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OUT.2010

Conversa de café, entre DJs, sobre política, sociologia e filosofia?

O hábito era de escrever sobre música, mas em consequência de uma conversa circunstancial tida entre mim e alguns DJs amigos, no sábado passado, decidi mudar a toada e resumir a lógica por detrás dos argumentos discutidos na tarde de sábado passado, 9 de Outubro. Conversa de café, entre DJs, sobre política, sociologia e filosofia? Tem potêncial para a desgraça, leia a sua conta e risco, a partir do próximo parágrafo.

Celebrar o centenário da República parece estar em ordem. Os cordelinhos puxados que levaram ao momento revolucionário, de obliteração dessa parte da nossa história colectiva chamada Monarquia são muito complexos, e não compete a quem de pouca legitimidade académica – como é o meu caso – deliberar ou opinar sobre coisas que não conhece em absoluta profundidade. Vou reportar-me portanto a alguns pontos de curiosidade psicológica, que estarão associados a estes eventos.

Aquilo que a todos toca é coisa que, em teoria, a todos deveria mobilizar. Infelizmente, e por razões de carácter e identidade colectiva ou por razões de entorpecimento mental ou ignorância – faça favor de escolher… – por cá é raro sentir da parte opinião pública uma real e palpável insurreição objectivada a pretender uma correcção de erros cometidos. O que me fascina nesse fosso que dista entre algo que a todos benificia – caso de uma política sócio-económica bem estrutrada e pensada para uma funcionalidade a longo prazo – e aquilo que no geral vamos permitindo que aconteça e que vai no sentido precisamente contrário. Mas é precisamente o facto deste fosso ser tão raramente objecto de análise, e objecto de análise que seja mais do que uma constatação vã sobre o carácter português e a sua brandura.

Por alguma razão, a mobilização popular por cá sempre foi complexa, e requer algum tipo de sintonia com a vontade militar. Isto coaduna-se com algumas constatações empíricas do autor contemporâneo da revolução republicana, Teixeira de Pascoaes, em “A Arte de Ser Português” – o carácter contemplativo, melancólico e passivo do nosso povo era algo que já no início do século passado era descrito com a mesma precisão com que nós, actualmente, o fazemos. E normalmente fazêmo-lo porque esperamos que um dia algum tipo de incêndio deflagre nos nossos corações, em simultâneo, e que saiamos à rua de uma vez, removendo do poder quem só lá está para o seu próprio bem, e colocar quem para lá quer ir para poder servir os seus pares. Penso que esta vontade de “revolução colectiva que nunca vem” remonta a muito mais imemoriais tempos do que muitos imaginam.

Certo, disto isto… nunca houve por cá, nos últimos cinquenta anos (pelo menos, e para ser pouco polémico), uma real revolução, a meu ver. Saudosistas do espírito de Abril que me permitam, mas não reconheço nem aí um real corte, sequer algum tipo de sisão, com uma forma de pensar, de fazer, de conceber. Inicialmente, concerteza, mas nos poucos anos que a tal se seguiram, a coisa volta a caír na mesma repetição episódica de interesses pessoais em catadupa (salvo excepções óbvias resultantes de esforços políticos valiosos, nomeadamente no final dos anos setenta até meados da década de 90). No geral, a mesma turminha que estava presente no alegado momento de suplantação da ditadura, é aquela que se repete como opções de boletim de voto.

Portanto, (e permitam-me a reserva de que isto é a minha opinião apenas), é quase idiota propôr que a consequência da revolução abrilista foi algo de realmente visível a nível da textura que é característica à anima portuguesa. A última vez que tal se pretendeu foi através do abrupto assassinato de D. Carlos I, pelo célebre duo de pistoleiros herméticos Buiça e Costa… esses tinham, na sua ideia, uma gloriosa visão para o país, na qual a monarquia não faria parte do quadro – antes fosse uma mera inconveniência simbólica que pouco ou nada pesava. Isso sim, é de celebrar! o momento em que, bem ou mal, algo mexeu na nossa experiência de nós mesmos como portugueses (não o regicídio em si, atenção!).

Considerando superficial, mas logicamente o sistema monárquico, diria que a monarquia é concerteza é um sistema de algumas vantagens – como disse, a nível simbólico, principalmente – como o são o promover de uma identidade comum personificada na família real, manter a recordação de uma linhagem e a continuidade história de um país como coisas presentes na lembradura popular, e garantir algum grau de brio e orgulho nos escudos que caracterizam aqueles que nos supostamente representam. Principalmente, um rei por definição já ocupa um cargo – herdado – cuja altivez é insuperável por qualquer mérito alheio. Logo é uma criatura relativamente impermeável à maior parte das tentações e corrupções a que um comum dirigente estaria sujeito… eu suponho que, no papel “assim escrito”, parece que um rei seria uma personagem menos corrupta que um vulgar político porque ele já terá nascido com as benesses que se obtêm pela prática de favores preferênciais.

