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Paredes de Coura

Muitos foram os peregrinos festivaleiros que acederam aos sonidos vaticinados para a edição de 2009.

Estância natural, sensitiva e bucólica, em Paredes tudo se nos assemelha a um impressionável jogo de emoções. Ao evolar-se do anfiteatro natural que se foi compondo ao longo da noite, agigantam-se a hospitalidade das gentes da terra e a proficuidade da estrutura organizacional estabelecida antemão, que acredita ser o melhor cartaz desde 1993. Estivemos até ao fim para o poder, ou não, confirmar.

O primeiro dia era de recepção ao campista e, apesar do frio e presságio chuvoso, o espaço em frente ao palco secundário ia ficando, com a afluência dos peregrinos, bem mais quente. Os conimbricenses Sean Riley and The Slowriders (ver reportagem na edição de Agosto) abriram as hostes na hora certa (22h). Óptimo concerto, temperado de carisma e boa energia rock com cheiro a América do Norte, electrizante e sensorial, que o colectivo do recente single «Only Time Will Tell» tão bem sabe comandar, pois já perto do cair do pano na sua actuação entusiasmavam o público, que a eles se junta em compassadas palmas. Para regozijo dos presentes, o quarteto dilata com prazer aguerrido «Buffalo Turnpike» e «Houses and Wives» (que o público também entoou). Acabariam em grande com «Gotta Go». Poderiam muito bem encabeçar o cartaz deste dia de arranque das operações; muitos teriam agradecido.

Já perto das 23h40 foi a vez de Strange Boys. Com um blues rock, pincelado de country, e com uma nítida coloração, em dose controlada, de punk tão disjuntivo como esganiçado em monocordia pela voz de Ryan Sambol. Por diversos momentos, ouvindo (tentando!) atentamente, veio à lembrança bandas como Kd-Lang. Apesar de tudo, a avaliar pelo mexer de ancas, lá foram alimentando alguns ânimos mais famintos, até à chegada do franzino Patrick Wolf (pseudónimo de Patrick Apps).

O britânico, acompanhado de uma violinista, um baixista e um baterista, confirmou não só o metamorfismo – desde a troca de instrumentos, como o ukelele ou violino, até às várias vezes em que troca de roupa para animar, com despudor, desenhos diversificados; o do vedetismo e alguma pretensão serão reais, pareceu-me, a avaliar pela postura a roçar o patético, no excesso de arrogância juvenil, para com o pequeno suporte humano, atrás do palco, que lhe ia cedendo nas vontades. O brilho pop dissipar-se-ia na exuberância da electrónica, a proeminência do despojo instrumental variado no amorfo do gótico e a opulência glam pela rave bizarra. Mas a enchente, sobretudo feminina, em frente ao palco era notória e o passado, com raízes de música celta, revisitou-se em «The Libertine» ou mesmo «Tristan».

Já perto do final, entre o delírio da plateia, maioritariamente feminina, ainda se ouviram «The Bachelor», «Hard Times» (temas do último disco), «Battle» e uma breve alusão ao universo Pixies com a breve passagem de «Gigantic».

Os concertos no dia de abertura do Festival e recepção ao campista acabariam, mas o set dos Bons Rapazes, composto por Álvaro Costa e Miguel Quintão, subiria ao palco dois, cerca das 01h32, para animar este dia de arranque de mais um Paredes de Coura.

Depois de uma noite mal dormida (o espírito do festival, para muitos, ordena que se cumpram os rituais: praia e sociabilização campista bem cedo, delírio festivo – em que a música é proporcional à cerveja e afins – até raiar o sol), os muitos visitantes aguardavam expectantes o segundo dia do festival e primeiro no palco principal.

Eram já 19h30 e, embora muitos ainda estivessem a alimentar principalmente o corpo, mas também a mente (que o dia dois prometia) os The Temper Trap faziam soar os primeiros acordes. Pela primeira vez em Paredes de Coura, a banda que é comparada algumas vezes à sonoridade das guitarras deambulantes de U2, demonstrou garra e uma atitude rock´n´roll sem ousadias que pudessem transformar a direcção e forma que tencionam passar, apesar de nos lembrarem “aqui e ali” a aproximação a estilos diferenciados, que vão da melancolia – que finda num refrão épico e/ou eloquente, como em «Sweet Disposition» – à soul de 70 ou ao entreter de uns MGMT (sem tantos sintetizadores).

Do quinteto, oriundo de Melbourne, Austrália, faz parte o carismático vocalista indonésio Dougy Mandagi, que com a sua postura convicta ainda conseguiria atrair uma pequena plateia mesmo em frente ao palco.

Os senhores que se seguiram vinham, de modo lato, com uma conotação bastante favorável na crítica musical deste ano. The pains of Being at Heart são de Nova Iorque e chegaram por volta das 20h45, mostrando um indie rock eufórico, a lembrar os anos 80, apoiado nas três guitarras que caracterizam a banda e em Kip Berman, frontman, de semblante algo angelical, em nada condizente com a atitude virulenta que transborda. «Young Adult Friction» e «A Teenager In Love» foram alguns dos momentos de topo de um espectáculo em que predominou a ideia das influências que a banda abraça, desde Strokes a Cure ou mesmo Smiths.

