Portugal Fashion 2013

Portugal Fashion VIBE

A Alfândega do Porto recebeu dezenas de criadores na 32ª edição do Portugal Fashion

“O tempo apazigua a alma. E em relação a opiniões, estas nunca parecem tão severas e hardcore quando se deixa passar algum tempo sobre os factos ocorridos. E o Portugal Fashion não é excepção. Ainda não tinha escrito nada sobre o assunto, mas parece ser a altura adequada.

Estava expectante quanto a esta edição. Talvez por ter conseguido estar mais atento este ano às novas colecções apresentadas nas diversas semanas de moda, talvez por estas me terem trazido algo de novo e refrescante em diversas frentes, talvez por não ter tomado parte da semana de moda de Lisboa, ou talvez ainda por desta vez assumir um papel diferente: o de editor de moda de uma revista online.

Enfim…seja pelo que for, a expectativa levou-me a considerar o evento em várias vertentes e a desdobrar me um pouco para tentar observar os diversos “recantos” de que se compõem os meandros da organização e do certâme em si. Em relação a desfiles, as opiniões foram diversas, e as minhas também. Houve de tudo… evolução, estagnação, bom e mau (se essas duas se aplicarem à moda de alguma forma), mas destaco sem dúvida colecções vivas e cheias de charme, sedução e de um ritmo que a moda portuguesa precisa de impor, como as de Diogo Miranda, Luis Buchinho, Vicri, Felipe Oliveira Batista ou Luis Onofre. Diversas, pontualmente marcadas por características pessoais ou comerciais mas, no geral, bastante interessantes seja em peças seja em termos genéricos. Os vestidos do primeiro, as malas e botins do último, os sapatos e o styling imaculado do mais internacional de todos, houve coisas muito positivas.

Em relação à organização, continua a haver coisas que se mistificam e deixam confusos praticamente todos os presentes, como o porquê de uma sala tão pequena para um dos desfiles onde se espera mais gente (Luís Buchinho) ou as coreografias fantasiosas que deixaram confusas até as próprias modelos. Mas de resto, gostei. Pareceu-me mais íntegro, mais maduro, com um “vibe” (aproveitando que esta era a temática desta 32ª edição” mais humano, mais pessoal, mais informal e mais convidativo. Talvez tenha passado a estranheza em relação a este novolayout de espaço, não sei! Mas algo resultou…e bem! O Bloom continua a ser uma óptima mostra do que de novo se faz, por vezes mais interessante do que a sala principal do evento! A moda portuguesa dá cartas, e a Rua de Baixo não podia deixar de as baralhar e lançar à mesa. Assim, de mim como editor para eles, um obrigado aos que fizeram a fantástica cobertura do evento para esta que é não só a nossa mas a vossa Rua!!!”

 

Pedro Resende, editor de Moda da RDB

 

 

21 de Março

A Alfândega do Porto encheu-se mais uma vez de moda com a edição número 32 do Portugal Fashion e o tema VIBE, desta vez para abraçar as vibrações Outono-Inverno 2013/14.

A abrir a passerelle o público ficou a conhecer as propostas por Katty Xiomara, que brindou ao Outono com propostas que misturam o ancestral e o urbano, numa delicada palete que tem por base tons brancos falseados, cinzentos glaciares e o preto. A influência do património nacional é evidente com a referência ao azulejo português, trazido com o azul-cobalto e os toques geométricos.

KATTY XIOMARA @ Portugal Fashion Vibe 2013

Com efeito, emerge uma colecção feminina e urbana que se revê no Girl Power.

Sucedeu-lhe Júlio Torcato com a sua colecção “PORTO” direccionada para um público masculino, urbano, com originalidade, identidade e personalidade. A inspiração para criar esta colecção, que versa o clássico em comunhão com o contemporâneo, foi o ferro forjado, muito presente nas ruas do Porto. Fez-se valer dos mais diversos materiais como puras lãs finas, misturadas por vezes com sedas, neoprenes e polyamida, aliadas à excelente execução e acabamentos de alta qualidade. Tons base sombrios como cinza, castanho-escuro, azul-escuro e bordeaux regozijavam-se através do vermelho, azul pato, amarelo-ocre e violeta.

