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Pedro Esteves

"Este disco tem mesmo muito material que sobreviveu ao tempo”

Quando se fala da cidade do Barreiro, a primeira ideia que vem à mente é a da cidade industrial, dos tempos áureos das fábricas e da consequente poluição. Contudo, a cidade mudou e para muito melhor. A poluição fabril quase não existe e pode-se usufruir de uma bela paisagem do Rio Tejo dando passeios no varino Pestarola. Para além disso, a cidade também viu, e continua a ver, várias pessoas únicas ligadas às artes do espectáculo. É desta forma que vos apresentamos Pedro Esteves, jovem compositor e letrista, que editou no passado mês de Fevereiro o seu primeiro disco “Mais um dia” pela exímia editora Orfeu, que já nos habitou com as suas apostas de grande qualidade.

Foi num salão de chá que estivemos em conversa com o cantautor, que simpaticamente desvendou as suas memórias primárias do seu contacto com a música. “O gosto e desejo apaixonado pela música terão vindo por parte do meu pai porque tanto ele como os meus tios tocavam guitarra durante os encontros familiares que ocorriam em períodos de férias. O reportório estava à volta de cancioneiro popular português e espanhol porque a aldeia de onde é originário é uma aldeia raiana, situada muito perto da fronteira a Espanha.” Foi assim que Pedro Esteves aprendeu a tocar os primeiros acordes que, mesmo sendo básicos, eram os suficientes para conceber novos reportórios. Posteriormente, é o seu irmão Filipe Esteves que acaba por determinar e efectivar o percurso do próprio Pedro. “O meu irmão a dada altura começa a estudar música e começam a chegar-me aos ouvidos outras referências como a música clássica e o jazz. Recordo-me que um dos episódios mais marcantes dessa altura foi quando ele trouxe para casa um songbook de Bossa Nova, associado ao jazz. Aquelas novas harmonias eram uma enorme novidade para os meus ouvidos e passei logo a copiar os acordes para começar a compor as minhas próprias músicas”.

A partir daqui, o próximo desafio imposto pelo próprio foi o de tentar copiar outras músicas que não estavam no livro e assim se foi familiarizando com a forma como as coisas aconteciam dentro da sua cabeça, visto que não há nenhum processo académico. “Só passado algum tempo é que fui experimentando fazer as minhas coisas. As primeiras músicas foram notoriamente brasileiras, com sotaque e tudo! Aí entram Chico Buarque, Gilberto Gil, Tom Jobim, entre outros. Foi verdadeiramente a minha escola e a influência sempre ficou. Depois passei a procurar cantores portugueses – José Afonso, Vitorino, Sérgio Godinho – e fui construindo as minhas músicas e com maior regularidade”. E são estes últimos nomes que acabam por manipular fortemente a sonoridade de “Mais Um Dia”.

Mas Pedro Esteves é um autodidacta e a persistência é o factor que está aliado a todo o seu trabalho. “Como não me achava limitado naquilo que estava a fazer, nunca senti necessidade de ir para uma escola aprender a compor e confesso que fui ganhando alguma inércia para alcançar essa aprendizagem académica. Contudo, reconheço que a consequência negativa directa é a parte da comunicação com músicos, que se torna complicada.” É aqui que volta a entrar o seu irmão, Filipe Esteves, que teve um papel importante nesta aventura. Ambos partilham a composição lírica e melódica das canções deste álbum. Trata-se de uma simples “parceria, mas cada um com o seu papel individual muito importante, até porque é difícil interligar a melodia a uma letra que já existe e vice-versa” conta Pedro Esteves.

“A dada altura resolvi fazer uma maqueta para editar um disco para servir como base de trabalho para outras etapas. Passado pouco tempo, surgiu o convite para participar na reinterpretação de um tema para um álbum em homenagem ao José Afonso no relançamento da editora Orfeu. Foi aí que falei com o Filipe Raposo, que faz a direcção musical deste meu álbum, e o António Quintino (contrabaixista) para fazer a reinterpretação do tema «A presença das formigas». A partir deste trabalho surgiu posteriormente a oportunidade de gravar o disco de originais e, redobrada a alegria, aceitei e fiquei felicíssimo com essa oportunidade,” afirma Pedro Esteves com grande alegria e entusiasmo. Todo este álbum é uma sobrevivência ao tempo pois encontramos músicas muito antigas tal como a canção «Mais um dia», da qual arrisca dizer que tem sensivelmente 12 anos. Porém, à medida que foi compondo as canções, apercebeu-se que há outras tantas músicas que não sobrevivem. “É um processo natural porque nada é perfeito, mas é curioso porque este disco tem mesmo muito material que sobreviveu ao tempo”. Durante 45 minutos somos levados por canções fortes, carregadas de ironia como é o caso de «Maravilha amor» ou com um personagem feminino a exclamar «Odeio».

A maior liberdade para um artista passa pela criação de novas realidades e personagens e Pedro Esteves faz isso mesmo. É desta forma que tenta encontrar o seu próprio caminho e, de forma consciente, aproveita para criar algo que ainda não tenha sido criado, embora os contextos que explora já existam e façam parte de todos nós. É disso que se trata a sua música – da sua perspectiva, do seu olhar e, ao mesmo tempo, da sua identidade.

“Sempre fui muito mais compositor de papel do que executor, que só veio a acontecer mais tarde,” confessa entre sorrisos. A par do seu curso superior, foi levando consigo a música no coração e acaba por recordar o seu primeiro concerto acompanhado pelo contrabaixista João Custódio. Teria perto dos 19 anos e foi num antigo espaço cultural na sua cidade natal. Posteriormente, já foram alguns os concertos dados pelo cantor, mas este garante que ainda não tem a real noção sobre quem é que já chegou à sua música. Para ele ainda é um mistério. “Por acaso as pessoas sempre me deram um bom feedback e sempre me foram perguntando se eu tinha algum material editado e, com muita pena minha na altura, dizia-lhes que não, mas ficava satisfeito pelo interesse das pessoas e isso motivou-me a avançar com a gravação do álbum”. Agora, “Mais Um Dia” é uma realidade e quem estiver curioso para conhecer e ouvir ao vivo as obras musicais de Pedro Esteves, não deve perder o showcase na Fnac do Chiado no dia 25 de Março às 17 horas.



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