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Pedro Cunha – um Nómada

A Galeria Nómada é o novo conceito Super Mecenas dos artistas que andam por aí. Já capturou um: o imenso Pedro Virgílio Cunha, solitário, colectivo, e muito particular.

O parto do projecto aconteceu na sala das colunas da Lx Factory e o bebé vai ‘já já’ começar a (dar que) falar. Exposição Colectiva Pedro Cunha é o nome da menina, e foi a primeira a ir na ‘onda-ideia’ da Galeria Nómada. Agora apressem-se os “fica para depois”, porque nunca se sabe para onde vão “laurear a pevide” a seguir…

Para novos espaços temporários, incertos e/ou instáveis, a Galeria Nómada pretende receber e incentivar a migração de artistas. É saltimbanca que baste para não ter casa própria, mas muito assente na terra para criar ícones e anti-ícones artísticos, fluir almas criativas, perdidas ou achadas, emergir ideias anónimas e (re)descobrir arte… muita Arte.

Para Pedro Cunha tem sido “um esforço enorme, muita dedicação e honestidade, para chegar ao ponto em que tudo começou a acontecer, à necessidade de começar a fazer coisas, às energias reunidas… O meu quadro mais antigo tem 80 anos. Eu tenho catorze. Ah não! Tenho sete. E mais uns três… O meu foco nunca foi a matemática…”.

Com atitude (d)e distraído, vê-se interessado em fotos da sua infância, que lhe contam coisas que acabaram por acontecer. Isso é “querer ser alguém ou alguma coisa, representá-la, e conseguir vivê-la”.

Entrou em Arquitectura ‘só’ porque se atrasou nas inscrições para Pintura, colaborou em vários projectos, e tem prémios colados a alguns deles. Mas apaixonou-se na mesma pelo curso e pela “modelação do espaço e da forma, dos hábitos, consequências e resultados, das pessoas, e daquilo que acontece às pessoas dentro das coisas”. Agora tem pensado em “Arquitectura rural e espontânea. Começar nas aldeias, num só ponto, e expandi-las”.

No espaço da Rua de Baixo (durante o Open Day da Rua Aberta), onde não se deteve na intervenção de pintura ao vivo, sente que “começou alguma coisa…O esforço individual de cada um está associado à Natureza, e tem uma identidade. As energias estão a unir-se, há amor, não há competição, e há abertura para nos ouvirmos e resolvermos enquanto indivíduos, e no colectivo. Há união”.

Porque para o PC “a Arte é um estado de espírito. O resto são as formas de expressão da Arte. Tudo o que sugira envolvimento social, plástico, prazer em olhar, prazer em receber, do ponto ao espaço, do simples ao complexo… tudo são formas de expressão artística”.

Continuando pelo fim, o que o ‘PC’ quer mesmo é atingir uma “realizações de sonhos, encontros entre pessoas, viagens, e liberdade para toda a gente”. E porque haveria de não ser assim, se “não desejo mal a ninguém e não conheço quem me queira mal? Mas deve haver alguém que eu não conheça…”.

“Um artista é tão artista com dez anos, como com 40 ou 80. A pintura está na mente das pessoas e não nas habilidades técnicas que a pessoa tem para as representar”. Este poderia bem ser um dos motes que rege e acompanha a Galeria Nómada.

“Participar e contribuir para que as pessoas sejam, no geral, felizes”, seria o apogeu do PC, que diz que “já se experimentaram revoluções de todo o tipo. Nunca resultaram. É pela Arte, pela educação e sensibilização das pessoas, pela sua humanidade, valores humanos… É por aí as coisas podem mudar”.

Sofia Xavier é a outra metade (da Galeria Nómada e do Pedro Cunha). Andou “perdida no trabalho dele” e sentiu “um baque muito grande”. Intrigada pela sua ‘primeira vista’, sentiu “que deveria existir imediatamente uma retrospectiva, porque aquele trabalho tinha de ser visto!”. A força e o poder que sentiu no seu trabalho foram imensos. “Não existe ‘Um’ Pedro Cunha. São vários, tem vários heterónimos. Daí o nome desta exposição, ninguém que entra aqui acha, à partida, que este é o trabalho de um só artista. Isso também me fascinou”.

