“Para onde vão os guarda-chuvas” | Afonso Cruz

“Para onde vão os guarda-chuvas” | Afonso Cruz

Era uma vez o equilíbrio notavelmente/absolutamente/absurdamente/infinitivamente/moralmente/esteticamente desequilibrado

Num ano em que editou os infanto-juvenis “O livro do ano” e “Assim, mas sem ser assim”, o exercício teatral de “O cultivo das flores de plástico” bem como mais um tomo da “Enciclopédia da estória universal”, o multidisciplinar Afonso Cruz consegue, finalmente, lançar “Para onde vão os guarda-chuvas” (Alfaguara, 2013), um projeto no qual trabalhava há três anos e que vinha sendo adiado devido à sua complexidade e a outros compromissos que iam surgindo no seu empolgante percurso.

Ao longo de mais de 600 páginas, Afonso Cruz percorre um universo digno de umas peculiares mil e uma noites, que fazem o leitor entrar num Oriente efabulado e apaquistanado onde passado, presente e futuro servem de palco para um cenário que traz a mais profunda das dores, que é a perda de um filho, tendo como inspiração maior um conselho dado por Gandhi a um hindu destroçado por uma idêntica tragédia.

Repleto de surpresas e fortemente alicerçado no poder que a imagem representa enquanto objeto contextual, “Para onde vão os guarda-chuvas” começa com uma História de Natal dedicada a quem não acredita da mítica figura do velho das barbaras brancas e fatiota vermelha e, de uma forma, crua Afonso Cruz relata e ilustra uma outra visão da época natalícia que, ainda assim, recompensa os mais bem-comportados.

Tendo como figura central Fazal Elahi, um “marreco social” dono de uma fábrica de tapetes e que “gostava de ser como as paredes”, “Para onde vão os guarda-chuvas” é como que uma caixa de Pandora repleta de maravilhosas personagens, algumas das quais forçando uma tangente com outras obras do autor.

Numa sociedade onde a (in)tolerância religiosa é condição justificável para tudo, Fazal Elahi partilha uma casa, da qual se viam “as montanhas e o céu”, com a sua irmã de dentes desalinhados, Aminah, cujo sonho é casar com um rapaz de olhos azuis e que lhe dê uns sapatos vermelhos e perfumes estrangeiros. O primo Badini, um dervixe enorme e mudo que fala pelos cotovelos, Bibi, a sua mulher e Salim o seu cabritinho herdeiro, são os outros inquilinos da habitação.

A completar o eclético desfile de personagens surge um mulá dogmático, um general cujas vestes acerejadas tentam esconder intolerâncias e violências várias, hindus que se convertem ao islamismo, solados equivocados, prostitutas com e sem burcas, um anjo da guarda e muitos, muitos outros.

Todos estes ingredientes formam um prato absolutamente encantador, cuja escrita maravilhosamente encantada de Afonso Cruz nos deixa entregues a um dos mais deliciosos livros publicados em Portugal nos últimos anos e que tem, na metafórica visão estratégica de um jogo de xadrez, uma lição de vida, de comportamento e de existência.

Tendo como cenário uma sociedade onde a religião assume contornos de justificação moral para os mais bárbaros atos de violência, as mulheres são um ser menor e o trabalho infantil é uma necessária e bem-vinda banalidade, “Para onde vão os guarda-chuvas” é um livro cheio e que preenche uma obra maior que transcende a mera função romanceada que, através de uma narrativa ímpar, atinge o epicentro da pessoa que o lê. Mais que um livro, estamos perante um alimento para a alma e para os sentidos, características sempre presentes na obra de Afonso Cruz, sem dúvida um dos mais carismáticos e singulares escritores da sua geração e que tem na ponta dos dedos uma arrebatadora noção de humanidade.

Ao longo do livro, para além das muitas imagens cujo objeto central é um tabuleiro de xadrez, Afonso Cruz fez pequenas ilustrações, refugiando-se na sapiência dos fragmentos persas – frases, fruto da eventualidade da escrita de um anónimo do século I que foram enciclopedicamente recolhidas por Téophile Morel – para contextualizar a ação e o pensamento dos personagens.

E como a perda é o sentimento abrangente deste livro, Afonso Cruz deixa um apelo nas últimas páginas, encorajando o leitor a relatar uma perda semelhante ao que sucede a Fazal Elahi. Também a editora quis deixar uma nota especial no final da obra e oferece uma prenda a quem descobrir uma diferente palavra que apenas se pode encontrar em dois dos cinco mil exemplares da primeira edição desta obra.



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