Pedro Almodóvar

Regressa ao grande écran com o seu filme mais controverso de sempre.

A igreja não me interessa, nem como adversário.

Esta expressão é a resposta de Pedro Almodóvar áqueles que consideram que o seu último filme “Mala Educación” (Má Educação), recentemente estreado na nossa vizinha Espanha, serve de ajuste de contas a toda a educação católica que o realizador teve na sua infância.

O filme está rodeado de uma grande polémica, já habitual na carreira de Almodóvar e provavelmente uma das principais imagens de marca do realizador, que ao longo da sua magnífica carreira tem chocado muitos e maravilhado outros com filmes que marcaram para sempre a história do cinema mundial.

A realização e o cinema sempre estiveram sempre presentes na sua vida e desde muito cedo que Almodóvar começou a filmar. Natural de Calzeda de la Calatrava, mudou-se para Madrid aos 16 anos, sem dinheiro nem família, com o propósito de estudar cinema na Escola Oficial que tinha sido encerrada por Franco. Impossibilitado de aprender a técnica, dedicou-se a aprender a vida cidadina de Madrid que afinal se transformou no mote dos seus filmes.

Depois de ter conseguido emprego na Telefónica (companhia telefónica nacional espanhola), dedicava as horas livres à produção artística, primeiramente como produtor teatral junto ao grupo vanguardista Los Goliardos, posteriormente como realizador de curtas-metragens em Super-8, tornando-se num dos mais importante impulsionadores da “La Movida”, o movimento pop dos anos 70, que revolucionou a cultura madrilena.

Foi através do teatro que Almodóvar conheceu as pessoas que iriam motivá-lo para a sua primeira experiência numa longa-metragem. “Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón”, com cerca de 2500 euros de orçamento e rodado apenas nos fins-de-semana devido à grande quantidade de voluntários, demorou mais de um ano a estar concluído, criando um enorme culto em seu redor, tendo estreado em 1980. O enorme êxito desta película nos circuitos alternativos e, mais tarde, nos cinemas Alphaville de Madrid, onde se manteve por quatro anos em exibição, serviram de ponto de partida para uma carreira plena de sucessos.

O seu segundo projecto “Laberinto de Pasiones” (Labirinto de Paixões), de 1982, não chega a conseguir grande sucesso mas, através de “Entre tinieblas“ (Maus Hábitos) e “¿Qué he hecho yo para merecer ésto?”  (1984), abrem-se as primeiras portas do reconhecimento e dos mercados fora da Espanha, sobretudo europeus e americanos.

Com “Mujeres al Borde un Ataque de Nervios” (Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos), em 1988, Almódovar consolida seu sucesso e reconhecimento. Converte-se em ídolo também na França, ao ganhar o prémio de melhor filme estrangeiro do ano. O filme foi indicado ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e, apesar de não levar a estatueta, aumentou o prestígio do director espanhol.

Depois de anos de altos e baixos, durante os quais, para além de dirigir, também escreveu e produziu alguns filmes, Almodóvar é coroado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1999 com “Todo sobre mi Madre” (Tudo sobre minha Mãe) para além de um grande número de prémios em França e Inglaterra.

Três anos depois, com “Hable con ella” (Fale com Ela), Almodóvar volta com novo sucesso de crítica e bilheteira. O filme ganhou o Óscar de Melhor Argumento Original e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro em 2003, tendo sido nomeado para o Óscar de Melhor Realizador.

Se já em “Hable con ella” a controvérsia em redor do argumento foi imensa, Almodóvar surge agora em 2004 com um filme que possivelmente irá chocar os mais conservadores, mexendo com um “lobbie” onde poucos tiveram a coragem de interferir e que continua defendido pelo segredo e pelas “forças divinas”. “La Mala Educación” tem como principal protagonista o jovem actor mexicano Gael Garcia Bernal e mostra um relacionamento homossexual e o abuso sexual  num colégio de padres durante a ditadura franquista.

A acção desenrola-se em Madrid no ano de 1980. Enrique Goded é um director de 27 anos que recebe a visita de Ignácio Rodríguez, um homem que diz ter sido seu colega de escola. Ainda crianças, no início dos anos 60, os dois apaixonaram-se um pelo outro, descobriram juntos o amor, o cinema e o medo num colégio de seminaristas onde eram internos. Ignácio sofreu abusos sexuais por parte do temido padre Manolo, director da escola e quer agora transformar o seu relato num filme.

Apesar de, em primeira análise o filme parecer auto-biográfico, Almodóvar já veio a público negar essas suposições declarando que, embora seja um filme muito íntimo, nada tem a ver com a sua pessoa, embora tenha vivido na época em que a acção tem lugar utilizando muitos fragmentos da sua memória na fase de escrita do argumento.

O filme já estreou em Espanha com grande polémica e, em França, um movimento ultra conservador católico, através de uma petição, conseguiu que a distribuidora do filme tivesse retirado o seu trailler de mais de 50 salas de cinema onde o filme “A paixão de Cristo” está em exibição, devido ao carácter “abominável” do filme. Será nesse mesmo país que a película irá abrir o festival de Cannes numa exibição bastante aguardada por todos e que irá concerteza fazer correr muita tinta na imprensa.

Em Portugal o filme está previsto estrear no dia 20 de Maio e irá concerteza levantar muita polémica. Em época de comemorações do 25 de Abril, aqui fica uma sugestão para conferir toda a liberdade de criação e de argumento que o fascismo censurava e escondia. Uma verdade que muitos continuam a querer esconder, criando um grupo de intocáveis, mas que já faz parte do senso comum das pessoas. Almodóvar apenas põe tudo a nu no écran.



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