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A menina Break dança?

B-girl é a bailarina que pratica Breaking (Breakdance, para os amigos). Piny é a “nossa” breaker, e dá-lhe forte e bonito nesta dança. Uma viagem no feminino a um mundo dominado por homens, que se encontra em nítida expansão em Portugal.

O Breakdance é um estilo de dança nascido e manifestado nos âmagos da cultura hip-hop, entre a juventude afro e latino-americana do Bronx dos anos 70. James Brown, o Mister Dynamite, ofereceu os primeiros passos que viriam a inspirar toda uma nova estética de street dance. Ritmos fortes e intensos, prolongados ou remisturados, sacudiam a cultura de rua e despertavam movimentos reivindicativos, de corpo e alma insaciáveis.

Piny, uma “miúda” de Lisboa, filha de pais angolanos, nasceu curiosa pelo mundo, pelas pessoas, pela música, pela cidade, pela poesia, pela arte… A dança é, para ela, “uma forma de expressão e comunicação. É um sentimento de liberdade, como se pudesse falar com o corpo. O corpo não mente como as palavras e esse sentimento de verdade, essa ingenuidade que se perde com o tempo, trazemo-la sempre no movimento”.

Como surge a tua incursão neste mundo (dança/Breakdance)?
A minha incursão na dança foi inesperada mas rápida. Comecei a dançar muito tarde, com 22 anos. Como em tudo, fui dançando muitas coisas diferentes simultaneamente e faço-o até hoje. O mundo parece-me sempre demasiado rico para me cingir a uma só coisa.

Sempre fui fanática por filmes musicais e videoclips, fã do Michael Jackson e do Dirty Dancing. Dentro do hip-hop fascina-me a cultura como um todo, a dança, a arte, a música, a moda, a luta política e social. A vertente bling bling, por si só, diz-me pouco. Tal como a discriminação que é feita pela nova geração hip-hop da Mtv americana.

Quando comecei nem sabia bem o que era o Break, o Popping, o Locking, o New Style… O que era um Writer, crossar, bombing, um crossfader ou o scratch. Hip-hop era um nome que representava muito menos do que vim a descobrir. Comecei a fazer umas aulas num ginásio, encontrei a Leo e a Baronesa e começámos a treinar. Depois conhecemos os “12 Macacos” (crew de Lisboa) e o “Speedy (in Motion)” e começámos a treinar com eles na Alameda. Cada uma de nós foi desenvolvendo o seu estilo, viajando e batalhando. Surgiram convites e a coisa assim foi seguindo.

Entretanto eu e a Leo também somos DJ’s (SoulFlow Djs), tocamos regularmente no Mini Mercado, no Casino de Lisboa e no Sweet e, de vez em quando, fazemos umas incursões no Graff.

Onde situas o panorama actual do Breakdance em Portugal? Há procura, oportunidades e reconhecimento do vosso trabalho?
Pergunta difícil. Existe uma comunidade extensa até… Existe um blog na net onde frequentemente se tenta fazer essa contagem, de quantos b-boys e b-girls existem em Portugal, ou quantas crews existem. A comunidade de dança Hip Hop vai-se dividindo por estilos (B-boying, Locking, Popping, New Style e, dentro da cultura Clubbing, o House).

No Break as pessoas ou dançam sozinhas ou têm uma crew, que é o mais frequente. Treinam juntas e, sempre que há Battles, o pessoal encontra-se. Eu já noto diferença desde que comecei para agora e não treino assim há tanto tempo, uns três, quatro anos. A procura do trabalho vai sendo dividida por entre as diferentes crews, dependendo da sua visibilidade e da cidade onde vivem, mas é muito pouca. Não é possível viver das performances de Break.

É uma luta muito pessoal. Há quem dê aulas, há quem dance com grupos em concertos, videoclips, apresentações em festivais de Verão… mas nada de consistente e, normalmente, são muito mal pagos. Aí está um dos maiores problemas. É que só agora se começa a ver um b-boy ou uma b-girl como bailarinos. Ninguém convidaria uma companhia de dança clássica ou contemporânea para actuar de graça ou por quase nada. Cá não existe esse respeito, ainda somos vistos como os putos do bairro. Há uma companhia de dança francesa, Companhie Montalve-Hervieu, que tem b-boys, Lockers e Poppers em palco, ou os GRN, Grupo de Rua de Niterói, Brasil, que também faz digressões pelo mundo inteiro. Ainda não atingimos esse ponto cá, infelizmente.

Já existem, no entanto, algumas battles que se vão organizando e que trazem muitos bailarinos estrangeiros e têm bons prize money, como a Eurobattle (Porto) e a Urban Explosion (Esposende). Agora em Lisboa está a realizar-se o Sweet Playground, que tem agitado um pouco as coisas também.

