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Saudades da “antiga” RTP2

Conversa com Luís Mendonça, cinéfilo e um dos criadores da petição que circula pela internet a exigir o regresso de exibição regular de cinema na RTP 2.

Desde o mês passado existe uma petição (ver link externo) que circula na internet e de boca em boca, pelo regresso de exibição regular de cinema à RTP 2. Canal público, de vocação e obrigação alternativas que, segundo os autores do texto, tem demonstrado um “progressivo desinvestimento na programação cinematográfica”.

Numa conversa de, mais ou menos, uma hora, Luís Mendonça, cinéfilo e um dos motivadores desta petição, explicou ao Rua de Baixo as razões, os objectivos e as alternativas propostas.

Assumindo o interesse pessoal e emocional da causa, Luís recorda que o que sabe sobre cinema foi adquirido, em grande medida, por via da atenção que a RTP 2 outrora dedicou à Sétima Arte – “Era uma espécie de cineclube de todos nós”.

RDB – O que é que pretende esta petição?

Luís Mendonça – O que nós pretendemos é que o cinema regresse à RTP2. E, no fundo ,reclamar aquilo que foi o passado recente da estação em que havia espaços regulares de divulgação da Sétima Arte, normalmente com a exibição de filmes clássicos ou de cinematografias menos conhecidas. Os filmes eram contextualizados por figuras ligadas ao meio ou à volta dele. Recordo-me da rubrica da Inês de Medeiros “O filme da minha vida” ou o “5 noites, 5 filmes”. Existe saudade, da nossa e parte e da parte dos subscritores da petição, de ver uma RTP2 que trate o cinema com alguma dignidade e não que despeje para o Sábado aquela sessão dupla, mais ou menos arbitrária, sem critério.

Têm 1400 subscritores neste momento. Conseguem, com segurança, assegurar que essa vossa intenção é a de todas as pessoas que vêm televisão em Portugal e são espectadores da RTP2?

Pelo menos o público-alvo da RTP2, em princípio, conseguiremos abarcar. Nós já temos representadas na nossa petição, que dura há pouco mais de 20 dias, as principais figuras das várias áreas da cultura em Portugal. Desde o professor José Mattoso, na componente académica, a escritora Alice Vieira, mesmo dentro do domínio do cinema temos variadíssimos realizadores, como o professor José Mário Grilo, a Raquel Freire, o Manuel Mozos, o António Ferreira…

O que é que queres dizer com público-alvo da RTP 2? Quem é para vocês esse público? Partindo do facto de estarmos a falar de uma estação pública e generalista.

Está na lei que a RTP2 deve ser uma alternativa à RTP1 e tem um conjunto de obrigações a que está vinculada através do contrato de concessão de serviço público, que passa por uma programação exigente. O público-alvo da RTP2 é a classe média informada. Sendo uma estação generalista, deve ter uma programação com ambições de captar todos os sectores da sociedade. O Fernando Lopes tinha uma expressão que era “A RTP2 não será nem lixo nem luxo”. E há uns anos atrás havia a discussão de que a RTP2 era um canal de televisão elitista e que só era para alguns e por aí fora…. Eu acho que a RTP2 é elitista hoje. Há pouco tempo passou, numa sessão dupla, o “Amarcord” e o “Almoço de 15 de Agosto”. Quer dizer, passou estes dois filmes sem qualquer tipo de contextualização prévia. Eu parto do pressuposto que o critério era o facto de serem filmes italianos, mas uma pessoa que não tenha algum tipo de formação base ou de informação prévia, não vai fruir desses dois objectos da mesma forma que uma pessoa que tem esse conhecimento, ou seja, o critério é estipulado pelo espectador e não pelo canal, o canal não encaminha o espectador no sentido da aprendizagem, de ganhar instrumentos para descodificar os objectos que são mostrados. Tem sido exactamente o oposto. É o espectador que já tem previamente de saber. A programação não tem critério. Nós não pomos em causa a qualidade dos filmes em si, os filmes são bons.

Então existe critério, não é o vosso, mas existe…

É um critério fraco, como eu digo. Por exemplo, umas vezes passam dois filmes porque são dois filmes italianos… Quer dizer, o que é que o “Almoço de 15 de Agosto” tem a ver com o “Amarcord”? Zero. O “The Red Badge of Courage”, o que é que tem a ver com o “Mackintosh Man”? Bem, é do mesmo realizador [John Huston]… mas e depois?

O que é que a RTP pode, deve, exibir?

Pode exibir estes filmes, não tem de exibir filmes diferentes. Aliás, como dizia um colega meu até, pode exibir os filmes que a RTP Memória tem passado de vez em quando, agora passam muito menos – Cinema Clássico. Podem exibi-los. Agora, a questão é a forma como os programa e a regularidade com que os programa. Não é enxotar para o Sábado para tentar no fundo satisfazer ou calar os ditos cinéfilos, como nós, que andamos aqui a pedir cinema. Quer dizer, nós não temos de pedir nada. Basta ler.