Eram já 22h00 e os The Horrors, uma das bandas mais aguardadas da noite, já tinham um considerável molde humano à sua espera. Se para uns o disco de estreia, em que as influências do psychobilly clássico de The Cramps, mas também as derivas de The Trashmen são para alguns visíveis – em temas como «Jack The Ripper» ou «Craw Daddy Simone» – e acusavam boas premissas para o segundo dia em PDC, já para outros, apesar do bom espectáculo e do agrado pela, merecida, dedicatória a Parkinsons (banda que se iniciou na mesma altura, mas que viria a acabar) o público esperava batidas mais dançáveis e não tão introspectivas.

O punk dark soou forte na voz grave de Faris Rotter em temas como «Mirrors Image» ou «I Only Think of You» lembrando, por vezes, a estética musical de formações como New Fast Automatic Daphodills. Por esta altura, os plasmas gigantes passavam figuras como Joy Division, Nick Cave ou Peter Murphy para contentamento de muitos, considerando a quantidade de t-shirts que evocavam os vultos rock.

Às 23h30 foi a vez dos Supergrass se mostrarem ao jovem público nacional. O vocalista Gaz Coombes mostrou-se empenhado e comunicativo, partilharam canções desde o início do seu reportório (como o foi com «She´s So Loose») até outras mais recentes (caso de «Reel In You» do álbum “Diamond Hoo Ha”, datado de 2008).

O brit pop sentiu-se nas coordenadas traçadas pelo colectivo e passam em flash intermitente na memória alusões a bandas como Elastica (que, em tempos, chegou a elogiar esta formação) ou mesmo Primal Scream.

Mas a festa não poderia terminar sem a presença, ansiada, de Franz Ferdinand, pouco passava da 00h30. A banda de Alex Kapranos, que diz beber as influências da new wave de Talking Heads, entra em palco, sob ovação geral, ao som de uma introdução entre o assombrado e o glamour.

«Matiné», «No You Girls», «Do You Want To», «This Fire» (numa versão em que destilou adrenalina em estado bruto) e «Can´t Stop Feeling», do último “Tonight” faziam a imensidão, que se concentrava no anfiteatro naturista, esquecer do cansaço ou frio que já se faziam sentir.

Dia 31, terceiro dia do Festival Paredes de Coura 2009, um dos dias mais aguardados do evento. Nomes como Peaches ou Nine Inch Nails já davam que falar, durante a tarde, na zona vip. Mas é com Mundo Cão, na hora certa (19h) que a noite iniciaria. Durante cerca de quarenta e quatro minutos a Geração da Matilha conseguiu preencher de forma gradual a frente do palco principal com um rock dark cru – na intenção das letras que Pedro Laginha incorpora – mas também existencialista, sentimental e provocador.

Numa altura em que o consumismo massificado se instalou, os ideais de normalidade padronizados se vão acomodando, a aparência é tão forjada como diletante, a forma gramatical tomou o lugar da semântica e o querer parecer se confunde com o ser, surge um grupo de pessoas que apelam ao valor intrínseco das emoções; espelham-no de modo teatral e/ou cénico e ritmam-no com a musicalidade que as temáticas vão urgindo.

O público atento acompanharia em «Vertigem» e «Ordena que me ames» a banda de Braga e aplaudiu, satisfeito, no final.

Eram já cerca das 20h20 quando os Portugal, The Man se nos apresentaram. Com a energia dos 70’s deixada no ar, mal se posicionaram em palco, poderíamos mesmo como que sentirmo-nos num embarque pelo psicadelismo desta altura.

Com uma sonoridade que deriva entre a folk e a soul, a formação de Wasilla Arkansas, composta por John Gourley (vocalista) e Zach Carothers (guitarrista), entre outros, não deixa esquecer, nem um só momento, os míticos e geracionais Led Zeppelin e Jane’s Addiction. Não foram convincentes o suficiente para ver (re) agir a plateia.

Os Blood Red Shoes apareceram por volta das 21h25 e contagiaram também, com batidas possantes e perspicazes, riffs rápidos e assertivos, mas que caem sempre bem. O público ia-se agitando nas coordenadas simples, mas eficazes, para não os deixarem ir embora.

Apenas com bateria, guitarra e as duas vozes dos músicos, a banda soou certa, suficientemente direccionada para entrar no ouvido e colar-se no corpo de modo instantâneo. Numa espécie de electro punk projectam «I wish I Was Someone Better» e o cover de Velvet Underground, «Waiting For My Man». E soaram sempre bem.

Mas, eis que chegara um dos momentos mais altos e arrojados do Festival, já perto das 23h30, com a improvável e carismática Peaches.

