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Pedro Goya

“Made To Measure” é um álbum com princípio, meio e fim, e assim se deve ouvi-lo. Entrega-se de corpo e alma à electrónica actual, deixando bem clara a perseverança de Pedro Goya em querer continuar a produzir música ao mais alto nível.

Apesar do frio invernoso que remata a tarde, o cenário desta entrevista é uma esplanada, em Setúbal. O portátil que tem as perguntas está enregelado em cima da mesa, enquanto o pequeno gravador digital prepara-se para gravar algumas horas de conversa. Mas antes disso, fomos espreitar o estúdio do Pedro Goya, a fim de encontrar algumas das suas armas de produção, entre as quais as que foram usadas para construir o que podemos ouvir em “Made To Measure”.

De um lado do estúdio, estão uns milhares de vinis. Do outro, regurgitam-se algumas das peças de produção e DJing. Macbook Pro, placa de som (RME Fireface 800), teclado MIDI, compressor (Focusrite Liquid Mix). Quanto a softwares, Logic e Ableton. Um pouco mais ao lado, uma mesa de mistura e três Technics – ao que parece acostumadas nos últimos anos ao digital. “Fui um bocado céptico ao início, e disse que iria continuar a comprar só vinil. Até que me rendi às evidências e agora compro tudo em WAV e toco com o Traktor, podendo alternar entre vinis e WAVs. Continuo a comprar discos de vez em quando, mas de facto o digital é uma mais-valia”. E é então que diante de um par de monitores Focal Solo6 Be, responsáveis directos por um monumental equilíbrio sonoro, a tarde arranca nuns bons decibéis acima do normal. Com que objectivo? Notar as diferenças que demarcam as versões masterizada e não-masterizada de uma das suas mais recentes faixas, a «Shed». Deep House resplandescente, com um kick calculado à medida dos nossos ouvidos. Diferenças entre as duas versões? Muitas, mas acima de tudo o corpo que a masterização dá ao som. E finalmente, lá está o espaço reservado a Michael Jackson. “Acho que tenho praticamente tudo dele”, diz-me. “Foi através do Michael Jackson que cheguei à música electrónica. Tudo por causa do “Bad”. Era o álbum mais electrónico que estava a ouvir naquela altura”. E foi este mesmo álbum que ditou a viragem que fez na sua vida: parar com tudo e dedicar-se à música.

Uma década atrás, enquanto os seus colegas e amigos andavam a ouvir o género que predominava naquela época – rock, nos anos 90/00 – o Pedro ouvia cassetes como “Live at The Liquid Room – Tokyo” do Jeff Mills. BPMs alucinantes para quem, no quarto ao lado, descobria Rage Against The Machine ou Nirvana. Foi então nessa altura que o Pedro começou a ouvir a electrónica que se produzia. “Lembro-me de ouvir primeiro aqueles sons mais pimbas: os Dance Power’s, 100% Dreams e DJ’s Quicksilver. Mas um pouco mais tarde, comecei então a refinar o gosto, a procurar mais a electrónica que gostava realmente de ouvir, e a partir daí a fazer as minhas descobertas”. Foi dar a ”Jeff Mills, The Advent / Cisco Ferreira, Oliver Ho, Chris Liebing, Marc Carola, e tantos outros. Muitos dos quais, ainda hoje, vão comigo na mala alguns dos seus discos”.

Por outro lado, enquanto os amigos limitavam-se a ouvir as cassetes e os CDs que compravam, o Pedro pegava na aparelhagem que tinha lá em casa e tentava misturar os sons. “Tinha uma aparelhagem com dois decks de cassetes, um deles partido, ou seja, dava para chegar com o dedo à bolinha preta que faz a fita da cassete rodar. Começava então a alterar o pitch dessa música e a tentar juntá-la à música do deck ao lado”. Aos catorze anos, depois destas primeiras experiências a mixar, conseguiu finalmente arranjar uma mesa de mistura, dois gira-discos de correia, e uma strobe light “para sentir que estava mesmo na discoteca”. A partir daí, estavam reunidas as condições mínimas para poder crescer como DJ.

Com o House e o Techno em plena ascensão em Portugal, as discotecas não tardaram em dar toda a atenção a estes estilos. Desta forma, Setúbal não ficou atrás, onde Del Costa / Magazino, era sem dúvida um dos DJ’s mais (re)conhecidos. “Na altura, comecei a ir a casa dele, a comprar-lhe discos, muito provavelmente aqueles que ele já não gostava, mas que eu gostava. E a partir daí, cresceu uma amizade” que lhes levou a uma intensa colaboração profissional durante alguns anos. “Lançámos vários EPs e actuámos juntos como DJs pelo mundo fora”. De um lado, um jovem produtor e DJ, a experimentar ritmos, linhas de baixo, batidas, melodias e sequências; do outro, um DJ e produtor já experiente, “com uma visão de como é que as coisas deveriam ser montadas” para poderem resultar na pista de dança. “Era ouro sobre azul”, acrescenta.

