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Osso Vaidoso

A música às vezes estranha-se, mas depois entranha-se. Deixem o Osso passear alegremente nas vossas vidas e que se torne cada vez mais vaidoso nos vossos leitores de música. "Animal" é apresentado dia 15 de Dezembro, no Musicbox Lisboa.

Os riffs de guitarra são crus. As melodias são secas e as palavras proferidas soam como lâminas pois conseguem cortar o ar que respiramos. Ao fechar os olhos, enquanto escutamos «Elogio da Pobreza» ou «Cacofonia», verificamos que por vezes as canções entranham-se na nossa pele e depois é difícil livrarmo-nos delas. Ana Deus e Alexandre Soares denominam-se Osso Vaidoso, este novo projecto que nasce após longos anos de partilha e dedicação à música e à arte. O duo fundou um dos projectos mais icónicos em Portugal – Três Tristes Tigres – cujo trava-línguas ecoou na boca de todos. Desses tempos, resultam as grandes amizades com pessoas que ambos adoram reencontrar. “Nessa época era tudo muito mais trabalhoso e complicado de montar. Desde os arranjos das músicas, à parafernália em palco, que também incluía projeção de vídeo e slides.” – confessou-nos Ana Deus.

“Animal” é o título do primeiro álbum que é composto por dez canções. A instrumentar apenas ouvimos uma guitarra (salvo algumas canções que têm percussões) e poemas que são despidos à medida que são cantados. No dia 15 de Dezembro regressam a Lisboa para mais um momento proporcionado por esta casa – Noites da Rua #4 @ Musicbox e esperamos que todos adiram. A música às vezes estranha-se, mas depois entranha-se. Deixem o Osso passear alegremente nas vossas vidas e que se torne cada vez mais vaidoso nos vossos leitores de música.

O que mudou no mundo da música, aos vossos olhos, ao longo deste tempo todo que passou?

Muitos quilos a menos, que pode parecer uma questão ligeira, mas que possibilita que se faça música praticamente em todo o lado. Qualquer pessoa pode fazer música ou som com programas de edição, gravadores e outros gadgets. Essa portabilidade e espontaneidade que parecia pertencer mais à música popular já é possível para quase todos os gostos e estilos ou mesclas de estilos, e a música ganha em variedade e vozes próprias.

Entretanto nasceu este novo projecto Osso Vaidoso. Como é que esta ideia nasce e a que se deve a escolha deste nome para este novo projecto musical?

Terá sido a nossa forma de também nos tornarmos mais leves, mas sem desprimor para os Tigres que quando ouço e ainda me espanto com o que andávamos a fazer. Alguma da carga emocional que estava no diálogo das guitarras, programações e das camadas todas que compunham um som bastante encantado, passaram para as letras, que agora já têm uma narrativa mais simples e também, na minha opinião, mais eficaz. Também se percebe melhor o que só uma guitarra pode fazer, que às vezes parece duas… e muitas vezes o menos é mais. O nome é isso, simples mas cuidado.

Há algum tempo que percorrem o país a dar a conhecer o vosso trabalho. Como têm sido as reacções?

Como quisemos começar do zero, e de qualquer forma já estaríamos um pouco esquecidos, tivemos concertos em condições às vezes um bocadinho difíceis mas estávamos absolutamente convencidos do que estávamos a fazer e fomos sempre insistindo e fazendo o nosso melhor. E praticamente em todos os concertos fomos percebendo muito bem que as pessoas gostam de entender tudo o que se está ali a fazer e a dizer, e que estávamos no caminho certo.

Porque optaram por mostrar este projecto ao vivo antes de o gravarem em estúdio?

Queríamos dialogar, entre nós e com os outros, e com isso também ganhar a vida. Os discos tornaram-se preocupações, muito trabalho para vender pouco não estava nos nossos planos. Felizmente o Henrique Amaro foi a um dos nossos concertos, com pouca gente mas numa sala maravilhosa, no Clube Ferroviário, e convidou-nos para esta edição Optimus que tem a vantagem de se poder optar entre o download gratuito ou a compra, a muito bom preço, do CD físico. E não foi gravado em estúdio, foi na sala onde habitualmente ensaiamos.

Para vos ajudar na criação deste disco, colaboraram com algumas pessoas tais como a Regina Guimarães, o Alberto Pimenta, o Tó Trips e ainda Valter Hugo Mãe. De que forma surgiram estas colaborações?

