“Os Níveis da Vida” | Julian Barnes

“Os Níveis da Vida” | Julian Barnes

Do amor, da perda e do sofrimento

«Juntamos duas coisas que ainda não se tinham juntado. E o mundo transforma-se. Nesse momento as pessoas podem não dar por nada, mas não importa. De qualquer maneira, o mundo transformou-se».

É com este parágrafo incendiário, um pavio apaixonado à espera de uma pequena faísca, que deflagra “Os Níveis da Vida” (Quetzal Editores, 2013), o último romance de Julian Barnes que compõe uma ode ao amor e revela um coração dilacerado com a perda.

Julian Barnes conheceu Pat Kavanagh em 1978 e, no ano seguinte, casaram. Estiveram juntos quase trinta anos, até que Pat morreu em 2008. Este livro é-lhe dedicado e, nele, Barnes faz-lhe uma homenagem através de uma história onde cabem a fotografia, o balonismo o amor e o sofrimento.

Na primeira parte do livro, Barnes transporta-nos até cerca de 1860, altura em que o balonismo quis conquistar os céus e chegar mais perto de Deus. Os balonistas transformaram-se nos novos argonautas, vivendo uma liberdade que, ainda assim, estava submetida às forças do vento e da atmosfera. Victor Hugo, por exemplo, acreditava que com o acto de voar o mundo se tornaria uma democracia e, o homem, um pássaro.

Mas todos, conservadores ou progressistas, concordavam que o futuro de voar se encontrava numa máquina mais pesada que o ar. Enquanto isso, um triângulo humano aproveitava a liberdade sem motor para andar pela vida como se tivessem asas.

Félix Tournachon, mais tarde Félix Nadar, levava, segundo muitos, uma vida incoerente. Foi o melhor fotógrafo de retrato jamais visto, tendo sido o pioneiro em juntar fotografia e aeronáutica (segundo ele, dois dos três símbolos que constituíam a modernidade). Registou a patente do «novo sistema de fotografia aerostática», construindo o Gigante, o balão-perfeito que fazia viagens comerciais, através das mãos dos Irmãos Godard, mas recusou 50000 francos de Napoleão que lhe solicitou os seus serviços em 1859, antes da guerra iminente com a Áustria.

Sarah Bernhardt era uma actriz, uma mulher destinada a não se deixar prender a um só homem. Segundo Henry James, tratava-se de «uma figura fantasticamente adequada à visibilidade», que dormia com todos os protagonistas e amava a fama e a auto-promoção. Mas sempre sincera nas suas pretensões, não fazendo do engano um modo de vida.

Fred Burnaby foi, muitas vezes, apelidado de boémio. Dele, um amigo muito próximo disse, carinhosamente, ser «o malandro mais desleixado que alguma vez existiu».

Bernhardt e Burnaby vivem, durante muito tempo, uma história de amor. Burnaby junta-se à imensa lista de pretendentes, já deserdados ou ainda por fazer a corte à diva, certo de ser ele “o tal” que mudará a sua visão sobre a vida e o amor. Bernhardt parece, porém, irredutível na sua forma de olhar o amor: «Serei sempre, como diz, balunática. Nunca embarcarei nessa máquina mais pesada que o ar». Antes disso partilhamos a história de amor de Félix Nadar, um homem que esteve sempre à frente do seu tempo.

A segunda parte do livro é um mergulho na intimidade de Julian Barnes que, a partir do balonismo, lança um desafio a quem se pretenda lançar no jogo do amor: «Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado. Às vezes é como a primeira tentativa para prender um balão de hidrogénio a um balão de fogo: preferimos que se despenhe e arda ou que arda e se despenhe? Mas às vezes resulta, e algo novo se faz e o mundo transforma-se.»

Julian Barnes leva-nos numa viagem biográfica, íntima e sincera, sobre a dor da perda – a sua perda -, mostrando como foi a sua vida depois da morte da mulher e de que forma esta o transformou, bem como às relações que mantinha com as pessoas que faziam parte do seu universo de duplicidades e que degeneraram em momentos cobardia e desilusão. O suicídio terá sido uma grande tentação, mas como poderia ele suicidar-se se Pat tinha nele um dos seus últimos refúgios e lares?

Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor, lê-se a certa altura. Porém, sem ele, provavelmente não passaríamos de seres vazios, condenados a passar pelo mundo sem nunca ascender ao céu num balão feito de sonhos.



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