Paulo Kellerman

A “Gastar Palavras” com a rua de baixo.

Paulo Kellerman é na verdade Paulo Frias e já não é a primeira vez que visita a Rua de Baixo. Aqueles que acompanham a newsletter das nossas edições desde o princípio certamente se lembram da net-novela “Foi na Rua de Baixo” que, durante doze episódios, prendeu os nossos leitores aos ecrãs e os deixou completamente ansiosos pelo seu desenvolvimento.

“Gastar Palavras” surge agora como uma reunião de alguns dos textos escritos por Paulo ao longo destes últimos tempos e é uma boa oportunidade para que aqueles que ainda não os conhecem rapidamente se renderem ao seu estilo. De uma forma simples e que rapidamente prende o leitor, Kellerman utiliza a narrativa curta para abordar sentimentos e pensamentos com que todo o ser humano se identifica e se sente tentado a reflectir. A morte, a solidão ou o confronto interior a que certas situações nos obrigam são apenas algumas das temáticas com que o autor se debate. A leitura do seu livro deu-nos a desculpa que precisávamos para querer saber mais sobre Paulo Kellerman e as suas estórias porque não há nada melhor que dar a palavra a quem a trabalha diariamente.

RDB: Primeiro, gostaria de saber quem é o Paulo Kellerman, o que faz quando não está a escrever, porque escreve… Tenho a ligeira impressão de ser um pseudónimo, mas posso estar enganado

Paulo Kellerman:
Certamente que é um pseudónimo. Uso-o quase há dez anos e começou como uma piada; depois, foi-se mantendo, porque de certo modo era uma marca distintiva; hoje em dia, tornou-se um pouco opressivo, já estive tentado a deixar de o usar. Mas tem sempre lados positivos; por exemplo, é um excelente modo de detectar a hipocrisia de algumas pessoas, que se aproximam muito curiosas e depois se afastam, decepcionadas, quando percebem que não senhor, não sou descendente de alguma família judia que fugiu da Alemanha durante a 2ª Guerra.

Quanto ao meu bilhete de identidade, não revela nada de muito importante: nasci há 31 anos e vivo em Leiria; tenho uma filha, que me ocupa quase todo o tempo livre; além da literatura, tenho outra paixão: a música electrónica; faço rádio há 10 anos. Pertenço a uma tertúlia literária, onde se organizam edições, eventos, partilhas; editei uma revista literária, que regressará em breve em versão online. Profissionalmente, já fui aprendiz de jornalista (muito brevemente) e aprendiz de editor; actualmente, contribuo para o défice: sou funcionário público numa escola, com responsabilidades na área informático-administrativa.

Quanto ao que interessa… Escrever é uma forma de reflectir sobre o mundo e sobre a vida. Através do que escrevo, vou colocando interrogações e experimentando explicações (quase sempre provisórias). É uma forma de ordenar o caos e de interagir com os outros. É um modo de buscar cumplicidades, de partilhar ideais, deslumbramentos, prazeres, segredos. É simultaneamente uma forma de auto-conhecimento e de partilha, de afirmação individual. É uma vaidade, também. E uma forma de exorcizar medos, de destilar ódios e revoltas, de fantasiar fantasias, de fugir, de tentar ter uma palavra, de manter a crença nas utopias. Um viciozinho tão poderoso quanto alienante.

Como surge este gosto pela escrita, especialmente pelas narrativas curtas?

Comecei a escrever na adolescência, como forma de afirmação; nunca fui muito popular e era fisicamente desajeitado (não jogava futebol muito bem, era desastrado no snooker, coisas assim); um dia, descobri que havia um gosto especial de alguns colegas em ouvirem as divagações pseudo-engraçadinhas que escrevia nos testes; e eu pensei: ai é? Parvoíces destas posso eu escrever muitas. E fui escrevendo parvoíces, mesmo quando já não era uma forma de afirmação muito eficaz e se transformou mais num modo de disfarçar a solidão.

Depois, percorri um longo caminho de aprendizagem, em que experimentei muito, em que fui procurando, testando, arriscando. Parece-me muito importante esta busca íntima, secreta; andei uns dez anos nisto, até perceber o que queria, e como poderia lá chegar. Há que pensar um pouco, ler muito, escrever porcarias que não se mostram a ninguém. Não basta alinhavar umas linhas, pô-las num blog e esperar que venha um editor e diga: chiça, és o melhor escritor da tua geração.

Foi desta busca que surgiram algumas certezas, sendo uma delas a de que me interessa especialmente a narrativa curta, porque é o único formato que se adapta à minha necessidade de exploração, que me permite tratar múltiplos assuntos ou até tratar o mesmo assunto de múltiplas formas, por vezes opostas. As minhas estórias têm geralmente três elementos distintos: o tema, a ideia e o argumento.

O tema é o assunto sobre o qual me apetece reflectir, a ideia é o pretexto que permite explorar esse tema e o argumento é o desenvolvimento prático da ideia, o conjunto de personagens e acontecimentos que conduz (quando a coisa corre bem) às tais conclusões provisórias. E há dezenas de temas que me interessa abordar, dezenas de ideias que quero explorar. Se escrevesse romances ou peças de teatro, estaria muito limitado, muito condicionado; um romance são dois anos de vida. Com as estórias, ando obcecado uns dias, no máximo umas semanas, e depois passo em frente. Cada conto representa um pedacinho de auto-conhecimento, uma exploração, uma questão examinada, a que se tentou responder.

