pParquet Courts|”Wide Awake”

Parquet Courts | “Wide Awake”

Os Parquet Courts sempre foram banda de andar sem trela, até mesmo quando foram apelidados de próximos Parkinsons.

Já cá andam há alguns anos, a editar álbuns de modo prolífico desde 2011 e criaram uma paleta musical definida que permitia a qualquer um, até mesmo quem não é fã, identificar que eram eles a cantar na rádio, por exemplo. A escolha do termo “paleta” aqui não é por acaso, uma vez que a paixão que o vocalista Andrew Savage nutre pela pintura acaba por invadir o campo da música, tanto no modo como a banda constrói a sonoridade dos álbuns como também na arte que os envolve. Aliás, é o próprio Andrew que faz as ilustrações e o anterior LP, “Human Performance”, foi nomeado para um Grammy precisamente pelo seu exterior, sem demérito para a música, que conhecemos bem.

Para o seu 6º trabalho, os Parquet Courts podiam continuar a fazer aquilo que já faziam antes e que sabiam que faziam bem, apesar de parecer que na realidade aquele grupo de músicos anda nisto pelo prazer da música e de tocarem juntos. Afinal, mudaram-se todos do Texas, exilados, para tomar outros ares, foram sorver inspiração para Nova Iorque e já eram amigos antes, portanto a base de tudo o que fazem é estarem bem em conjunto. Curiosamente, acabaram por tomar para si uma sonoridade punk cuja tradição reside na cidade que nunca dorme e cuja vibração nenhum dos membros viveu de verdade. Tal não invalidou que na maior do tempo os Parquet Courts soem às bandas que fizeram a história do punk daquela cidade mas sempre percorrendo outras paragens, sobretudo naqueles momentos em que Andrew soa a crooner romântico ou as aventuras se tornam mais rock, em ambos os casos (e em muitos outros exemplos) sempre muito directos e parecendo sempre sem paciência ou tempo. É que os Parquet Courts têm pressa em estar vivos e aproveitar tudo aquilo que se passa à sua volta.

Quando a palavra se espalhou na rua de que Danger Mouse seria o produtor do 6º álbum da banda, as cornetas soaram para os fãs, parecia verdadeiramente o fim do mundo. Como é que o som dos Parquet Courts iria ficar igual com a intervenção do homem cujo nome está ligado a bandas como Gnarls Barkley, Gorillaz ou Red Hot Chilly Peppers? A verdade é que não ficou igual e se não se puder considerar melhor considere-se apenas diferente e esse era o objectivo da banda, fazer aquilo que ainda não tinham feito e mesmo ir mais além disso, dizendo e fazendo aquilo que a maioria das bandas não estava a fazer. Poder-se-ia dizer também que os Parquet Courts acordaram um dia ainda mais vivos do que se suporia e, por isso, “Wide Awake” é a declaração selvagem e repleta de laivos políticos de que estes músicos estão aqui, vão às vezes gritar aquilo que têm para dizer mas os olhos estão bem abertos. A intenção política das letras também foi um dos elementos assumidos e, por isso, é inevitável ligar grande parte do discurso ao que se vai passando na sociedade americana e que, por sua vez, está directamente ligado a decisões ou não-decisões políticas.

“Wide Awake” poderia ser encarado como o LP destrutivo mas vem fazer precisamente o oposto, apesar de aparentar decretar verdades empíricas e pouco mais do que isso. Há optimismo e vida a pulsar neste novo trabalho, os Parquet Courts puseram os colares de contas do Mardi Gras e as perucas cor de rosa e foram dançar pelas ruas de Nova Orleães quando tudo arde à sua volta. Vestidos com os seus melhores fatos de festa, foram protestar alegremente para junto das pessoas para quem cantam, não se distinguindo bem quem são uns e outros. Esse protesto assume uma forma mais social quando canta a voz dos que não têm voz, voltando o seu olhar para as incongruências da sociedade do dólar que depois não vê quem dorme na rua, numa referência directa ao dia-a-dia da cidade de Nova Iorque. Em «NYC Observation», os Parquet Courts atiram-se ao pescoço da grande finança e da bolsa e às pessoas que não param para perceber o que se passa à sua volta: Talk so loud you don’t hear other people’s problems/Trying not to look, you’re not the person to solve them.

