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Photonz

Força e inspiração. A dupla portuguesa de produção/DJ fala sobre as suas influências e edições nas conceituadas Dissident, Dirty, Republic of Desire, Living e Astrolab.

O segredo está em não parar ou desistir. Aliás, é a perseverança que marca a diferença. Seja em que área criativa for, o esforço é tudo e mesmo naquelas alturas em que nada parece acontecer, na verdade o trabalho constante dá sempre uma análise positiva.

Marco e o Miguel são os Photonz e insistem há vários anos na produção e no periclitante mercado de DJ. Não têm uma atitude agressiva in your face, como parece ser a norma de tudo o que é vendável, nem estão interessados nisso. São amigos de longa data, desde os tempos de mochila às costas, que se emocionam pelos mesmos motivos sonoros.

O facto é que, mesmo quando a improbabilidade de resultados positivos e uma ignorância desesperadamente propositada por parte de alguns pares os esmagavam, emergiram nos últimos 3 anos como claros vencedores.

Aproveitando as benesses do online, editoras internacionais pegaram nas suas demos e materializaram-nas em vinil (o supra-sumo da persistência). Aguardando novos capítulos, para a posteridade fica registada uma conversa sobre caminhos e pistas que montam a engrenagem da história física dos Photonz.

O que vos influenciava quando editaram o primeiro EP editado pela Living, em 2006?

Miguel Evaristo – Bem, a faixa «Our fable» talvez tenha sido influência dos Chemical Brothers, as faixas mais lentas.

Marcos Rodrigues – É um 12″ dark, cheio de sons tecnoides. Andávamos a ouvir 23 skidoo, um pouco pela primeira vez, a 99…o que gostávamos era um bocado isso e Matthew Jonson. Mas sim, o «Our Fable» era chemical 100%, era aquele tipo de Rave lenta de som megalítico. Por exemplo, o «Come with us» ou o «Song To The Siren»… este último era mesmo a cena para nós, aquilo deixava-nos mesmo passados…até bastante antes de 2006, nas idas à canoagem no secundário e as primeiras noites a passar som no Gaveto.

Na altura foi o boom do myspace, foi assim que entraram em contacto com Dub Kult?

ME – Mais ou menos. Foi engraçado porque eu não estava em Portugal. Nesse preciso momento estava em Florença, no Erasmus, e na altura ainda não ligávamos muito ao myspace. Foi quando o Marco o criou.

MR – Eu adicionei o Dub Kult e deixei-lhe um comentário a dizer que gostava de faixas dele, que na altura saíam na Traum e Raum. Tinha umas faixas muito fat, um techno meio Konrad Black, com aquele groove e basslines meio gelatinosas. Era fresh. Na altura ele fazia coisas muito Traum minimal, mas depois na editora tinha de tudo, desde minimal mesmo severo a coisas mais Italo e IDM.

Entretanto fizeram a vossa primeira data internacional.

MR – Sim, foi na festa de lançamento da editora, em Londres.

ME – E de facto foi um bocado por ele apostar neste 12” que a coisa ganhou forma porque o Midnight Mike gostava mesmo da «Our Fable».

MR – O nosso 12″ era o primeiro e fomos lá fazer um live estranho…com bases rítmicas tocadas mesmo em vinil; faixas só de beats que procurávamos e depois manipulávamos as nossas melodias e synth por cima. Foi uma euforia mesmo estranha, um convite para tocar em Londres era inacreditável.

Portanto, o disco foi o ponto de partida?

MR – Sim, andávamos a caçar feedbacks, então mandávamos aos ídolos todos, entre eles o Midnight Mike. Ele estava a trabalhar também como A&R para a Republic of Desire e decidiu que queria remisturar a faixa e editá-la e por causa dessa remistura a malta Dirty contactou-nos.

E como se desenrolou o contacto com a Dirty?

MR – Fomos convidados para tocar no Paris Paris, em 2007.

ME – Nem tínhamos a noção total do que era o Paris Paris, pelos vistos eram festas bastante exclusivas.

MR – Ficámos extasiados porque vimos a dimensão da oportunidade; havia ali uma cena fixe com a Dirty, uma identificação. Tínhamos falado antes com Guillaume, só falámos com o Pilooski mesmo no club.

ME – Era uma cabine minúscula com 500 gajos lá dentro, éramos nós, o pilooski e a namorada, o krikor e a namorada e ocasionalmente o Guillaume e Clovis como Dirty Soundsystem.

MR – O que nós achávamos necessário como DJ coincidia muito com a ideia deles: vale tudo, mas fora da ideia de iconoclasta ou irónico… se bem que às vezes também podia atravessar essas fronteiras.

Já sentiram essa liberdade aqui?

