Peter Murphy @ Coliseu dos Recreios (30.05.2013)

Peter Murphy @ Coliseu dos Recreios (30.05.2013)

Trevas e fantasmas no Coliseu para receber os restos mortais dos Bauhaus

O mais recente regresso do Padrinho do Gótico a Lisboa veio sob um singular pretexto: a promessa de um alinhamento composto por temas dos Bauhaus, banda irrevogavelmente fulcral na história da música contemporânea. Para o receber estava um Coliseu dos Recreios que, sem ameaçar rebentar pelas costuras, foi albergue para uma geração que viu nesta constelação a oportunidade de assistir a uma breve ressurreição da banda. As cadeiras preenchidas da plateia não deixaram enganar: a esmagadora maioria da audiência viu a respectiva adolescência marcada pelas bandas do pós-punk do início dos anos 80.

A entrada de Peter Murphy fez levantar uma sonora ovação, em jeito de reencontro com um ídolo de outrora. Mas, em boa verdade, Murphy ainda o é: além de manter a sua forma na estratosfera, continua a ser um mestre-de-cerimónias sem igual. A postura logo o anuncia – eis a herança dos Bauhaus – para de seguida se lançar rapidamente a um repertório absolutamente intangível.

O início dá-se ao som das guitarras de doze cordas perpetuadas por “Burning from the Inside”. Tido por muitos enquanto álbum final da banda (há quem, por razões óbvias, prefira ignorar a existência de “Go Away White”), as incursões neste registo foram quase calculadas ao milímetro – só viria a ser resgatado novamente, mais perto do final, com «She’s in Parties». A nós, pareceu-nos uma falsa partida, uma vez que o início esmagador chegaria logo a seguir: «Double Dare», «In the Flat Field» e «A God In an Alcove», do disco-manifesto que abriria as portas ao rock vindo das trevas, receberam as primeiras reacções de êxtase – foi precisamente para isto que viemos.

«A Strange Kind of Love» termina com Murphy à guitarra acústica a dar o mote para esse monumento expoente do pós-punk: «Bela Lugosi’s Dead», melodia intemporal que injecta a epiderme com o ambiente sinistro quase arquitectónico de uma fábula assombrada que caminha para a materialização das trevas na ressurreição, foi muito provavelmente o expoente máximo deste regressso de Peter Murphy a Portugal. A audiência acaba hipnotizada e em profecia – “oh Bella, Bella’s undead!”.

Irrepreensível, o alinhamento contemplou ainda belíssimas versões de «Kick in the Eye» (de “Mask”), da trepidante «Silent Hedges» (de “The Sky’s Gone Out”) e o regresso a “In the Flat Field”, com a introdutória «Dark Entries» ou «Stigmata Martyr» – nesta última não chegámos a ouvir as orações em latim, lamentavelmente. Por aqui parece-nos pertinente afirmar isto: é evidente que o quarteto que se apresenta em palco não são os Bauhaus. Todos eles músicos irrepreensíveis, não passaram da grande competência de transpôr as músicas da banda para os amplificadores do Coliseu. Será, claro, questionável se deveríamos esperar mais do que isso, já que o tempo encarregou-se de cristalizar cada acorde dos quatro discos da banda (mais uma vez, ignoramos o quinto); mas, neste aspecto, esta foi sempre uma digressão condenada, à partida, a pôr nas mãos destes profissionais um repertório excelso que não lhes pertence.

O alinhamento termina com uma reinterpretação de «Severance» dos Dead Can Dance (que curiosamente tocavam, mais ou menos à mesma hora, trezentos quilómetros a Norte), com Murphy prostrado no chão, em concordância com a atitude teatral que contamina a sua presença. A banda voltaria com o legado David Bowie – Murphy mutando-se num «Ziggy Stardust» das trevas – para aquele que nos pareceu ser o final de uma noite de memórias – com direito a agradecimento em concordância com a postura de Murphy.

Mas havia uma surpresa: subindo ao palco para um segundo encore, Murphy foi então possuído pelo fantasma Ian Curtis (que também nos pareceu ter, evidentemente, assombrado a sala). «Transmission» ditou o final de uma noite que viu várias gerações a convergir para assistir à simulação de um capítulo da história da música. Porque, tal como Bela Lugosi, os Bauhaus não aceitam o seu lugar a sete palmos de terra.

Fotografia por José Eduardo Real



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