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Panorama 2010

Celebrando António Reis e o ensino do documentário em Portugal.

Entre 9 e 18 de Abril, as salas do cinema S.Jorge, em Lisboa, receberam a 4ª edição do PANORAMA, mostra exclusivamente dedicada à divulgação de produções documentais realizadas em Portugal.  A vida e obra do casal de cineastas António Reis e Margarida Cordeiro serviu, este ano, de elo unificador às exibições programadas do ciclo e às propostas de debate. Relembrando a experiência professoral de Reis na escola de cinema, a partida para a recente edição fez-se sob a questão “como se ensina o documentário português?”, assim privilegiando o olhar sobre alguns dos trabalhos documentais que, em Portugal, saem das variadas escolas dedicadas ao ensino da modalidade documental.

Entre os 59 documentários exibidos, em formatos de longas, médias e curtas metragens, foi possível, graças à colaboração da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, assistir a quatro importantes títulos da obra de Reis e de Cordeiro: «Jaime»; «Trás-os-Montes»; «Ana» e «Rosa de Areia», singularidades de exibição rara, e efectivamente imprescindíveis à aprendizagem, qualificação e reflexão acerca do cinema português.

Num balanço retrospectivo, Inês Sapeta Dias, documentarista e programadora do PANORAMA, reflecte sobre o sucesso da mostra e a adesão do público português ao cinema documental, aqui deixando o apelo: é tempo de devolver o cinema português ao seu público.

Que balanço se pode fazer da última edição do Panorama?

O PANORAMA continua a crescer, não só em termos de público, mas também ao nível da sua participação activa, elemento fulcral para o sucesso da mostra. O PANORAMA quer ser não apenas um sítio onde os documentários portugueses mais recentes podem ser vistos, mas também onde estes podem ser discutidos, havendo o desejo de encontrar, por entre essas discussões, caminhos futuros para a produção. É um local de encontro, uma plataforma de intervenção, onde público, programadores, cineastas, produtores se juntam para ver e, a partir do que vêem, discutir problemas, alcances, soluções. E este ano essa plataforma mostrou-se viva e participada. Julgo que todos os intervenientes na mostra estão cada vez mais a perceber e a agarrar a oportunidade que o PANORAMA cria.

Ao mesmo tempo, todos os anos fazemos uma retrospectiva que permite olhar para trás, através de uma visita ao cinema português de antes, olhado da perspectiva documental. E se ainda perdura a ideia de que o cinema português é mal-amado pelo público do seu país, o PANORAMA tem vindo a mostrar como isso é falso. O que faltam é sítios onde esse cinema pode ser visto. E a adesão à retrospectiva da obra de António Reis e Margarida Cordeiro mostra como o público português está ávido por poder conhecer o seu cinema. A recepção a esta obra, tal como pôde ser observada nesta 4ª Mostra do Documentário Português, é igualmente fonte de uma enorme alegria para esta equipa. É para nós muito importante podermos contribuir para este encontro, e perceber que ele é desejado.

Em termos aproximados, quais os números de espectadores desta edição?

O PANORAMA teve 4550 espectadores, mais 1100 espectadores que a edição anterior.

Sendo que a última edição foi vincada pela especial abertura à participação de escolas de cinema, há vontade de prolongar esta presença?