Entre 2003 e 2005, lançaram “Freaky Mike”, “Troia”, “#37”, “Metropolis” e “Setubal”. Ao todo cinco 12”, editados pela Exun, Brique Rouge Traxx, Classic, Music For Freaks e Thrasher, ou seja, algumas das editoras mais conceituadas daquela época. Cinco EPs que correram o mundo, fazendo parte das playlists de DJs como Laurent Garnier, DJ T, Luciano, M.A.N.D.Y., Ivan Smagghe, Deep Dish, Brett Johnson, Mark Farina, DJ Linus, Derrick Carter e Chloé. E junte-se ainda os remixes que fizeram para Brett Johnson,  Dave Barker e DJ Mes, bem como a inclusão de faixas em compilações da OM Music, Ministry Of Sound e Exun. Mas como é que isto aconteceu? A nível de produção, “as coisas funcionavam muito bem, e isso vinha depois a reflectir-se nos discos. Enviávamos o material para algumas editoras e a resposta era positiva”. A partir daí, “foi uma bola de neve. Se o disco for lançado pela editora ou pelos meios certos, rapidamente chega aos ouvidos dos DJs de renome”. Acrescenta: “Mas tudo isto aconteceu muito rápido. Os discos que lançámos tornaram-se de repente grandes sucessos, e que naturalmente nos catapultaram”. Desta forma, durante dois anos, as datas seguiram-se umas atrás das outras, com Del Costa & Pedro Goya a tocarem um pouco por todo o mundo. “Sinceramente, perdi a conta dos sítios por onde passámos”. Já o melhor sítio para tocar é facilmente identificado: “Moscovo. É um fenómeno… O ambiente frenético do Propaganda, em Moscovo, é excepcional”.

Quanto ao set, nunca era o mesmo. “Chegávamos a uma cidade, íamos a algumas lojas de discos, comprávamos uns cinco ou dez vinis e muito provavelmente ainda os tocávamos nessa noite”. E é isto mesmo que é um DJ-set para o Pedro Goya. “Acaba por ser sempre um improviso, atento às pessoas que tens à tua frente e de acordo com aquilo que gostas de tocar”. Já num live, “não tens margem de manobra. Vem tudo preparado e programado no software, pelo que te tira a versatilidade toda. Quantas vezes não acontece teres um disco preparado, mas com o disco que estás a tocar naquele momento vês que estás a perder a pista, e por isso deixas esse disco de lado e vais buscar outro. Chama-se live a uma coisa que tem muito pouco de live”. Daí que “só farei um live dentro de certos moldes, com músicos a acompanharem-me”.

Depois do turbilhão que foram os anos a tocar e a produzir com Del Costa, Pedro Goya decidiu investir numa passagem por Barcelona, “fundamentalmente para crescer”. Após essa experiência e muitas outras tours pela Europa e arredores, voltou para Portugal e lançou-se a fundo na criação da sua editora, a Troia Recordings. “Tem-me dado alegrias atrás de alegrias”. Com um catálogo composto maioritariamente por artistas nacionais, a Troia é obra quase integral da busca feita pelo Pedro à procura de novos talentos nos meandros da electrónica, seja qual ela for. Como géneros centrais, pode-se apontar ao Deep House e ao Techno, mas de facto o catálogo balança entre muito mais do que isso. Calapez, Alkalino, Chapi, d.O.t. e Biotec são alguns dos nomes que assinaram até hoje pela Troia. Para 2010 estão já guardadas algumas pérolas, entre as quais ”a compilação “Troia Decimal Two”, que funcionará como reminder de algumas coisas que foram editadas no passado, bem como bastante material novo; e um novo single do Manuel Calapez que é um autêntico dancefloor-killer”. E se até agora a Troia Recordings era uma editora digital, usando as lojas online como a Beatport para vender o seu material, “a partir de 2010 passará a ser uma estrutura física, dirigida por mim e pelo Eyptin Wholi, com o processo de manufacturação e distribuição de discos a ser feito, em princípio, pela Wordandsound”.

Ora, seis anos volvidos desde o lançamento dos primeiros discos com Del Costa – pelo caminho algumas faixas lançadas em digital («Polyana», «We Are Numbers» e «Matrioska»), chega o momento de ouvir uma longa-sonora de Pedro Goya. “Made To Measure” (Troia Recordings), lançado no passado dia 24 de Novembro em exclusivo pela Beatport, é então o reflexo natural de um DJ/produtor que se meteu em estúdio com o claro intuito de tirar dali o seu primeiro álbum. Uma produção altamente cuidada, em que cada faixa é um ecossistema único. “O álbum foi pensado desde início para não ter uma linha de estilo única. Queria seguir a ideia de um álbum feito à medida de todo o ouvinte, ao mesmo tempo que queria descolar-me da ideia de produtor de ‘tracks’. Pelo que “Made To Measure” balança entre Ambient, Break, Techno mais mental e House mais virado para pista de dança, deixando vincado que é a mesma pessoa a fazê-lo”.

Se a primeira faixa, «Made To Measure (Interlude)», nos recebe com um ambiente de crianças a brincar num parque, acompanhado por uma orquestra, as três faixas seguintes – «Pleo», «Mandela» e «Pop Eye» são suficientes para percebermos que este álbum não se limita mesmo a uma linha de estilo só. Todo ele é um saudável cruzamento de estilos, um alinhamento de ambientes que podem lembrar referências tão díspares quanto a Border Community (James Holden, Nathan Fake), Four Tet, Trentemøller ou Matthew Dear. «This World Is Moving Too Fast» e «Collapse» guardam ambientes de um crescendo melódico por cima de um Techno altamente estimulante, «World Clock» contém uma espectacular base rítmica dentro de um Techno mental intempestivo, e «Fools for Tools» aproxima-se do Techno mais minimalista. Quatro faixas exemplares, a que se junta facilmente a faixa de abertura (bem como a sua relação com a «Made To Measure (Original Mix)», a estranheza de «Mandela» e vários elementos de todas as outras.



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