Na tentativa de conseguir organizar o trabalho sem se “sentir ferida, ou que essa diversidade fosse um impeditivo para a minha compreensão das suas várias fases, e de cada quadro”, Sofia Xavier foi caminhando com ele e “abrindo o meu entendimento e sensibilidade sobre a sua obra, e sobre a pintura em geral”. Sobretudo, aprendeu com o Pedro Cunha a ter “tempo para olhar a Arte, a ter abertura, e a perder preconceitos”.

Mas PC já não era, contudo e até hoje, um desconhecido para muita gente. Pela sua personalidade, trabalho e forma de estar. “Mas é complicado conhece-lo de forma integral. O resultado está ali, na Exposição Colectiva: um grande número de obras que comporta linguagens muito diferentes, trabalho a cru, despido de idades ou fases, de sempre até agora. Universos imaginários para além da pintura, que devem ser vistos a pente-fino, para entender o porquê de uma “Exposição Colectiva”, quando se fala de um só “Pedro Cunha”.

A ideia é que o Colectivo Galeria Nómada comece a intervir, em sistema de itinerância, funcionando nos espaços que encontrar, nas formas que achar. Com eventos, instalações, cá dentro ou no estrangeiro, ideias plásticas, sociais e ideológicas, que recebam o mesmo retorno, mas visto por outros lados.

Surgem energias, vontades e sentimentos e, inerente ao projecto, existe uma liberdade total, sem vínculos, com muita determinação para facultar e divulgar uma causa colectiva, aberta a todos os que queiram colaborar com trabalho e experiências.

“Mas não somos nenhum bando de putos sem raízes. E vamos precisar de apoio, de retorno… Queremos entrar no circuito comercial, mas de uma forma alternativa, quer seja ganhando peso através do diálogo, como através de mostras efectivas de trabalho”.

A reviravolta do ‘artista’ e agora é ele que faz as perguntas:

“Porque é que um dia não se faz uma exposição colectiva com crianças de três anos? Já há? Não sei. Mas são tão artistas como nós. E devíamos ponderar convidar as formas de vida de outros planetas, também! Ou será que (julgamos que) somos os únicos artistas da Galáxia?”

Sofia Xavier criou uma galeria virtual, organizando os quadros por linguagens, em salas (virtuais). “Tentei faze-lo cronologicamente. No caso do Pedro isso não faz todo o sentido. A enorme diversidade de linguagens teria de coabitar entre si, sem se auto-destruir”. Procurou então conjugar esses “universos muito específicos, de uma forma quase intuitiva e sensível, havendo uma continuidade de umas formas para as outras que marca níveis plásticos, realidades e contextos”.

Pedro é ‘a’ ferramenta, mas tudo à volta dele participa nos quadros que faz. “É tudo muito relativo. Como é que me podem exigir para encontrar a minha única linguagem única, se eu me sinto de forma diferente em cada segundo, a cada minuto, em cada hora?

Os nómadas são viajantes, andam sem parar e não sabem onde vão ficar. Mas pelo menos já sabem que não estão sozinhos. Work- in-progress na ordem do dia, a Galeria Nómada é uma rede descosida em ascensão, de cariz planetário e aberta a (extra)terrestres.

“Foi isto que eu quis. E agora estou feliz”. PVC

Exposição Colectiva Pedro Cunha está patente até dia 20 de Junho na Lx Factory, e promete uma festa de “adeus ó vou ali e já não devo voltar!”, a anunciar brevemente.

Atenção: Pedro Virgílio Cunha perdeu o telemóvel (será que algum dia o teve?). Todos os amigos, interessados, conhecidos e curiosos, podem deixar o seu contacto/comment em galeria.nomada@gmail.com. O Colectivo agradece.



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