Pixies @ Coliseu dos Recreios (09.11.2013)

Pixies @ Coliseu dos Recreios (09.11.2013)

Onda de mutilação

Muitas vezes se utiliza a expressão, mas em raras ocasiões se refere a realidade: os Pixies mudaram o mundo. Quem o diz não somos nós: Kurt Cobain criou os Nirvana quando tentava tirar-lhes uma cópia, David Bowie chegou a resumir a música feita nos anos 80 ao quarteto liderado por Frank Black. Era por esta banda que um Coliseu dos Recreios a rebentar pelas costuras esperava impacientemente ontem à noite, à medida que o relógio caminhava para as dez badaladas.

Parece-nos seguro assumir que uma quota-parte considerável da audiência terá ouvido estes temas pela primeira vez na fita de uma cassete, mas é intercalada por uma geração com menos alcance cronológico. Tudo isto se percebe quando a banda de Boston sobe ao palco: a urgência não turvou nem um palmo desde 1987.

«Planet of Sound» deu a partida de um alinhamento implacável – foram mais de três dezenas de temas que desfilaram a velocidade estonteante por entre as mais de três mil almas em sentido. Tão implacável que palavras que não caibam em notas musicais não passaram pelo microfone. Em tal arremesso de hits, a Frank Black mais não se pode pedir – ainda canta, e guincha, e uiva, e grita, numa parafernália vocal que desliza sobre a guitarra corrosiva de Joey Santiago, ressoa na percussão crua de David Lovering e quase aterra no baixo nuclear de Kim Deal – perdão, Kim Shattuck.

As canções novas não são recebidas em berço tão cómodo – exceptuamos «Bagboy», que recupera uma crueza de que sentimos falta no respectivo regresso “aos discos”. Só que a máquina não pára e os tempos áureos de “Doolittle” ou “Surfer Rosa” rapidamente reinstalam a euforia – a histeria generalizada de «Debaser», «Tame» ou «Bone Machine» provam isso mesmo.

Às tantas, a rapariga do radiador (rápido surrupianço ao universo de David Lynch) transforma-se em «Monkey Gone to Heaven» e o gáudio de uma audiência rendida é mais do que evidente. Mas, e após tamanho desfile de hits, entoa-se a plenos pulmões a melodia de «Where is my Mind?», que encerraria o set e se prolongaria pelas despedidas até ao inevitável encore. É que, quase nos esquecíamos, mas ainda faltavam «Hey», «Caribou» e «Gouge Away» – dificilmente poderíamos conceber melhor chave para encerrar uma noite de reencontros.

Fotografia por José Eduardo Real.



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