao palco o produtor Miguel Ângelo para cantar em duo com San de Palma «Rádio Ligado».

Os Lábiosá

Pode, ao contrário da minha opinião, na verdade nada ter falhado e ser tudo uma questão de atitude profissional visto que Os Lábios já têm experiência nestas andanças noutra formação enquanto The Profilers, desde 2009. A verdade é que na Trindade tivemos um concerto em que não faltou nada mas que também que não acrescentou nada, e no fim do dia é isso que conta, que desçamos o Chiado com algo diferente sobretudo quando nos pedem «Morde-me a Alma» mas dão afinal, muito pouco.

Reparamos que nenhuma letra ficou no ouvido e estranhamos essa pouca profundidade lírica que não tem que ver com este ou aquele gosto pessoal mas que se destaca pela negativa entre a exigência que hoje o boom da música portuguesa, cada vez mais e cada vez mais jovem e auspiciosa, nos tem, felizmente, habituado.

Como era dia de São Valentim, estava um frio de rachar e o concerto não aqueceu, não ficámos para a entrevista após o concerto. Por isso a crítica pode não ter toda a razão que julga ter e ser vítima da emoção de uma encalhada vegetariana roída de inveja dos pares que saíam da Trindade consolados com bifes tardios.

Por isso nada como ir ver e ouvir o que se faz de novo no pop rock português na actual digressão que tem mais de 20 concertos em Portugal e uma passagem por Espanha.

Afinal isto dos lábios, só mesmo beijando.

Fotografia por Ana Jerónimo



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