Os poemas têm origens diferentes no tempo e na justificação. Alguns vêm da Leitura furiosa, que são encontros entre escritores e grupos de pessoas afastadas de alguma forma da leitura. Nesses encontros pretende-se que elas percebam que a escrita é mais uma voz, e que as pode espelhar e ajudar em vez de afastar. Os textos que daí resultam são o resultado de conversas no primeiro dia dos encontros, no segundo dia são lidos pelos autores ao grupo e discutidos, para aprovação ou não, e só depois são entregues aos músicos que os tratam à sua maneira, e no terceiro dia são apresentados, lidos ou/e cantados a todos os que participaram.

«O um e o muito», «Matematicamente» e «Madame» nasceram assim, de encontros entre a Regina Guimarães e um grupo da Qualificar para incluir, da Tutoria do Porto e de emigrantes portugueses na Picardia. A «Cola Cola Song» já andava comigo há algum tempo, e está incluída num CD chamado “Degrau (cuidado)”, editado com um livro de Alberto Pimenta, “Reality show”, pela editora Mia Soave. A «Ni nha rias» foi escolhida pela forma como está escrita, fragmentada e silábica o que faz com que eu altere a forma de cantar, assim mais solavancada. Os dois poemas encontram-se na “Obra quase incompleta” de Alberto Pimenta. Ao Valter [Hugo Mãe] eu já tinha pedido letras para outro projeto, mais dançável, que começámos mas que deixámos pelo caminho, e a «Poligamia» foi uma dessas letras. Assim que a li pareceu-me abluesada e a pedir guitarra. É deliciosa de cantar, dá para fazer jogos rítmicos com as palavras assim como a «Cacofonia» escrita pela Regina mas que foi composta numa residência para o Festival Escrita na paisagem, com o Tó Trips, onde também participou o João pedro Coimbra, amizade que vem dos tempos dos Tigres, e que fez uma perninha no “Animal” e no “Ponto Morto”, também nos ajudou a misturar pois é uma orelha de fora ao mesmo tempo próxima. O Gustavo Costa, que fez as percussões na «Cacofonia», é um músico com uma generosidade rara, apesar dos imensos projectos em que participa e que também nos acompanhou na ressaca dos Tigres e noutras deambulações mais experimentais.

Ouvimos falar de crise todos os dias e vocês decidiram criar um «Elogio à Pobreza». Na vossa opinião acham que a cultura está assim tão pobre? Ou são as pessoas que a fazem pobre?

Não nos parece que a cultura esteja mais pobre; haverá uma tendência populista, a pretexto da crise, de a considerar supérflua, parecendo esquecer que a cultura move gente, dinamiza populações, cria riqueza. Mas são alturas de grande resistência, onde se faz doutra forma e com grande dedicação. O «Elogio da pobreza» é uma canção ao essencial, a uma certa frugalidade, cada um tem a sua e sabe do que precisa para ser feliz. Esta é a minha, aos olhos da Regina.

Elogio da pobreza – – Output – Stereo Out – elogio da pobreza by Osso

Ao visualizar alguns vídeos das vossas actuações, reparei que há um rigor elevado na interpretação da canção, como se se tratasse de uma leitura encenada. Na guitarra, um igual cuidado para acompanhar o poema. Esta vossa performance, serve para complementar a mensagem que tentam transmitir através da música?

As nossas canções são leituras, e por isso também são diferentes de concerto para concerto. Houve algum cuidado mas também muita intuição, porque as palavras não dizem tudo e é preciso deixar falar o não dito.

Dia 15 de Dezembro o Osso Vaidoso vai desfilar no palco do Musicbox. Para quem não vos conhece, o que pode esperar do vosso concerto?

Como já disse os nossos concertos são sempre diferentes, queremos que as canções cresçam ao vivo, pois foi assim que elas nasceram e não é justo limitá-las à interpretação que ficou registada em disco. Também gostamos sempre de tocar canções mais idosas e outras acabadinhas de fazer.

Quem não nos conhece que espreite o disco no site da Optimus ou no Reverbnation e que depois venha ver as diferenças.

Relembramos. É no próximo dia 15 de Dezembro que os Osso Vaidoso apresentam “Animal”, no palco do Musicbox Lisboa. A entrada custa 6€, com direito a uma bebida e pode ser adquirida na blueticket, FNAC e locais habituais.

As “Noites da Rua” contam com o apoio da Lacoste L!VE.



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