Isso, em alturas como a presente, seria coisa muito importante: por exemplo, um rei pouco se poderia preocupar com a atribuição de licenças de construção de superfícies comerciais em áreas ambientalmente protegidas porque os interesses envolvidos nesses empreendimentos não teriam nada a oferecer a um rei que ele sentisse que lhe estivesse em falta!

Óbviamente, e em paralelo, uma monarquia absoluta é um sistema cheio de falhas conceptuais, começando pela ausência de um sistema de mérito e valor para a liderança: ela é assegurada, óbviamente, sem qualquer condição. De forma que, não por poucas vezes, os reis que calharam foram inaptos, déspotas, de fraca visão e turvas ideias que não fizeram mais do que, no período de sua ínfame governação, enterrar a massa que supostamente representavam. Por outras ocasiões, assumidamente mais raras, alguns outros de franca capacidade souberam gerir diplomacias e criar condições para um visível crescimento do país que representam.

Eu proponho, sobre esta última constatação, que é exactamente o mesmo com um governo democrático. No final da era monárquica, o nosso país era administrado por um sistema proto-partidário rotativo, e estaria em vias de, por si mesmo, se converter numa monarquia democrática… a revolução foi apenas forma de reprovar as regalias da nobreza ser nobreza por título de antiguidade, e de abulir uma noção de casta que, na visão de quem realizou o golpe, era incompatível com a missão proposta pelo nosso Portugal a si mesmo. Ou seja, a revolução só revolucionou realmente um aspecto da nossa percepção de nós mesmos: não é por não sermos de sangue azul que somos menos importantes.

Infelizmente, a verdade é que a nobreza, sendo uma classe privilegiada, é apenas uma de muitas formas sob a qual um princípio muito simples que é fenomenológicamente permeável por toda a realidade social se pode manifestar. O estabelecer de uma classe acima das outras, chamando-a de “realeza” ou “nobreza” é apenas incomodativo a nível público, por ser tão visível e por vezes opulento. Mas, de facto, sem que se chamem nobres, não faltam classes privilegiadas no nosso país, ou sequer no nosso mundo, cuja perpetuação não seja por sangue, mas por afinidades várias, umas mais obscuras que outras.

Essas afinidades estavam, elas próprias, presentes na génese do móbil filosófico que inspirara os assassinos do Rei: a leitura e discussão de obras positivistas em círculos secretos, na Carbonária e Maçonaria. Ora numa ordem secreta deste estilo, que pretenda inspirar mudança social (criando a conjectura necessária a que depois se promova pelo contexto uma mudança individual colectiva), os seus membros dirigem-se entre si com a expressão “care frater”, entendendo-se como irmãos. Logo a simbologia da família, mesmo que não de forma linearmente sanguínea, mas sim idelógica, é presente na filosofia hermética. Sempre reflexo de uma certa sensação de superioridade e legitimidade particular, a alimentar a máquina secreta que muitas vezes promove a mudança social, e que simultânemente noutros círculos se coordenava para assassinar um outro nobre, Franz Ferdinand, algo que depois provocaria a confusão generalizada que resultou na primeira guerra mundial, e os consequentes “shifts” paradigmáticos (quiçá inacessíveis de outra forma).

No presente, a pureza das intenções, de promoção da evolução cognitiva e espiritual do Homem de forma intocada, já está há muito comprometida… vigoram grandes interesses que parecem exercer sobre o nosso carácter um medo tão grande que nos convencemos que as soluções para os nossos problemas não passam pelas nossas mãos, porque os problemas são tão complexos que nunca ao comum eleitor surgiria a clareza de espírito necessária para a resolução destas crises.

Infelizmente, o carácter derrotado – que parece que há muito aprendeu o desamparo – que nos atravessa como portugueses, parece estar em linha com a ideia de que a solução não passa por nós. E enquanto pensarmos que não, os interesses que estão por detrás da alhada em que nos vemos metidos, serão sempre capazes de nos espremer um pouco mais. E as soluções para esses problemas, enquanto forem oferecidas pelos mesmos que os criaram, nunca vão ser realmente adequadas, antes vão ser formas de colocarem a saída da questão nas costas dos inocentes trabalhadores leigos que nem percebem o que lhes aconteceu… ideia que há muito anuncia o controverso mas não obstante venerável Medina Carreira.

Diria, na minha humilde formação na área, que está na altura de nos despirmos desta ideia de nós próprios a fim de assumirmos outro “nós”, retormarmos as rédeas do que é nosso, reformularmos o nosso “pathos”, processarmos os políticos que nos traíram, promovermos a qualidade do ensino e da formação pessoal, colocar a excelência como valor nacional (mais do que a mediocridade), de forma a que nos nossos cidadãos futuros não mais se vejam socialmente deprimidos, como grande parte da nossa massa portuguesa parece andar, mas sim como agentes determinantes e determinados da condução capaz do nosso futuro colectivo. Sem necessidade, assim, de agentes insidiosos que se entendem particularmente “mais aptos” a promover a mudança do que nós mesmos.

Afinal, parece que percebemos mais do que apenas o que se passa entre as 33 e as 45 rotações por minuto… ou talvez não.



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