“Paisagens da Metrópole da Morte” | Otto Dov Kulka

“Paisagens da Metrópole da Morte” | Otto Dov Kulka

Cristalizações mnésicas de Auschwitz

Sair da Primavera para mergulhar no longo Inverno do Holocausto e visitar as “Paisagens da Metrópole da Morte. Reflexões sobre a Memória e a Imaginação” (Temas e Debates/Círculo de Leitores) pode não ser confortável, mas informarmo-nos e não esquecermos é o mínimo que podemos fazer pela memória das vítimas do perverso ideário do regime nazi e dos 1,1 milhões de seres humanos (1 milhão dos quais judeus) que foram exterminados nos quatro anos e meio de existência do campo de trabalho de Auschwitz – para que não tenham morrido em vão.

Em criança, o historiador Otto Dov Kulka, Professor Emérito da Universidade Hebraica de Jerusalém, nascido em 1933, na extinta Checoslováquia, foi enviado, primeiro, para o gueto de Theresienstadt e, posteriormente, para Auschwitz, onde permaneceu desde Setembro de 1943 até 18 de Janeiro de 1945. Tendo sido um dos poucos sobreviventes dos campos de concentração, dedicou-se ao estudo do nazismo e do Holocausto, embora sempre como uma disciplina que exige a maior frieza e objectividade, pondo de lado a sua história pessoal. No entanto, esta postura não impediu que continuasse a ser perseguido por recordações e imagens específicas, pensamentos de que foi incapaz de se livrar. Em 1978, já no avião que o afastava da Polónia e após uma visita solitária a Birkenau, Dov Kulka escreveu «algumas coisas loucas» no seu diário, e terá sido assim «que comecei a lidar com o meu regresso, não num sonho mas conscientemente, à Metrópole da Morte [Birkenau-Auschwitz]».

Mas não são só as memórias que lhe causam sofrimento. Também os esquecimentos são dilacerantes. «Quase ausente – na verdade, completamente ausente – está outro elemento, tão conhecido com base nas recordações e testemunhos sobre a vida quotidiana nos campos de concentração. Refiro-me à violência, à crueldade, à tortura, aos homicídios individuais, que, tanto quanto sei (…), são apresentados como a rotina diária desse mundo dos campos. (…) O que é intrigante é que quase não tenho memórias dessas; tenho de pensar muito e examinar as imagens que permanecem gravadas sob uma ou outra forma – como experiências, como cores, como impressões – para isolar nelas algo de um tipo que pudesse descrever como violência». Sim, isto é uma citação. Mas que não haja ilusões: as memórias estão lá e são insuportavelmente violentas.

“Paisagens da Metrópole da Morte” é um relato de memórias de infância, tecido pelo adulto que é o único e último reduto dessas memórias – um adulto que não esquece o que essa criança sentia durante a sua estadia na Metrópole da Morte, onde tinha tanta certeza de estar tão inexoravelmente submetido à lei imutável da Grande Morte e destinado a dar o seu último suspiro numa câmara de gás que, perante a não concretização desse desígnio, ficou para sempre preso a ele em sonhos, regressando eterna e tragicamente àquele lugar, como um Tântalo; um Prometeu; ou uma Eurídice, cativa do Hades até ao fim dos tempos; ou um Orfeu, cativo de Eurídice, por sua vez cativa do Hades, até ao fim dos tempos. O subtítulo da obra não está lá por acaso: “Reflexões sobre a Memória e a Imaginação”.

Elogiamos a tradução de Artur Lopes Cardoso e, nesta edição – admitindo que desconhecemos o critério que motivou esta escolha -, apenas lamentamos que as notas de rodapé se encontrem acumuladas no fim do livro, o que impede uma consulta mais imediata e interrompe a intensidade da leitura.



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