Peaches é igual a si mesma. Sexualmente explícita, consegue feitos inéditos no PDC deste ano, como o de ter feito com que grande parte do público tirasse as camisolas e as rodopiasse no ar. De fato preto dourado e mangas tufadas de rosa a condizer com a maquilhagem sobre os olhos, roçada na guitarrista despojada nas letras e na postura, Peaches é inimitável valendo, acima de tudo, pela atitude destemida, despreocupada e algo humorística com que vai lidando com o espaço, o público e o palco.

O electro clash, a atitude punk, a tentativa do hip hop um pouco frágil, supera-se pela adrenalina e exuberância da canadiana, que foi mantendo sempre a interacção, viajando entre os braços do público, que a foi acolhendo em delírio, e mudando de indumentária em vários momentos. «Yer Dix», e o piropo aos bem abonados portugueses, «Talk To Me», ou «Serpentine» estarão, sem dúvida, mais do que na memória auditiva, na visual, largada pela excentricidade de Peaches no palco de PDC.

A noite terminaria, cerca da 01h45, com a subida ao palco em apoteose de Trenz Reznor. O recinto esteve completamente preenchido, para receber (ao que consta) um dos últimos concertos dos Nine Inch Nails.

Desperto mas incisivo, o antigo “padrinho” de Marilyn Manson impõe-se sobre o suporte do microfone de forma obstinada e obsessiva. A música é de revolta e industrial. «Survivalism» tem direito a coro colectivo, «Head Like A Hole» é festejada por milhares de pessoas com os braços em direcção ao céu e «The Hand That Feeds» é elevada sob palmas consistentes. «Somewhat Damaged», «Sin» e «Piggy (Nothing Can Stop Me Now)», enchem o espaço em que as pessoas os idolatram de modo catártico e sem barreiras.

No último dia, às 19h20, satisfeito por estar a tocar pela primeira vez em Paredes de Coura, Manel Cruz escolheu uma mostra do já longo reportório de Foge Foge Bandido. Para muitos dos presentes, o excesso de intimismo nas músicas não é muito colaborante nos palcos, enquanto outros se juntavam ali na frente e acenavam nas letras e acordes menos circunspectos e mais dados à interacção, entoando as letras em «Canal Zero» e «Canção da Lua».

Entre brinquedos e instrumentos, Manel Cruz regressaria para um encore a pedido dos festivaleiros. «Borboleta» foi o tema escolhido.

Os Right Ons apareciam por volta das 20h30, embora com uma fórmula um pouco gasta – marcada pelas reminiscências blues/rock´n´roll soul, já (bem) conseguida e idealizada por outras bandas (caso de Wraygunn, por exemplo).

Fizeram de tudo para atrair as atenções, inclusive oferecer garrafas de água, mas o público não se mostrou receptivo e permanecia, salvo pontuais excepções, pouco participativo à chamada do rock retro da formação.

Os Howling Bells vieram de longe, especificamente de Sydney, na Austrália, e começariam em PDC eram 21h50. Mas, nem a longa viagem, nem a simpática Juanita Stein (vocalista e guitarrista) alteraram o panorama no recinto. Ou seja, poucos foram os que se levantaram do chão, apesar do agradecimento a um público, segundo Juanita, “tão amável” e a à alusão ao espaço. A cantora dizia nunca ter tocado num espaço tão bonito. Com uma pop algo ensombrada num estilo próximo de Alison Mosshart (frontwoman de Kills) e de negro vestida, as vibrações do grupo pouco se retiveram na lembrança dos que “assistiram” ao concerto.

Às 23h10 apresenta-se-nos, num português previamente ensaiado, o ex-Pulp Jarvis Cocker. Excelente performer, mercador de emoções, cavalheirismo e bom gosto, tudo temperado com um irresistível charme e sentido de palco. «Angela» é do último disco e foi recebida em apoteose. Do glam à disco ou blues, o Inglês desdobra-se em harmonioso sentido presencial e de liberdade. Um senhor que proporcionou um dos momentos altos do festival minhoto deste ano.

Mas seriam os The Hives, cerca das 2h10, no seu rock´n´roll ritmado e rebeldia adolescente que fizeram bater o pé e abanar cabeças de modo consecutivo e frenético.

Apareceram de branco e, se de amarelo fosse, fariam, ainda mais, lembrar na atitude em palco os míticos da new wave Devo, ainda que entre a homenagem – com versão a Sonics – e breves momentos em que a projecção vocal se assemelhou a Joey Ramone (vocalista dos Ramones). Os suecos destilaram, em grande, a efervescência inquietante de matrizes de audácia punk pop, sem grande florear, repetindo, por vezes, o “ho ho ho” até à exaustão (mesmo depois do encore). Mas o público do último dia estava como que sedento dessa instintividade primária e todos entoavam com energia irrepreensível músicas sabidas na ponta da língua como «Main Offender», «Walk Idiot, Walk», «Hey Little World» ou «Won´t Be Long».

Os The Hives fecharam a cortina de mais um Paredes de Coura, onde estiveram, neste último dia, cerca de vinte e três mil pessoas.



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