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Podcasts

O novo meio de selecção para os cómicos norte-americanos.

É preciso muita coisa para aparecer num filme, ou numa série de televisão. Muita coisa para além de talento, quero dizer – os contactos certos, o sentido de oportunidade, a simples sorte de estar no lugar certo à altura certa. E como inúmeros noirs não se cansam de nos lembrar, existem legiões de actores, realizadores e guionistas frustrados em Los Angeles à espera dessa sorte.

Claro que depois também há outras possibilidades. Há, houve sempre, o stand up. Em que os problemas acima listados não desaparecem propriamente da face da terra, claro, mas em que as somas de dinheiro envolvidas são menores, os custos de produção menos assustadores e em que, por isso mesmo, é mais aceitável correr-se riscos, apostar-se em novas ideias, fazer-se piadas que não tenham de ser compreendidas por todos os grupos demográficos que dão lucro à televisão e aos cinemas. O stand up é uma grande tradição artística norte-americana; dela saiu uma quantia estonteante dos cómicos mais importantes do século XX. Muitos há que são agora conhecidos por outras coisas: Louie C.K., Woody Allen, Jon Stewart. Alguns – Eddie Murphy, por exemplo, e Zach Galifanakis vai pelo mesmo caminho – fizeram o seu melhor trabalho nessa área, deixando quem os viu apenas em ecrãs confuso acerca das razões da sua popularidade. E outros há ainda que, por terem vingado principalmente nesse meio, não são aqui tão conhecidos como nos E.U.A.: Dick Gregory, Bob Newhart, George Carlin. Afinal de contas, o stand up é uma arte mais difícil de exportar.

Como sempre, a palavra de ordem: interwebs to the rescue! O formato podcast tem sido entusiasticamente abraçado pela comunidade que (com o devido rolar de olhos necessário sempre que se usa a “palavra a”) podemos definir como alternative comedy. Alguns são gravados ao vivo, outros em estúdio, mas em ambos os casos, os cómicos começam a apostar naquilo que separa o meio de outras formas de expressão, isto é, vocacionam-se cada vez mais para o áudio, o que dá grande destaque ao stand up, claro, mas também abrange a comédia de improvisação e os diálogos cáusticos em estilo roast. O que previamente só se ouvia em palcos de Los Angeles, Nova Iorque ou Chicago, faz agora a delícia do iTunes, e muitas vozes anteriormente conhecidas apenas por quem está “por dentro” podem agora ser ouvidas por um público maior. Do humor frat boy de Adam Carolla até à raiva marginal do “Best Show” com Tom Scharpling, há podcasts para todos os gostos. Aqui vai uma lista (parcial, tendenciosa) do que anda a correr pelo podverse da paródia.

“Comedy Bang Bang” – Semana após semana, o podcast de humor que mais fiávelmente traz os lols. Em cada episódio há dois convidados: um verdadeiro (com uma lista que inclui pesos pesados como Weird Al Yankovich e Amy Poehler) e uma personagem fictícia. O maior prazer do programa é acompanhar a progressão das entrevistas mais ou menos sérias (mas mesmo assim divertidas) que o anfitrião Scott Aukerman faz ao primeiro convidado para o leve absurdismo que desperta com a aparição do segundo, e que aumenta rapidamente o tom até que, ao final do episódio, é perfeitamente normal estarmos a ouvir Andrew Lloyd Webber a forçar Richard Branson para dentro de um balão, ou um medium a comunicar com Chewbacca dentro do “fictional wookie heaven”. “Comedy Bang Bang” é comédia de improvisação no seu melhor.

“WTF With Marc Maron” – Um dos podcasts mais aclamados, mencionado no “New York Times” e “Entertainment Weekly”. Marc Maron é um veterano do meio, com relações pessoais (muitas vezes atribuladas) com quase todos os maiores cómicos activos. Um aspecto único do programa é que não há um enfoque especial na comédia: Maron está muito mais interessado em entrevistar a fundo os seus convidados, percorrendo a sua biografia e desconstruindo os seus impulsos artísticos de uma maneira à qual já estamos mais que habituados na música ou na literatura, mas que poucas vezes é usada para o stand-up. Esse escrutínio também pode levar a conflitos sérios: como exemplos, temos a soberbamente desconfortável entrevista a Carlos Mencia sobre as acusações de plágio levantadas contra o mesmo, e um confronto com o cómico de props Galhager, que levou o mesmo a sair a meio da entrevista.

Nos seus piores momentos, “WTF” pode soar bastante a uma gravação de uma sessão de terapia alheia (o duplo episódio com Louis C.K., durante o qual Louie chora, já se tornou uma certa piada recorrente no próprio podcast); mas no seu melhor, transmite retratos fascinantes dos entrevistados. E, sem a procurar, tem piada – o segredo é a afável personalidade do próprio Maron, hiper-neurótico, desconfiado, cheio de cicatrizes emocionais, mas sempre disposto a mergulhar mais fundo em prol de alguma ténue verdade.

“Doug Loves Movies”Doug Benson é (moderadamente) conhecido por “Super High Me”, o documentário/paródia de “Supersize Me” no qual passa trinta dias sem fumar erva e depois trinta dias a consumir quantidades prodigiosas da mesma. Isto já serve de boa introdução para o podcast: Benson é, tal como se esperaria, um ganzado afável incapaz de (ou, mais provavelmente, pouco interessado em) impor qualquer disciplina ao joguinho de trivial de cinema que justifica o título do seu programa. Em vez disso, ele e os seus convidados (normalmente actores e cómicos um pouco distantes da lista A de Hollywood) fomentam uma atmosfera relaxada de bastidores, dentro da qual as pessoas não parecem ter o mínimo pudor em admitir em que filmes apareceram pelo dinheiro e que projectos recentes são realmente maus (o pobre TJ Miller, convidado rotineiro do programa, é regularmente ridicularizado pelo seu papel no recente filme “Yogi Bear”).

Pod F. Tompkast – O podcast mais excêntrico nesta lista (o que é dizer algo) vive totalmente da personalidade do seu autor, o ex-guionista de “Mr.Show” Paul F. Tompkins. Os monólogos introdutórios de Tompkins – introvertidos, para não dizer autistas, circulando infindavelmente na análise e desconstrução imediata do que acabou de dizer – não são para toda a gente, sendo necessário um certo entusiasmo semi-infantil pela natureza das palavras para os apreciar. As rábulas que se seguem são de um absurdismo que poderia parecer preguiçoso se não se aproveitassem tão bem do talento do seu autor, principalmente na imitação de vozes – a piece de résistance é o “Great Undiscovered Project”, uma série de telefonemas sobre um projecto colectivo protagonizado por (entre outros) Ice-T, John C. Reilly e John Lithgow, todos desempenhados por Tompkins.



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