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Pop Dell’Arte

25 anos de carreira analisados por João Peste.

Os Pop Dell’Arte, que comemoram este ano 25 anos de carreira, apresentaram no passado dia 15 de Julho na sala Musicbox, o seu recente “Contra Mundum”. À conversa com o carismático lider, João Peste, elucidaram-se um pouco melhor perspectivas, força e cariz meta-musical dum dos colectivos mais feéricos e invulgares da senda Rock Rendez-Vous.

Há neste disco uma extensão imagética e sonora que nos induz, em reflexão rápida, para as transgressões sónicas e comportamentais que nutriram, em duas décadas, não só a catalisação duma certa filosofia do espaço gerido por Mário Guia*, como da própria identidade da banda de João Peste e Zé Pedro Moura.

“O “Contra Mundum” representa os Pop dell’Arte em 2010. Claro que se ouvirmos com atenção detectamos nele, sem dificuldade, a mesma banda que concorreu ao 2º Concurso do Rock Rendez-Vous em 1985, como detectamos a banda que gravou o “Free Pop” ou a banda de discos como o “Ready Made” e o “Sex Symbol”, recordou João, “para já não falar de outros discos que fizemos nestes últimos 25 anos”.

Apesar das mudanças, ao longo da história da banda, terem sido mais ou menos constantes, o colectivo assume a invidualidade e carisma que facilmente nos lembra o grupo tal qual o conhecemos desde há duas décadas atrás, mas acrescenta-lhes, em “Contra Mundum”, algum do dinamismo que encontramos nas investidas sónicas mais actuais. “Claro que, sendo um trabalho de 2010, encerra novas sonoridades e novas formas de nos apresentarmos musicalmente, mas a identidade de Pop Dell’Arte está lá bem patente. É acima de tudo um trabalho sincero… mostra aquilo que somos no presente, com todos os nossos defeitos e qualidades. É isso que quero continuar a fazer. Quero fazer música com sinceridade e que corresponda à verdade de cada momento em que um disco nosso novo é gravado”.

E disso não há qualquer margem de indignação. João Peste assume a urgência transgressiva dos sonidos, agora revigorados pelas inquietudes, sempre variáveis, do presente apoiado em Zé Pedro Moura, Paulo Monteiro e Nuno Castedo.

“Somos posteriores ao dito boom do rock português (acontecido na viragem dos anos 70 para os anos 80)” diz. E, de facto, os Pop Dell’Arte surgiriam, e impuseram-se, mais tarde, na segunda metade dos anos 1980.

A escolha para o nome do disco, entre algumas hipóteses, foi sobretudo “porque foi o que reuniu o total consenso das pessoas da actual formação da banda. Agrada-me, pessoalmente, por ser um título em latim pois é tão universal como um título em inglês e já estávamos um pouco enjoados dos títulos em inglês” afirma.

A filosofia de adição que Mário Guia impôs ao RRV e o que se passa agora nos meios onde afinal os Pop Dell’Arte têm vindo a apresentar o seu novo trabalho é aparentemente desigual, mas “são épocas diferentes” começa por discernir, “o Mário Guia (o homem por detrás do Rock Rendez-Vous) teve um papel muito importante na divulgação das bandas portuguesas (e outras) dos anos 80, além de um papel cultural de inegável valor. Mas os tempos são outros, pessoas como o Mário Guia fazem uma certa falta no presente da música pop e rock nacionais. Mas hoje há outros espaços, a começar por uma série de anfiteatros surgidos nas últimas décadas de Norte a Sul do nosso país, para não falar de espaços como a Casa da Música ou o CCB. Mas, sim, faz falta um Rock Rendez-Vous”, revela com alguma nostalgia.

Será que podemos falar num universo pop rock vanguarda na linha do que o eixo urbano de Manchester nos trouxe numa determinada década com bandas que pareciam beber na urbe a inspiração para o processo criativo com este novo trabalho? Foi curiosidade que se impôs ao modo como se percepciona dum modo abrangente o novo álbum.

“Não creio. Acho que as influências dos PDA são muito diversas e vão desde os futuristas aos surrealistas, passando pelos dadas, pela Action Painting, pela Pop Art ou pelos ready-mades de Marcel Duchamp; pelo cinema de Fellini e Visconti… ou mesmo Godard e Fassbinder; da BD franco-belga aos comics americanos dos anos 30, 40 e 50. Musicalmente, as influências vão de Sun Ra e Miles Davis a Giorgio Moroder e Donna Summer passando por Soft Cell, Bowie, Roxy Music, Nina Simone, T.Rex, Jacques Brel, Grace Jones, Joy Division, Mark Stewart, Sonic Youth, ou mesmo, Stravinsky, Schoenberg, Stockhausen, John Cage ou Luigi Nono (entre muitos outros). Não nos limitámos às influências do chamado eixo de Manchester – Liverpool. Mas fomos sempre uma banda urbana, obviamente”, conclui.

Em redes como myspace ou fóruns, a vinda de Pop Dell’Arte é assaz das mais comentadas no seio nacional. Para uma banda formada numa época em que nada do que é agora quase imprescindível como veículo no que à cultura alargada (música incluida) diz respeito, depreende-se por vezes algum tipo de receio comparativo (passado/presente) e crítica em si mesma, que João Peste percepciona de forma clara: “vivemos tempos fantásticos… com óptimas, mas também péssimas, possibilidades. Vivemos o limiar de uma nova Era, a chamada Era da Informação. De resto, eu não tenho medo de comparações. Como já disse, lá atrás, este foi um trabalho sincero que mostra os Pop Dell’Arte de 2010. Não me interessa fazer discos perfeitos ou marcantes, ou históricos, interessa-me, isso sim, que façamos discos que correspondam à nossa verdade no momento de os fazer. Isso para mim é que é importante”.

No que concerne ao tempo, maturação e produção dispendidos em “Contra Mundum”, João lembra que “o álbum demorou cerca de dois anos a ficar pronto, mas isso teve a ver com problemas internos da banda – por exemplo, em 2009 eu fracturei duas vértebras e tivemos que suspender as sessões de estúdio por uns meses. Esse tempo mais arrastado acabou por ser positivo, pois permitiu-nos ir ouvindo e re-ouvindo as coisas com calma e assim acabámos por ter mais tempo e calma para deixarmos as ideias irem amadurecendo”.

Para o mentor dos Pop Dell’Arte, “esperamos apresentar o álbum ao vivo por todo o país, mas para mim o grande objectivo neste momento, é começar a pensar em temas novos e quiçá num disco novo”.

“As palavras-chave deste álbum (e dos Pop Dell’Arte no geral) são paixão, inteligência e sinceridade”, conclui o músico.



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