Paterson

“Paterson”

O espectador do quotidiano.

“Paterson” de Jim Jarmusch sugere-me uma ideia muito interessante: ser espectador do quotidiano.

Este filme conta a história de Paterson, interpretado por Adam Driver, poeta e condutor de autocarro, que vive em Paterson, New Jersey. Paterson vive com a criativa e excêntrica Laura, interpretada por Golshifteh Farahani e Marvin, um temperamental bulldog inglês. Paterson acorda todas as manhãs sem despertador, toma o pequeno-almoço sempre da mesma maneira, segue para o trabalho onde encontra o mesmo colega e durante um dia conduz um autocarro de passageiros pelas ruas de Paterson. Ao final da tarde regressa a casa, endireita a caixa do correio, janta com a namorada e depois vai até ao bar do bairro beber uma cerveja.

Se para algumas pessoas esta seria uma entediante rotina, Paterson encontra nesta sucessão de eventos momentos que servem de faíscas para os poemas que escreve. Um sonho que Laura teve, uma caixa de fósforos de cabeça azul, as conversas que ouve no autocarro, o banco do jardim com vista para as quedas de água ou as histórias das pessoas que frequentam o bar. A rotina permite a Paterson assistir ao desenrolar das histórias de cada um dos intervenientes do seu dia e a partir delas alimentar as suas reflexões poéticas sobre o quotidiano. Apesar de Paterson só querer assumir o papel de espectador, o realizador desafia esta personagem, e deixa que os eventos o coloquem como “personagem principal”, expondo-o e deixando-o lidar com as suas vulnerabilidades.

Adam Driver tem uma representação muito forte, conseguindo passar para o público o mundo interior de um personagem introspectivo, contemplativo, introvertido e que muitas vezes só tem como resposta um trejeito com a boca, uma forma de olhar ou uma respiração.

Numa altura em que as vidas estão dominadas pelo frenesim dos smartphones, das inúmeras solicitações para os melhores eventos, os melhores restaurantes, os melhores destinos, creio que este filme ajuda a desmistificar as conotações negativas associadas à rotina. Se ficarmos um pouco mais silenciosos, se formos um pouco mais conscientes do que nos rodeia, se abrandarmos, podemos ser positivamente surpreendidos pelo acaso.

 



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