No fundo, não há razões para alarme, os Parquet apenas aumentaram o leque de influências que trazem para a sua música, soando um pouco mais a funk ou até country mas mantêm a sua identidade irrequieta e provocadora, como atestam logo na faixa de abertura do álbum «Total Football» dizendo desafiadoramente para quem quiser ouvir And I bet that you thought you had us figured out from the start. Apesar de ser um hino à auto definição e à capacidade de não perder a identidade no meio da multidão, estabelece o tom em que as restantes faixas se irão desenvolver. Se não soubéssemos a verdadeira intenção dos Parquet Courts, quase poderíamos ficar assustados com estas letras incendiárias em que Andrew declara que Only through those who stay awayke can an institution be dismanteled e de repente estamos na Nova Iorque dos anos 70, entre motins e o choque imenso entre gerações e modos de vida – quase, em espírito, próximo de “The Wall” dos Pink Floyd, muito longe em termos sonoros, claro. Os tiros metafóricos disparados em “Wide Awake” voam em todas as direcções, desde atacando a identidade corporativa das empresas, a importância do dinheiro e, de forma mais directa, a violência na forma do uso das armas em que os Estados Unidos se encontram mergulhados desde há muito.Talvez por isso, «Violence» soe àquelas bandas sonoras de filme policial dos anos 70, entre linhas de baixo trashy funk e a raiva latente de Andrew gritando quase ao ponto de ficar sem voz Savage is my name because Savage is how I feel.

A base de funk continua pelo álbum logo a seguir em «Before the Water Gets Too High», remetendo para o universo dos filmes de sexploitation também dos anos 70 e baixando um pouco o ritmo de “Wide Awake”. Se pensavam que as referências não iam passar disto e que talvez só com isto já era demais, desenganem-se porque existem muitas outras faixas que passeiam alegremente pelo folk rock, a fazer lembrar Mamas and the Papas, como é o caso de «Mardi Gras Beads» que, no entanto, termina com guitarradas mais próximas de Status Quo. Este tipo de variações dentro até da mesma faixa dá uma ideia da diversidade e loucura que aconteceu no novo LP dos Parquet Courts e o que parece é que apesar do tom sério das letras a banda se divertiu a gozar com a cara de quem tem expectativas muito elevadas quanto ao caminho que os próprios deveriam seguir. Tinham as cartas todas na mesa e, de repente, baralharam tudo só porque tiveram vontade, o que até está de acordo com o espírito dos jovens que saíram de uma pequena cidade do Texas porque já se começavam a sentir velhos e ainda só agora vão por esses trintas afora e já estão sem paciência para aturar fórmulas pré-definidas. O contraste entre aquilo que se diz e o tom da música é mais vincado em «Death Will Bring Change», uma canção que fala mesmo sobre aquilo que parece mas depois introduz coros de crianças para cantar o refrão, acentuando a tónica sonhadora que até está presente no facto de, no fundo, não ser um tema fatalista mas que apenas constata factos emocionais.

“Wide Awake” é uma declaração feroz e muito viva de existência num mundo que nem sempre aceita a norma e «Normalization» é o expoente máximo dessa premissa, novamente numa tónica muito punk rock, crua, sem filtros, a perguntar afinal Normalization, what am I thinking?/Immunization, power conditioning e sem grandes certezas se se passa no teste do fingimento de que tudo está bem. Aqui para nós que ninguém nos ouve, é possível que nesse teste os Parquet Courts chumbem em grande estilo porque todo o conteúdo do álbum gira em torno destas questões da verdadeira existência, do poder do colectivo, da massificação do pensamento, do não-pensamento, da destruição do indivíduo no contexto social e quase parece um tratado nihilista, que a banda, aliás, nega ser. Pode ser só aparência, até porque a faixa que dá título ao álbum é, ao mesmo tempo, um hino discosound e a afirmação de que a banda está bem acordada mas, neste caso, parecem ter tomado só cafeína a mais e não conseguem parar – o que, de qualquer modo, não retira o mérito a um tema bastante perfeito em termos rítmicos, em que todos os membros da banda cantam e é inevitável dançar freneticamente só porque sim.

“Wide Awake” é uma loucura em forma de música, oscila entre imensas referências musicais que todos os músicos têm, claro, e os Parquet Courts não as negam, fazem a música que têm vontade quando têm vontade, até mesmo quando lhes apetece acabar o álbum numa tónica Mungo Jerry a la “Summertime” com a faixa «Tenderness», a pedir que esqueçamos tudo o que se passou antes e que façamos as pazes uns com os outros, afinal foi só um grande ataque de nervos que resultou num monumento maravilhoso ao prazer de fazer música. Não se acomodaram e revolucionaram a maneira como se divertem, sem necessidade de pedir desculpa, construindo com estas 13 faixas uma viagem tão boa de seguir com eles que só pode ficar em loop na cabeça durante muito tempo.



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