Pedro Eiras

Pedro Eiras

“Gosto muito dos livros que arruínam prateleiras, estantes: aqueles que fazem explodir, ver através.” A entrevista, com um certo toque filosófico, ao autor de “A Cura”.

Em “A Cura”, Pedro Eiras convida-nos a pôr um ar respeitável e a assumirmos o papel de psicanalistas, perguntando aos nossos botões se Freud terá sido ou não uma imensa fraude. Falámos com Pedro Eiras sobre um livro que se lê como uma luta de almofadas entre filosofia e religião, recusando no entanto a aproximação ao divã: para evitar o perigo de revelarmos, sem querer, segredos bem guardados a sete chaves.

Pedro Eiras

Como classificaria o livro “A Cura” se o tivesse de arrumar numa prateleira? Romance introspectivo? Thriller em forma de cruz? Dissertação filosófica para se ler no sofá?

Gosto muito dos livros que arruínam prateleiras, estantes: aqueles que fazem explodir, ver através.

Afinal, Freud é ou não uma fraude?

Sim: é uma fraude magnífica, valiosa, fundamental. (Outras: Platão, Shakespeare, Nietzsche, Pessoa, Beckett…)

Dizem os entendidos das emoções que a distância que vai do amor ao ódio é uma indecisão de milímetros. Será que acontece o mesmo entre o ateísmo e a crença profunda?

Há muitos ateísmos. Alguns são fáceis, acríticos, talvez um pouco histéricos, não me interessam. Talvez estejam próximos da “crença profunda”, não sei. Mas também há os outros. E até aqueles que duvidam de si mesmos.

O narrador-psicanalista acaba por fazer uma viagem entre dois extremos. No final, fica a dúvida no ar: será a sua “redenção” a descoberta da liberdade ou um castigo auto-imposto?

Bem, apenas se pode auto-impor um castigo se já se descobriu a liberdade. Portanto, as duas coisas. Mas também pode ser: fuga, exorcismo, tentação, desejo, naufrágio. Seria fácil eu explicar, no próprio romance, os gestos finais do protagonista; mas como o leitor é convidado a tornar-se psicanalista dele…

Terá sido a solidão o destino para alguém que não conseguia amar (ou pelo menos fazer por isso)?

Neste caso, sim. Menos um destino do que uma escolha, de certo modo. O psicanalista faz tudo para ficar sozinho. Cai na armadilha, mas foi ele que a montou primeiro.

É possível pensar que estamos a salvar alguém quando, na verdade, somos nós que estamos a ser salvos?

O que é ser salvo? Alguém se pode salvar? Podemos salvar-nos perdendo-nos? Como se pode salvar alguém sem se perder a si próprio? O que quer dizer: aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á? Que relação há entre salvar e guardar, poupar, gravar? A resposta é: sim.

Em caso de depressão aconselha uma ida ao psicólogo ou há sítios melhores para se curar a tristeza e as preocupações?

Não sei qual é a melhor forma de curar uma depressão; ao contrário do meu protagonista, não estudei medicina… Nada contra um psicólogo sagaz – e até pode ser um amigo sem estudos de psicologia. Sítios melhores? Fora de si. Por último: a tristeza fascina-me. Observar a tristeza, estudar a tristeza, fazer as pazes com a tristeza.



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