Tal como a obrigação legal respeitante ao cinema, existem deveres equivalentes no que toca a outras áreas, como a inovação, acção social, defesa do consumidor, experimentalismo audiovisual, entre muitas…O que é que seria viável em nome de uma distribuição justa dos conteúdos? Um sistema de quotas? Há espaço para tudo?

Há, porque já houve noutros tempos. Isto acaba por ser um estímulo, e era isso que nós queríamos também no seio sociedade civil, para que depois mais manifestações deste género aconteçam. Porque eu acho que de facto o cinema não é respeitado dentro daquele canal. Nós gostávamos de o ver mais respeitado e poderia até reverter a pergunta: O que é que o “5 para a meia-noite” tem a ver com este conjunto de obrigações legais? O que é que o “5 para a meia-noite” faz neste âmbito, daquilo que é pedido num serviço público de televisão, por exemplo. Eu acho que é um formato que se adequa muito melhor a um canal como a SIC Radical. Como a cláusula 6 do contrato de concessão de serviço público bem diz: “a RTP 2 deve combater a uniformização da oferta televisiva através de programação efectivamente diversificada, alternativa, criativa e não determinada por objectivos comerciais”. A mim parece-me que está a fazer exactamente o oposto. Está a uniformizar, a passar séries que passam noutros canais. E depois passam um talk-show, à noite, que do meu ponto de vista é claramente próprio de um canal especializado e não de um canal generalista. Passa em directo e depois repetido. São mais de duas horas do tal espaço de que falavas que são consumidos.

Até há relativamente pouco tempo era exibido teatro na televisão, às tantas entendeu-se que a plataforma de exibição de uma peça não é a televisão, mas sim um sala de teatro. A televisão é um sítio bom para ver cinema?

Eu acho que sim. Eu devo imenso à televisão. A questão é que nem toda a gente tem acesso a uma cinemateca para ver um Eisenstein. Por acaso eu acho que a carência de diversidade, a tal programação alternativa aos circuitos comerciais, no caso do cinema ainda é mais problemática, parece-me. Um amigo meu dizia há pouco tempo que tem um amigo em Chaves cuja formação cinéfila foi feita graças àquela RTP2 que passava estes filmes de que estou a falar, do Eisenstein,,.entre outros. E mesmo no caso das pessoas que não têm acesso ao teatro…passem teatro! Qual é o problema? Passem teatro… têm tantas horas…O que é a RTP2 passa actualmente, agora faço esta pergunta? O que é que passa actualmente?

A televisão é um media com regras próprias, que se rege por critérios de programação específicos que eventualmente ultrapassam os motivadores desta petição. Concordas?

As normas que regem a programação da RTP 2 estão estipuladas na lei. Quem deve programar é o programador, e no caso de uma televisão pública, um programador que atente ao contrato que tem com o Estado. E aquelas que são as exigências do seu público, que neste caso é o público de cinema. Porque eu também tenho noção de que não basta ter pessoas conhecidas, muitas pessoas conhecidas. Neste momento nós precisamos é de muita gente a assinar, precisamos do público, precisamos de, no fundo, ter a sociedade civil mobilizada para isto e achamos que é a esse público que o programador deve responder. Está estipulado… nós citamos a lei fundamental, porque nós podemos ir até á lei fundamental e discutir a actual programação da RTP2.

Achas que é viável do ponto de vista económico adquirir esses produtos? Existe público que justifique esse investimento, na tua opinião?

Há público para o cinema. O cinema é um produto barato, muito mais barato do que um “5 para a meia-noite”, muito mais barato…e normalmente dá muito mais audiência. Aliás, eu lembro-me perfeitamente, na altura em que a RTP 2 estava a atravessar uma crise até de identidade, o “5 noites 5 filmes”, algumas sessões do Pasolini, estavam no topo das audiências da RTP2, à frente do telejornal e por aí fora. Mas quer dizer, ter muito público também não deve preocupar um programador da RTP2, senão mais vale privatizar. Não deve existir aqui objectivo de lucro. Estávamos mal se tivesse de ser esse o critério.

Estão dispostos a discutir essas questões com a direcção de programas da RTP2? É uma das vossas intenções?

A direcção de programas da RTP2 continua a ser a direcção de programas e não nós. Portanto, é ela que decide. Ou seja, se acharem que estas nossas reivindicações são minimamente razoáveis e justificáveis, têm toda a liberdade para fazer as alterações sem sequer nos consultar, quem dirige são eles. Eles é que têm a obrigação de fazer uma programação que se adeque minimamente ao que estão vinculados por lei.  Também podem fazer contextualizações a nível teatral, de óperas e sei lá mais o quê, a questão é que, primeiro, estamos a pedir cinema. Não representamos as pessoas que pedem teatro. Nós somos do cinema e reivindicamos aquilo que sabemos. E nós conhecemos porque seguimos o cinema e a própria RTP2 tem uma história ligada ao cinema, ligada à formação cinéfila, é uma espécie de cineclube de todos nós, e acabou por deixar de desempenhar esse papel.

Ilustração de Isabel Salvado



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