Pedro Almodovar

Pedro Almodóvar

O regresso de um Almodóvar irreverente, anárquico e escandaloso

Com apenas oito anos, Pedro Almodóvar foi enviado para Cáceres para estudar religião. Nessa altura, o jovem natural da região de La Mancha já sabia que era pelo Cinema que se perderia de amores; cresceu a ver os grandes clássicos do Cinema europeu e norte-americano, bebeu dos grandes realizadores. Com George Cukor e Reiner Werner Fassbinder, entre outros, começou a compreender e a aprender a arte de contar histórias no feminino. A partir daqui iria desenvolver-se uma característica que o marcaria ao longo da sua carreira: criar histórias preenchidas por carismáticas e complexas mulheres.

Depois de ser marcado por uma infância num seminário, a sua vida seria abalroada pela loucura pós-franquista da Movida Madrileña (durante a qual foi parte do duo glam-rock Almodóvar & Macnamara). A sua obra reflecte estes dois momentos da sua vida. Com o referido movimento contra-cultural veio a liberdade de expressão, a transgressão dos tabus impostos pelo regime Franquista, o uso de drogas, etc. Este momento é marcado pela ressurreição da economia e a necessidade emergente de uma nova identidade espanhola. É no meio dessa incansável procura por uma identidade que o realizador começa a trabalhar.

Em 1980 começa a sua odisseia cinematográfica. À primeira vista o seu primeiro filme, “Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón”, não faz qualquer sentido. A cidade de Madrid é transformada num paraíso punk com transexuais e freaks circundados por um espírito de abandono liberal. Cria um universo que não requer noções de senso comum ou mesmo de normas sociais. Não há nada permanente. Preferências sexuais, religiosas, fetiches e lógica, mudam num piscar de olho. Cenários absurdos e personagens que derivam por causa de decisões com base nos seus impulsos quase freudianos são elementos que habitaram os filmes de Pedro Almodóvar.

Nos seus filmes, Almodóvar retrata a modernização de Espanha através de elementos kitsch, bem como através de emoções cruas e moduladas. Deixa-se influenciar pelo catolicismo presente na sociedade e celebra o mundano simbolismo que a vida moderna tem para oferecer aos marginalizados.

Os seus personagens são evidentemente perturbados. O cineasta tece habilmente interacções psicológicas e desconstrói e volta a construir modelos de masculinidade e feminilidade, sempre relembrando os seus personagens e os espectadores que a expressividade de ambos irá, ao longo da vida, tropeçar nos obstáculos de uma sociedade que se julga avançada.

Os ingredientes estavam lançados. Nunca se tinha visto nada equiparável ao estilo visual de Almodóvar. Tudo parecia fresco, novo e intrigante. Aparentemente, estava encontrado o antídoto perfeito para o mainstream de Hollywood. Os primeiros filmes do realizador eram (e ainda são) uma viagem de descoberta, um presente preenchido com um brilhante laço.

As contradições que estão inerentes à sua abordagem ao Cinema e à forma como constrói e reconstrói convenções genéricas, apenas tornam o seu trabalho mais interessante e a experiência de assistir a sua obra mais agradável. Pedro Almodóvar é uma figura singular que cria filmes que atravessam e/ou transcendem os limites da arte e do Cinema dito mainstream, o que por si só é um feito único.

Pedro Almodovar

Na sua figura enquanto cineasta temos um autor de arte célebre, que por sua vez celebra a cultura popular. O seu trabalho permanece firmemente enraizado na cultura espanhola. Ainda assim, questiona os fundamentos da sua identidade cultural que, de alguma forma, reflectem a idade de ouro dos estúdios em Hollywood. Dois universos que são muitas vezes considerados pólos opostos, entre os quais não existe espaço para se desenvolver uma ligação.

Embora o seu trabalho possa não ser considerado autobiográfico, no sentido explícito de contar a sua história de vida, é impossível não reconhecer elementos de um estilo profundamente pessoal e um conjunto de motivos temáticos que se repetem ao longo da sua obra. Desde o forte carácter regional de “Volver” à loucura madrilena de “Laberinto de passiones”, passando pela carga emocional e obscura de “La mala educación”, cada um dos seus filmes consegue ser extremamente pessoal. Contudo, em simultâneo consegue ser, ainda assim, terrivelmente espanhol na sua abordagem a temas universais.

As regras de fazer a sétima arte não são levadas ao extremo pelo realizador. A esta é dada espaço para crescer e respirar, permitindo assim o inesperado e a surpresa, ambos elementos que se tornam agradáveis aos olhos do espectador. O que à partida parecia levar a uma colisão funciona em conjunto numa estranha e ímpar harmonia.

Até “La piel que habito”, seu penúltimo trabalho, Pedro Almodóvar construiu uma impressionante filmografia que evoluiu de forma surpreendente e como nenhuma outra que se conhece. Como tal, foi dado ao realizador espaço para cometer pequenos erros. Qualquer autor que se preze precisa de dar um passo atrás e olhar para o passado, como uma forma de compreender o seu próprio processo evolutivo e recomeçar de novo.

Poder-se-á dizer que algo semelhante aconteceu com o fracassado “Kika”, uma comédia que procurava recuperar os seus seguidores, mas que acabou por servir apenas como um oportuno ponto de viragem na sua carreira. Depois vieram “La Flor de mi Secreto”, “Carne Trémula” e “Todo Sobre mi Madre”. Três dramas que preparam o caminho para aquelas que viriam a ser as suas obras mais ambiciosas: “Hable con Ella”, “La Mala Educación”, “Los Abrazos Rotos” e “La piel que habito”. Tudo histórias que recorriam ao noir, onde o realizador demonstrava uma enorme segurança e certeza no que queria transmitir ao mundo. Todos estudos sobre as profundezas humanas. Entre estas obras surgiu uma comédia de costumes, “Volver”, imbuído de graciosidade e de verdade, ainda que comece a partir da dor e da perda.

O que se segue é o regresso de um Pedro Almodóvar irreverente, anárquico e escandaloso, à comédia. O seu mais recente filme, “Os Amantes Passageiros”, que se tornou num blockbuster em Espanha, parece ser o antídoto encontrado pelo realizador espanhol para enfrentar o medo da morte, o medo do vazio que rodeia um grupo de estranhos. Será que está de volta a sua poética paixão pelo amor homossexual, a loucura total entre homens e mulheres e uma boa dose do que de melhor os anos 80 têm para oferecer?

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