“Os Superficiais – o que a internet está a fazer aos nossos cérebros” | Nicholas Carr

“Os Superficiais – o que a internet está a fazer aos nossos cérebros” | Nicholas Carr

A difícil tarefa de encontrar o equilíbrio

Nicholas Carr colabora regularmente com The Guardian, The New York Times, The Wall Street Journal, The Financial Times, Die Zeit, The Times e outros periódicos, escrevendo sobre tecnologia, cultura e economia. Entre outras coisas, é membro da Encyclopedia Britannica, pertence ao projecto de cloud computing do Fórum Económico Mundial e é orador frequente em conferências e seminários académicos e empresariais.

Em “Os Superficiais”, Nicholas Carr faz um retrato impressionante sobre a forma como a internet está a mudar o mundo, as nossas vidas e os nossos cérebros, aproximando-nos da negra profecia que Kubrick lançou no inesquecível “2001: Odisseia no Espaço”: “ao passarmos a depender de computadores para mediar o nosso entendimento do mundo, é a nossa própria inteligência que se aplana e se transforma em inteligência artificial.”

Segundo Carr, a internet é ao mesmo tempo nosso servo e nosso amo e, para todos os benefícios que apresenta, haverá necessariamente um preço alto a pagar: um desbaste da nossa capacidade de concentração e contemplação, tão necessários à produção do verdadeiro conhecimento.

Porém, este não se trata de um livro que pretende destruir a internet; apresenta, antes, uma reflexão sobre o peso cada vez maior que a tecnologia assume nas nossas vidas, e ao modo perigoso com que vamos confiando tarefas humanas às máquinas, seja a do cálculo ou a da memória que, na era moderna, perdeu o carácter divino e parece prestes a perder o lado humano.

A viagem mental que Carr propõe ao nosso cérebro está ao nível de uma volta ao mundo. Antes do tema internet há muita coisa para ver (não necessariamente por ordem cronológica): o aparecimento da máquina de escrever, a descoberta do conceito de neuroplasticidade, o evento da cartografia e o aparecimento do relógio, os primeiros materiais onde se gravou a palavra escrita, o nascimento do alfabeto, a prensa de Guttenberg, a antecipação do computador por Alan Turning.

A internet, segundo Carr, tornou-se a aglutinadora de todas as tecnologias percursoras: máquina de escrever e tipografia; mapa e relógio; calculadora e telefone; correio e biblioteca; rádio e televisão. Com a ajuda de outros aparelhos como os telemóveis, a televisão, foi-nos aos poucos tornando escravos dos ecrãs, contrastando com o pouco tempo que dedicamos à leitura de materiais impressos, sejam jornais, revistas ou livros.

Carr fala ainda do advento dos dispositivos móveis de leitura como o Kindle, com a inclusão de hiperligações no texto e outras ferramentas que vão contra algo que se tinha conquistado após a impressão dos primeiros livros: a tradição intelectual da leitura solitária. Na internet, a leitura na diagonal sobrepõe-se à leitura profunda, e o conhecimento é alcançado a partir de fragmentos dispersos.

O Google, o revolucionário motor de busca, é apontado por Carr como uma ferramenta que aplica muitos dos princípios do Taylorismo: “No passado o homem estava primeiro. No futuro o sistema deve estar primeiro”. Aquilo que Taylor imaginou para o trabalho manual, o Google aplica ao trabalho mental, criando um “negócio da distracção” em que a inteligência passa a ser encarada como a excelência e rapidez no tratamento de dados, ao invés da observação e da contemplação.

Debate-se igualmente a pretensão Googleniana em armazenar todos os livros do mundo, numa biblioteca que, segundo Caar, será biblioteca de fragmentos que olha para a acto da memória como uma pura perda de tempo.

Nicholas Carr partilha com o leitor a sua tentativa de afastamento de todo este aparato tecnológico: foi viver para um sítio mais isolado, onde dispunha de uma velocidade de banda muito limitada; abdicou do telefone móvel; cancelou a conta no twitter e fez uma pausa no facebook; desligou os feeds de notícias e desacelerou o programa de busca do correio electrónico. Porém, quando estava perto de concluir o livro, a ressaca falou mais alto: “Não tenho a certeza se conseguia viver sem isso”.

“Os Superficiais” promove uma reflexão sobre o modo como nos temos deixado guiar em demasia pelas tecnologias, fazendo com que as nossas mentes estejam efectivamente a mudar. É também um grande exemplo de como os livros – e a leitura profunda e impressa – nos estimulam verdadeiramente. A pergunta fica no ar: conseguiremos encontrar o ponto de equilíbrio que nos permita manter a nossa humanidade?

Uma edição Gradiva



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