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Os Mutantes

Tropicalismo em modo contínuo.

Na segunda metade da década de 60 um trio de músicos brasileiros, Rita Le, Arnaldo e Sérgio Baptista, redefiniu as coordenadas da música popular com a criação de Os Mutantes.

Inspirados na pop anglo-saxónica, logo adicionariam à receita uma componente experimental e sons marcadamente tradicionais. A banda envolver-se-ia posteriormente com o movimento tropicalista em 1967, pela mão de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Como resultado dessa parceria, o grupo obteria mais visibilidade quer em espectáculos quer em discos. O passo seguinte seria a gravação do primeiro trabalho, “Os Mutantes”, no qual se incluía a magistral «Panis et Circenses». Tal como «Bat Macumba», a faixa de abertura era assinada por Gil e Caetano. O álbum valia como um todo e revelava um conjunto que abraçava a pop orquestral e o psicadelismo com mestria.

O sucessor, “Mutantes”, de 1969, manteria o patamar de composições alto e reafirmaria a importância da banda como expoente de um movimento de transformação da música popular brasileira e mundial. Temas como «Não Vá Se Perder por Aí» e «Dois Mil e Um» aprofundavam o regresso às raízes, bem patente na utilização do banjo e do acordeão e na vocalização anasalada e localizada de Rita Lee.

Após realizarem algumas viagens à Europa, Os Mutantes entrariam na década seguinte com uma crescente intenção de se aproximar a sonoridades mais bluesy ou roqueiras. O desvio do psicadelismo ainda produziu boas canções: «Ando Meio Desligado», «Tecnicolor» ou «El Justiciero». No entanto, Rita Lee abandonaria o barco em 1972, logo após a edição de “Os Mutantes E Seus Cometas No País Do Baurets”. Um ano depois, os irmãos Baptista estreariam o espectáculo “2000 Watts de Som” e lançariam o álbum “O A e O Z”, que iniciou o conjunto nas lides progressivas. O teclista Arnaldo Baptista deixaria a banda devido a problemas de toxicodependência e o baixista Liminha seguiria a mesma via do fundador do agrupamento. Depois de “Tudo Foi Feito Pelo Sol” o grupo entraria no ocaso até que os elogios rasgados de Kurt Cobain e os esforços do talking head David Byrne devolveram luminosidade ao projecto através da compilação “Everything Is Possible” pela editora Luaka Bop, em 1999. De salientar neste período é também a edição do disco perdido “Tecnicolor”, resultante da passagem do agrupamento por França em 1970.

Sete anos depois, Os Mutantes seriam homenageados na exposição “Tropicália – A Rrevolution in Brazilian Culture”, no Barbican Hall, em Londres. A 22 de Maio do mesmo ano, o colectivo paulista apresentou-se na capital inglesa com o elenco original, excepto Rita Lee, que seria substituída pela cantora Zélia Duncan, e Liminha. Da apresentação resultaria um CD e um DVD. O grupo apresentar-se-ia também com sucesso, em Lisboa, a 20 de Julho de 2007, no Festival Delta Tejo. Já sem Duncan e o irmão Arnaldo, mas ancorado na cantora Bia Mendes e no baterista Dinho Leme, o guitarrista Sérgio Dias assume os comandos do primeiro disco dos Mutantes em 33 anos: “Haih or Amortecedor”. É um trabalho que o próprio definiu ao site Virgula como “mais tropicalista, mas para mim é tudo rock’n’roll”.

A vontade de afirmar uma certa liberdade criativa está bem patente no “recrutamento” dos tropicalistas Tom Zé, letrista de seis canções do álbum, e Jorge Ben. São cerca de 50 minutos de um cadeiloscópio sonoro onde merecem destaque «Querida Querida», num bom crescendo vocal de Bia Mendes, um forró contagiante com pitadas circenses, «2000 E Agarrum», e um bom exercício de funk tropical: «O Careca». Em termos gerais trata-se de um disco honesto, competente e que tenta contextualizar alguns elementos do século XXI, vide o discurso de Putin em «Hymns Of The World Pt. 1». Haih significa corvo na língua shoshone, dos índios americanos do estado do Nevada. E agarrando essa ideia de ligação à magia, Sérgio Dias construiu uma panóplia de canções que respeitam o passado dos Mutantes. Se é certo que não existe nenhuma «Panis et Circenses» por aqui, não é menos verdade que se acrescentaram pontualmente algumas doses de encantamento ao legado dos mestres.



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