Quando me forço a pegar em estórias e transformá-las em algo mais extenso e complexo, geralmente acabo por ficar com uma espécie de romance por episódios, que não me satisfaz. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a novela que escrevi para a Rua de Baixo.

Entrando propriamente neste livro, porquê o título, antes de mais? Tal como no último texto, sentes que as palavras não chegam assim a tantos lugares como desejarias e não percebes o propósito de as gastar, ou tem a ver com algo diferente?

Nos últimos anos fui acumulando estórias, que espalhei por inúmeras edições de autor. Quando surgiu a oportunidade de publicar este livro, peguei nalgumas das minhas preferidas e dei-as ao editor. Ele eliminou metade, por questões de espaço, e transformou as outras em livro. Foi ele que escolheu o título, a minha sugestão era “Um destes dias, morro”. A estória “Gastar palavras”, que parece ser a preferida de toda a gente, era a única que eu eliminaria sem hesitação; tinha outro título, chamava-se “O dia em que fiz trinta e dois anos”, mudei para “Gastar palavras” no último momento. Só depois do António Luís Catarino, o editor, ter decidido que seria esse o título é que comecei a perceber o encanto da expressão.

Quanto à estória em si, foi escrita num momento menos bom e ficou excessivamente pessimista. Sou uma pessoa silenciosa e tento usar as palavras com moderação; não temo que, um dia, se me acabem mas receio que deixem de produzir efeito. A banalização das palavras é uma coisa terrível, assustadora. A minha filha, que tem cinco anos, diz frequentemente que me adora; das primeiras vezes era um deslumbramento; agora, com a repetição, e tendo ela consciência do poder da palavra e das possíveis consequências do seu uso, percebo que é apenas mais uma palavra que ela aprendeu e usa. De certo modo, gastou-a. A estória é, em parte, sobre isto: as palavras que se dizem e não significam nada.

Estes textos têm sempre uma boa dose de vivências do escritor? Parecem-me, a mim, muito pessoais e que há sempre inerente às mesmas pensamentos que te atravessam a mente… sente-te à vontade de discordar

Todas as estórias são pessoais, há sempre um lado confessional. O que difere de estória para estória é a proporção realidade / ficção. Que cada leitor tente adivinhar o que é verdade e o que não é não me incomoda especialmente, faz parte do jogo, da sedução.

A tua escrita nesta reunião de textos é sempre muito fluida e de leitura fácil (li-o em pouco mais de uma hora) mas nem por isso menos desconcertante… é um estilo próprio, ou tem a ver com o tema que escolheste abordar neste livro?

Dizer de alguém que tem um estilo próprio é o maior elogio que se pode fazer… Tem um pouco a ver com aquilo que disse antes, anos de escrita privada, de experiência, de busca. Não escrevo umas estórias quando calha, pelo contrário. Escrevo insistentemente, com alguma disciplina; muitas coisas não resultam e ficam pelo caminho; outras perdem o prazo de validade e são retrabalhadas; analiso o que escrevo com algum rigor e vou tentando corrigir, evoluir. É natural que com o passar do tempo, vá aparecendo alguma uniformização. Não sei se já é um estilo próprio e certamente que ainda está em aperfeiçoamento. Mas sim, acho que há algumas características, técnicas e temáticas, que são comuns à maior parte das estórias.

Debruçam-se todos sobre uma temática parecida: sentimentos e pensamentos humanos, que de alguma forma levam o leitor a reflectir sobre eles. É um objectivo teu? São também estas temáticas que sobre as quais te debruças?

Fizeram-me, mais que uma vez, uma observação sobre este livro que nunca me tinha ocorrido: por vezes escrevo o que os outros pensam secretamente mas dificilmente verbalizariam. Não sei se é verdade, gostaria que sim, porque a escrita é, para mim, uma busca de cumplicidades, de amigos distantes e silenciosos. E isto tem muito a ver com alguns dos temas que trato, que são simultaneamente universais e privados. De qualquer modo, o livro apenas contém uma ou duas estórias de 2005. As mais recentes têm abordado novas temáticas, explorado novos deslumbramentos. E, já agora, podem ser lidas num blog que criei logo após o lançamento do livro, e onde vou arrumando as que mais me interessam. Chama-se “a gaveta do paulo” e tem dois contos novos todas as semanas.

Acho engraçado a forma como colocas certos pensamentos em itálico, dando a ideia que são reflexões sobre reflexões. Consegues explicar-me o porquê de utilizares esta “bengala”?

Ao longo dos anos fui experimentando algumas técnicas, a maior parte das quais fui abandonando. O uso do itálico não só se mantém como tem sido aperfeiçoado. Serve para reforçar ideias, para denunciar segundas leituras ou interpretações menos óbvias, para sugerir ou sugestionar, para segredar ao leitor. Ou para realçar palavras mais gastas.



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