O Breakdance é uma “sub-arte” associada ao Hip-hop e a danças alternativas/discriminadas, ou é reconhecido como uma arte performativa?
Vou tentar responder na perspectiva de quem está dentro do meio e de quem vê de fora. Não acho que seja de todo uma sub-arte ou que alguém a considere como tal. Apesar da música ter um papel muito forte na divulgação do Hip-hop, o Break é o movimento da cultura, como o Graffiti completa a parte plástica e interventiva, tal como a música. Todas têm o seu papel, sejam folclore ou dança clássica. Acho que começa a existir agora alguma curiosidade pelas pessoas/bailarinos/coreógrafos conceituados, sobre o que se passa na rua, no meio não académico. É difícil no entanto esse processo de aproximação, seja por desconhecimento dos meios, ou incapacidade de juntar esforços, porque eu acredito que exista vontade. Pela minha experiência pessoal sinto que aos poucos as coisas começam a mudar, muito pelo que se vai passando noutros países e nos chega até cá. Há muitas fusões de contemporâneo com Break, bailarinos de rua sem formação académica que começam a fazer aulas de clássico. Acho que é um mundo novo que começa a ser explorado. Não deixo, no entanto, de observar que são convidadas companhias estrangeiras que fazem esse trabalho para festivais e centros culturais, mas ninguém apoia a criação das nossas próprias estruturas.

E ser mulher, neste universo de dança, ajuda ou dificulta as coisas?
Acho que te deparas com o mesmo problema que em muitas outras situações; parece que tens de dar o dobro para ter reconhecimento igual. Não as palmadinhas nas costas, mas reconhecimento e respeito de verdade. Há facilidades e limitações nos movimentos, não somos homens e eles não são mulheres. Aqui existe um grande problema que é o equilíbrio entre ser feminina e masculina, se calhar o mesmo equilíbrio que os bailarinos homens de dança clássica têm de encontrar. Eles a força na elegância, nós a elegância na força. As dualidades habituais.

Tens de quebrar o estigma de ser fisicamente mais fraca e desistir mais depressa, ser mais frágil em relação à dor. Se és forte vais ser criticada por pareceres um homem a dançar, se fores demasiado feminina, não estás a dançar Break… Somos muito poucas em Portugal, menos de dez acho, e muito dispersas por aí. Mas olho para o resto do panorama do Hip-hop e é igual. Quantas MC’s femininas existem? E DJ’s? Acho que só no Graff é que poderá haver mais, mas também somos poucas.

Quem ou que exemplos/caminhos gostarias de seguir nesta área?
Não consigo dar nomes porque não conheço a luta pessoal de cada um. O caminho que gostava de seguir eu sei, que era poder viver de tudo isto, da dança e da música também. Como sou arquitecta de formação, gostava de um dia poder juntar tudo isto num milkshake e criar alguma coisa consistente. Gostava que as minhas crews se tornassem companhias de dança, com ordenados e espectáculos. Com capacidade criativa e de intervenção cultural e social. Passar a mensagem e fazer a cultura de rua crescer até ao considerado público erudito, para fazer o processo inverso de novo. Viajar pelo mundo e aprender para sempre.

Onde te “encaixas” dentro de um estilo do Breakdance (métodos, passos, lógica da dança)?
Acho que cada estilo é inicialmente definido pelo teu próprio corpo, ele é que te define, não és tu que o vais definir. Normalmente segues o caminho que ele te dá. Se és muito flexível talvez vás fazer mais movimentos nesse sentido, se tens mais força ou mais equilíbrio… Eu tento melhorar o que já tenho e aquilo que gostaria de fazer. O que mais gosto é a dança em si, o Top Rock no beat, o footwork, os freezes na música.

Normalmente há B-boys que são mais stylers, outros power movers, outros são completos e procuram fazer um pouco de tudo. Tudo exige um treino e empenho diferente. É importante procurar um caminho próprio, não ser viciado no Youtube e copiar moves. Originalidade e sentimento. Com treino.

Eu gosto de explorar, de não me fechar dentro de regras muito rígidas, de tentar sempre mais, mesmo que não resulte.

O Break tem futuro?
Claro que tem futuro! Nunca precisou de dinheiro ou escolas. Faz parte da cultura urbana e passa de pessoa em pessoa, já venceu fronteiras e uma geração. Passa por todos nós de lutarmos para que isto continue e irmos passando o que sabemos, enquanto continuamos a aprender. Se houver mais apoios, salas de treino, investimentos locais, patrocínios de marcas e convites para espectáculos, o crescimento será maior e mais consolidado.

Como são planeadas as actuações da tua crew?
As actuações vão surgindo, nunca é muito certo que género de coisas vai aparecer. Com as ButterflieSoulflow já dançamos em videoclips, DJ sets, concertos, espectáculos. Com os Jukebox, temos feito mais espectáculos de palco, como no Festival Internacional de Oeiras e outros eventos de dança.

Actuamos onde há interesse e nos convidam mas, infelizmente, fazes os primeiros trabalhos a custo zero porque no próximo já há dinheiro e, muitas vezes, nunca chega a haver o próximo. É preciso haver mais respeito.

De um ponto de motivação pessoal, como “sentes” o Breakdance? O que te impele nesta dança?
Para mim é uma forma de comunicação, expressão e luta. Luta contra os meus limites, luta com os meus medos e luta com o mundo que me questiona. O Break não se veste e despe… é uma coisa que se é. Para mim é uma forma de arte, de desenho no espaço, de respiração com o corpo. É como um statement sobre o mundo, onde grito eu estou aqui, posso mudar o que me envolve e tenho força para enfrentar tudo. Acho que é uma coisa mesmo muito pessoal, mas é uma forma de poder sobre mim própria. Quando se partilha um treino ou uma cipher partilha-se uma forma de comunicação, uma conversa sem palavras onde nem todos estão aptos a comunicar. É subtil, porque as coisas mais interessantes raramente são as mais aplaudidas. Um toque no beat, um movimento inesperado, único… É um desafio à criatividade, ao espírito e ao corpo. Tens de sentir, e não exibir.



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