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“Pater”

Fantasia documentada.

Apesar de tudo, apesar do título desta crítica, não será muito arriscado catalogar “Pater” como um documentário. Claro que não se está perante um exemplo puro e duro do género, factual e imparcial, ou uma qualquer reportagem televisiva com cabeças falantes, longe disso. Dir-se-ia que Alain Cavalier, que derivou da ficção para o cinema documental, tem vindo a fazer documentários auto-biográficos, não tanto no sentido de diarístico (que também está presente), mais de pessoal (pessoalíssimo), como se explorasse (estudasse) a própria mente (ou alma). Documentários mentais, possivelmente.

Assim, “Pater” começa por ser uma manifestação (encenação) de uma fantasia de Cavalier: ele é o Presidente da República Francesa que propõe ao Primeiro-Ministro que pretende empossar, o actor Vincent Lindon — que mais do que uma concepção abstracta de um Primeiro-Ministro, interpreta a sua hipótese de Primeiro-Ministro —, que juntos façam uma lei que imponha um tecto salarial, que será definido através de uma proporção com o salário mínimo nacional. Proposta perigosa (irrealista), que irá encontrar os seus obstáculos na própria fantasia.

Aliás, é interessante como a fantasia vai absorvendo alguns pingos de “realidade”: os costumeiros jogos políticos e facadinhas nas costas, que culminam numa disputadíssima corrida eleitoral, que põe frente-a-frente os dois protagonistas.

Contundo, “Pater” funciona em mais do que um plano: nunca esconde a encenação da encenação (a realidade), em que os papéis principais são entregues ao sensato e meloso Cavalier (sempre a acariciar as próprias mãos) e ao mais jovem e intempestivo Lindon (cuja principal acção política é uma discussão com o senhorio). Ambos são vaidosos (a operação cosmética de Cavalier, o imenso closet de Lindon), gulosos (há um certo fetiche com comida), algo fanfarrões (cada um à sua maneira), ambos expõem os seus pecadilhos para a câmara (e para o espectador) sem grandes cerimónias.

E ambos permitem que as suas personagens vão contaminando a sua relação (ou vice-versa). Aqui entra a terceira e última dimensão do filme, porventura a essencial, que se esconde à vista no próprio título: a da passagem de testemunho, do mentor para o protegido, do sábio para o aprendiz, do velho para o novo, do pai para o filho. Que tem mais a ver com aquelas escadas que, aos oitenta anos, já parecem demasiado difíceis de subir do que com qualquer fantasia política. Se Alain Cavalier é o pai espiritual de “Pater” (e também ele recorda os pais: o seu, com que se vai parecendo cada vez mais, e aquele empregado que não se chamava Pierre e nunca se denunciou em honra do progenitor), não chega, quiçá, a passar qualquer ensinamento a Vincent Lindon, que, por sua vez, olha com saudade os sapatos do avô. Ou talvez o único destinatário seja o espectador.

E, assim, com o mistério da morte a ensombrar, se encena a vida.



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