Pina Bausch

Regresso a Portugal da diva mundial de dança contemporânea em análise na rua de baixo.

O mês de Outubro vê reaparecer em território nacional a diva da dança contemporânea a nível internacional, Pina Bausch. Acompanhada pela companhia de dança-teatro Tanztheater Wuppertal, apresenta duas peças no Teatro S. Luiz: “Nelken” (Cravos) nos dias 29, 30 Setembro e 1 de Outubro, pelas 21h30, e 2 de Outubro pelas 17h30; e Tai Chi (Céu e Terra) a subir em cena nos dias 6, 7, 8 de Outubro às 21h e 9 de Outubro às 17h30.

A performer que um dia afirmou “I love to dance because I was scared to speak” transgrediu e derrubou todos os limites do rígido formalismo, técnicas e pressupostos do ballet clássico, elevando-se a uma das mais controversas coreógrafas do século XX. Adorada por uns, odiada por outros, Bausch gerou polémica no meio devido ao retrato sombrio da humanidade e das relações homem/mulher. As suas obras, geralmente multifacetadas e irónicas, são assinadas com textos biográficos que retratam experiências pessoais da coreógrafa.

O pressuposto coreográfico de Bausch vai mais além do pragmatismo da mera visão do público: ela procura alcançar os limites do ser humano, catapultando o desespero, sofrimento, tristeza e vitalidade através de uma presença física e emocional levada ao máximo. No momento da criação, Bausch faz perguntas ao seu corpo de bailarinos, tentado explorar os limites e as possibilidades da comunicação. A resposta não é dada com uma simples improvisação, requer uma honestidade mas também simplicidade bem mais profundas, no momento em que o bailarino deixa cair as máscaras e reduz-se ao ser humano que é.

Em finais dos anos 70, a controvérsia converteu-se na dicotomia dança/teatro: qual a verdadeira vertente de Pina Bausch? A verdade é que ela interessa-se menos pela forma do que pelo conteúdo, pouco interessa como as pessoas se movem em palco, mas sim o que as faz mover. A classificação das suas obras é irrelevante, quando no final o conjunto é incorporado num grande ritmo de dança. Pina revolucionou a dança, na medida em que lhe deu uma nova dimensão: transformou-a numa arte de beleza, cheia de amor, humanidade, e esperança.

Durante mais de 30 anos, Bausch tem explorado os sentimentos, amor, carinho, raiva, relações fracturadas e solidão, repetindo incessantemente a nossa busca eterna por um conforto interno e sólido, e a nossa inabilidade em destruir os nossos fantasmas da mente.

É talvez através desta ordem de pensamentos que podemos analisar o cenário jocoso e extravagante de “Nelken”…

Centenas de cravos brancos e vermelhos enchem a sala, onde homens e mulheres desconfortados vagueiam pela sala, perdidos, ora vestindo roupa de crianças desgrenhadas, ora transmutando-se em adultos. Preenchem o vazio com os seus próprios erros e diálogos desconexos. Subitamente, emerge um coro, e todos embarcam numa dança desenfreada, ao som dos anos 30. A imagem onírica é subitamente interrompida por uma figura autoritária, que ofende uma das personagens e aqui a história desemboca no tragicómico, cravada pelo medo, incertezas e uma obscuridade perpassada por soldados alemães que exprimem a sua agressividade ao som da música.

“Nelken” não é mais que um eterno teatro de experiências e sentimentos que Bausch nos transmite ao som de Billie Holiday, Franz Lehar, George Gershwin e Richard Tauber entre outros.

Em Ten Chi (Céu e Terra), a artista procura mais uma vez descrever o mundo e as emoções, mas focando-se desta vez nas crianças e o poder da imaginação. “The images make the fantasies of the audience take flight” – afirma a coreógrafa. Nesta peça, Bausch e a sua companhia trabalharam durante dois anos com crianças procurando entender os seus sentimentos, captar a sua inocência e visão do mundo. Depois, transportam para o palco todo esse brilho infantil por nós, adultos, já esquecido. É um trabalho sobre a infância, decorado com música de Norah Jones, Club dês Belugas, Kreidler, Plastikman, Ryoko Moriyama, entre outros, e textos de José aramago, Bertold Brecht, Ruth Berlau, e Wislawa Szymborska.

É com curiosidade que aguardamos a reacção do público português a estas duas obras, depois das várias passagens de Bausch pelo nosso país, umas aclamadas pela positiva como a sua participação nos Encontros Acarte 1989 com Auf dem Gebirge hat man ein Geschrei gehort (E na Montanha ouviu-se um Grito, de 1984), outras como a apresentação de Água (2001) no CCB, criticada por alguns como esgotada a linguagem revolucionária de Bausch. Qualquer que seja o julgamento, consideramos importante uma re-avaliação das transformações dramatúrgicas de Pina Bausch passados 20 anos. A não perder.



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