Cada edição do PANORAMA prepara a seguinte. É durante a mostra que percebemos se as apostas e experimentações de programação resultaram, se são para manter, o que falta fazer e arriscar. É também em cada edição que percebemos que problemática se torna urgente tratar. As escolas de cinema e a sua produção sempre tiveram lugar no PANORAMA (sempre programámos filmes de escola, que espalhámos pelo programa, porque achamos que é no embate entre objectos diversos que se pode verdadeiramente auscultar o estado da produção documental portuguesa). A novidade este ano, a este nível, foi particularmente o dia dedicado exclusivamente à produção de escola (que se justificou pelo tema central desta edição – “como se ensina o documentário português”? – mas que não deveremos manter, por não querermos fechar os filmes de escola numa espécie de “gueto”), e a participação de estudantes de cinema nalguns debates esporádicos. Esta participação, sim, queremos manter: os estudantes de cinema, por estarem a pensar intensamente no tipo de questões que queremos trazer ao de cima no PANORAMA, poderão no futuro ajudar os programadores a dirigir os debates, a questionar os cineastas, a analisar a produção actual (como aconteceu no debate final desta edição). Estamos mesmo a pensar alargar a sua participação a mais debates, descobrimos que o espírito crítico das pessoas que estudam cinema pode ser aquilo que une todas as pontas do programa, e poderá permitir construir com mais profundidade o estado geral da produção, o que no fundo é o queremos fazer em cada edição.

A mostra tem pernas para um novo crescimento, quem sabe para se alargar à exibição de mais filmes e em mais salas?

Há sempre espaço para a evolução. E como aprendemos em cada edição o que poderemos fazer a seguir, acho que vamos sempre crescer e criar novos e renovados objectivos. Estamos neste momento em fase de balanço, de perceber do que é que o PANORAMA precisa para levar o cinema português a cada vez mais pessoas, e continuar a envolvê-lo no clima de festa e intervenção que o caracteriza. Mas ao nível de espalhar o PANORAMA por mais salas, não me parece ser uma opção lógica para o tipo de trabalho que queremos desenvolver: queremos que o PANORAMA seja uma experiência intensa, que o maior número de pessoas veja todos os filmes, para assim ter uma “vista alargada” (por isso é que a mostra se chama “panorama”) sobre a produção portuguesa, e poder discuti-la. Queremos, quase, que as pessoas saiam do PANORAMA com um objecto específico na mão (esse tal retrato do documentário português), é para isso que trabalhamos quando construimos o programa. E a multiplicação de salas parece ir contra esse objectivo. O que queremos, sim, é abrir o PANORAMA a mais salas no país. Desde o primeiro momento desejamos fazer itinerância (e várias entidades nos têm pedido isso mesmo), espero que na próxima edição haja condições (financeiras e de organização) para o fazer.

Que outras especificidades temáticas há vontade de abordar em edições futuras?

Quando começámos a preparar este ano de programação havia a ideia de tratar a obra de Fernando Lopes, na rubrica “percursos no documentário português”. Mas do que pudemos sentir nesta edição, parece-nos urgente tratar o problema dos arquivos, e se calhar vamos adiar essa retrospectiva – ainda há tanto cinema português por ver. Descobrimos que em Portugal ainda se perdem filmes (como no início do cinema, em que se perdeu quase 90% do mudo), ainda há pessoas que têm o seu espólio em casa, ainda há filmes escondidos, desconhecidos, nunca vistos, guardados numa prateleira, onde nunca ninguém os vai ver. Apercebemo-nos deste problema ao preparar a sessão com os filmes dos alunos de António Reis, que tivemos de mostrar em vídeo por só existirem cópias únicas, e os negativos – umas vezes de som, outras de imagem – estarem em sítios desconhecidos. Ao mesmo tempo esses filmes que mostrámos são uma pequeníssima parte daqueles que existem, e estão em paradeiro desconhecido. E finalmente ao preparar a retrospectiva Reis/Cordeiro percebemos os primeiros filmes que António Reis realizou colectivamente no Porto não estão recuperados, não podem ser vistos). Por tudo isto descobrimos o problema, e queremos chamar a atenção para ele. E contribuir para que isso deixe de acontecer, para que se invista na pesquisa e centralização de filmes “escondidos”, para que as listas de filmes a recuperar se tornem públicas e nós – programadores, público – possamos ter uma palavra a dizer sobre isso. Uma vez que o PANORAMA tem vindo a mostrar que o público português está ávido pelo seu cinema, é tempo de devolver o cinema português ao seu público.



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