MR – Vai sempre melhorando, mas são mentalidades ainda diferentes. Cá o lento nunca é em peaktime num club, é sempre música de acalmar os movimentos. Lá era a parte mais efusiva, mais sexy…as mudanças de ritmo e estilos eram pequenos êxtases, em Lisboa são quebras.

ME – Mas a última vez que fomos ao Lux foi surpreendente. O set que fizemos foi maioritariamente Jack e fizemos uma parte meio estranha a certa altura que o público retribuiu da melhor maneira. Foi como que uma prova de que as pessoas não precisam só do que já estão habituadas. Entrámos, pusemos alguns sons e o Marco pensou em pôr um som antigo de Jody Finch, não sabíamos no que ia dar mas a recepção foi brutal.

MR – Foi fixe ver as pessoas a aderir ao rude, mostrou que há muita coisa a explorar numa noite e que as pessoas não reagem só ao do costume. Foi um convite mesmo bom. Fizemos algo que já desejávamos há algum tempo – tocar na pista do Lux ao fim-de-semana e com várias horas de set.

E como é o vosso processo de mistura, o que vos separa e une?

ME – Ao nível das escolhas, compramos cenas que são muito parecidas. Às vezes vou à FLUR comprar discos e depois quando chego à casa do Marco ou ele já tinha encomendado ou ia encomendar. Os gostos são muito parecidos.

MR – Mantemos uma ingenuidade na compra da música que tocamos. Há aquela coisa de comprar sem pensar muito e depois encontrar o lugar das faixas em cada set. Não compramos estrategicamente. Temos gostos muito similares e a maior parte da música que ouvimos em casa é a que tocamos. Não é raro estar a ouvir Acid, Techno ou House, mais pesados, ou coisas mais deep em casa. Não somos DJs que compram a música como ferramentas ou elementos de um todo super coerente… eu adoro ouvir Redshape em casa ou James T. Cotton.

Em sets com o Miguel o meu contributo é dar a minha parte da narrativa. É uma mente a mixar, mas que parte de duas bases de dados ou experiências diferentes, é uma improvisação. Quando ele mete uma faixa eu já sei a energia que ele está a tentar passar. Espicaçamo-nos um ao outro.

E em termos de produção tem algum método padronizado?

ME – Não, temos trabalho feito em casa que vamos mostrando.

MR – Trocamos ficheiros, construímos meticulosamente as faixas em conjunto, se bem que às vezes estamos sozinhos na maior parte de processo. É experimentar, curtir os sons.

Os vossos originais reflectem um bocado isso, são diferentes entre si mas mantêm uma unidade estranha.

ME – Não existe uma identidade só de fazermos Techno ou o que for. Estamos sempre a descobrir coisas novas de outros produtores e essas influências reflectem-se muito. Se calhar é assim com todos.

MR – De certa forma, acho que estamos ali a captar coisas e a juntá-las como narrativas ou como coisas separadas que sempre pertenceram à mesma faixa. A música que andamos a gostar é importantíssima no processo e muitas vezes é isso que determina a maneira como fazemos as faixas.

Quando andávamos a ouvir muita coisa de Matthew Jonson só fazíamos coisas meio jam session e gravações em um take, com synths a evoluir. Nas fases mais old school House, entra mais uma questão compositiva pura.

O que vos influencia agora, o Jack?

ME – Não só o Jack, mas muito, sim.

MR – Nem sei. De certa forma já cá anda desde as primeiras coisas desse tipo que ouvíamos na Spectral, as faixas do James T. Cotton e os Hieroglyphic, mas em termos de produção acho que o ano passado foi o ano mais Jack para nós e o início deste ano também, mas agora já está tudo confuso e psych outra vez.
O Jack é incrível na maneira como descodifica o movimento humano com um esqueleto mínimo de ritmos crus. Há ali algo de singular que ultrapassa em muito aquela ideia que foi um estado evolutivo do House.

Acham que os 12″ que editou Dissident acabam por resumir esse lado mais físico?

MR – São faixas que tentam interpretar esses códigos rítmicos e é uma ciência muito mais complicada do que parece. As primeiras experiências mais Jack foram fracassos totais, esta é uma música mais comunal. Esses maxis Dissident seguem por aí, são os mais comunais.

ME – Há bocado estávamos a falar de produção e é interessante ver que o processo do Andy Blake [Dissident] ao trabalhar tem coisas em comum connosco quando ele diz que chama os amigos e estão ali com as máquinas a descobrir a faixa na hora. É uma editora única em muitos aspectos.

Então e como surgiu essa sintonia?

MR – Nós adorávamos os primeiros maxis, especialmente Kruton. O nosso amigo ZNTN, que conhecia o Andy, disse que devíamos enviar as faixas, mas nós achávamos que era impossível editar; ele insistiu e acabou por acontecer. Achávamos que eles só queriam o lado mais EBM, coisas mais dark.

Ele ainda fez um edit, o que acharam disso?

MR – É praticamente igual ao original. Só mexeu nas partes em que a melodia desaparece e estendeu alguns beats. Juntou as duas, mas eram iguais entre si em termos de estrutura. Aquele som glassy que aparece a meio do tema tipo psicadélico estava gravado de maneiras diferentes nas duas versões e ele combinou as duas.

Depois segui-se o «No Fear».

MR – Essa não tem sons de bancos, tem samples de heróis nossos, tudo completamente manipulado desde o ponto de partida. E é um som com um optimismo que falta também à música de dança agora. É só escuridão fingida, que é muito pior do que a alegria fingida que se vê na Pop. Se é para fingir, ao menos fingimos que estamos bem. É um beat Jack, apesar de não ser uma faixa muito Chicago. Se for é Detroit, mas um Detroit também com aquela instabilidade da estrutura, com sons a surgir aqui e ali, e arpeggios sonhadores, breaks e bliss.

E neste mês aparece o terceiro 12” – o «Compulsion».

MR – É uma faixa lenta, mas que evoluiu no sentido de ser mesmo full on. Não é uma faixa de relax. Tem a ver com aquilo que falávamos de querer dar um nível de energia à pista bastante grande com um bpm lento.
Acho que é a primeira vez que usámos voz através de sampling. E toda a gente tem dito que aquilo é um mutante qualquer, já ouvimos definições como New Beat/Deep House, Slow Techno. Resulta como uma faixa peaktime, tem esse tipo de energia, mas tem de cair nas mãos de um DJ que faça variações, com alguma coragem. Aqueles que a tocarem como coisa lenta de warm up não vão usar a faixa em todo o seu potencial.

Acaba por fazer uma ponte com as características do «Trembler» que editaram na Dirty. Qual foi a importância desse 12”?

MR – A importância do «Trembler» foi expor-nos de uma maneira diferente, mostrou um lado mais experimental e ao mesmo tempo atraiu mais público.

ME – Na altura a Resident Advisor considerou a Dirty editora do mês, escolheu 5 temas essenciais e um deles era o «Trembler». O que foi um caso curioso, gostarem de uma faixa que é completamente diferente do que sai no catálogo da editora.

MR – Tivemos também direito a uma review inspirada na The Wire. Descreviam a faixa como uma wooden bridge into the foggy unknown. Para quem gosta de música mais exploratória isto é elogio puro. Foi mais um exemplo de uma coisa que desmanchou a nossa identidade e consequentemente formou uma outra mais interessante. Trouxe mais verdade e mostrou uma faceta honesta, paralela.

Entretanto, outra faceta apareceu ainda n’«O Sapal», o 10″ editado pela Astrolab.

MR – De certa forma é dos discos menos óbvios, mais trippy com tiques House à mistura. É uma fusão quase Frankenstein de experimental e coisas playfull Techno/House.

ME – Com este som aconteceu algo como alguém que conhecemos da cena noise chegar ao pé de nós e dizer “adoro o vosso novo disco, estive a tarde toda a ouvir aquilo.” É fixe juntar pessoal de cenas diferentes, sempre foi uma coisa que gostamos e representa a nossa identidade.

Bem, então vocês que já têm todos estes discos editados e unanimidade positiva nas críticas. O que vos faz falta?

ME – Editar em outras editoras que gostamos e recolher mais reconhecimento de DJs e produtores que estimamos.

MR – Queremos mais datas. Mais discos. Queremos acabar as remisturas que estamos a fazer e sobretudo acabar as faixas do álbum com a participação do Zongamin e outras colaborações.

Acham que Portugal tem sido um entrave a um maior reconhecimento?

MR – Bem, talvez. Se calhar não somos os únicos a sentir isso. Portugal tem uma vaga de Produtores/DJs que não sabe ainda agir com sinceridade. Há certas ideias feitas de DJ e música electrónica que viciam os ouvidos de quem sai à noite.

Depois há os Slight Selay, o Social Disco Club, o Rui Maia e outros que apostam em linguagens mais frescas. Mas ainda não existe uma predisposição tão grande como para o minimal e derivados ou como no caso do Electrohouse e Maximal.

Nós, os nomes que mencionei e outros, não temos propriamente um público, os nossos esforços são menos assimilados, ficam mais na indefinição. Agradam a alguns daqui e outros dali, existe apenas um small group of souls.

No entanto as coisas parecem estar a mudar. Têm uma data no festival Sudoeste…

ME – Foi uma grande noticia e é um passo em frente. Sermos considerados para um festival desse nível traduz algum reconhecimento.

MR – Ficámos muito alegres porque costumávamos lá ir como espectadores há uns anos e vimos coisas que não esquecemos como o showcase DFA ou Underworld. Acaba por ter uma carga muito positiva e sentimo-nos considerados entre os nossos pares…estamos lá representados.



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