O desfile foi abrilhantado pela música ao vivo! O que foi do bom agrado do público presente, que soltou largos aplausos.

JULIO TORCATO @ Portugal Fashion VIBE 2013

Para finalizar a primeira noite de desfiles na Alfândega do Porto, Anabela Baldaque apresentou: “… e fez-se luz…” uma colecção que transpira feminismo e descontracção. A mulher é apresentada de uma forma sedutora, romântica, e ainda mais pop. Mais uma vez nota-se uma grande influência urbana e irreverente, onde se adoptam os outfits de festa para o dia sem preconceitos.

Nela encontram-se casacos oversized, com zip ou em trespasse, com grande destaque para as golas. Materiais como lãs e napas lisas, fazendas de mistura, sedas e lantejoulas, texturizam apliques de rendas e pelos em conjunto com a vasta exploração de cores, como o azul que remete para o filme “Breakfast at Tiffany’s” de 1961, o bordeaux, cinza, rosas e castanhos, entre outras, com destaque para o branco; que contrapõem lisos com padrões como o xadrez e quadriculados que relembram as enérgicas décadas de 60 e 70.
ANABELA BALDAQUE @ Portugal Fashion VIBE 2013

Saias curtas em godé, pregueadas, vestidos camisa e calças justas e estilo masculino foram as peças chave do desfile.

Hoje a Alfândega receberá nomes como Ricardo Preto, Diogo Miranda e Luís Buchinho e abrirá o Espaço Bloom, que promete divulgar as propostas dos mais jovens nomes do mundo da moda nacional.

Fotografia de Pedro Castro
Textos de Mónica Cardoso

22 de Março 

MEAM by Ricardo Preto iniciou a segunda noite de desfiles a Norte desvendando uma colecção que tem por alento a mistura entre a actualidade vibrante e o futuro! A mulher reflecte-se em sensualidade, independência e feminilidade evocando uma época.

Uma colecção repleta de padrões como o quadriculado, o xadrez, camuflados e uma pequena selva de felinos como tigres e leões onde não escapam as texturas, destacando-se as lãs, algodões e seda misturados com bordados e tapeçaria enaltecendo uma silhueta elegante, onde volumes e peças justas se opõem.

Na colecção “Casa Corpo”, com grande aposta para os acessórios, as cores dançam entre o preto, amarelo, vermelho, azul, verde e o branco.

MEAM by Ricardo Preto - Portugal Fashion 2013 Vibe (ver galeria)

Diogo Miranda apresenta mais uma vez uma colecção forte, audaciosa, que vive para a mulher e lhe assenta na perfeição. Com o tema “LAdy v.s. Boyish” retrata a mulher com peças ultra femininas e empresta-lhe o estilo “Boyfriend” conjugando peças sofisticadas com o oversized despojado.

Pretende proporcionar o conforto feminino e uma atitude mais descontraída. O preto, branco champanhe, azul-marinho, azul céu, verde e bordeaux revelam vestidos de excelente detalhe e casacos com belíssimo acabamento.

Diogo Miranda @ Portugal Fashion Vibe - 2013 (ver galeria)

Muda-se de espaço, muda-se de criador. Luís Buchinho apresenta a sua KNITWEAR onde o azul já vem alegrando desde outras paragens. Materiais como jersey, pelo, pele e bouclé de lã jogam em peças que contrastam o masculino com o feminino sugerindo linhas rectas.

A grande influência é o design industrial dos anos 70 que se transfere para peças de usar no dia-a-dia, descaradamente urbanas.

Com grafismos simples, geométricos e blocos de cor que se revezam entre preto, verde tropa, bordeaux e azuis, as peças em malha tricotadas em diferentes volumes, fios e padrões, revolucionaram a noite.

Luís Buchinho @ Portugal Fashion Vibe 2013(ver galeria)


Miguel Vieira
apresenta uma colecção mista, mulher e homem, onde a mulher prima pela sedução, força, beleza, confiança, razão e sofisticação e o homem principalmente pela elegância reflectida no corte.

Uma colecção poderosa, carismática e sofisticada pintada com diversos tons de branco, ouro, castanho e preto. Jogos de volume assimétricos alternando entre a silhueta recta e a ampulheta, nos casacos também propõe os oversized conjugando-os com mini-vestidos ou pelo joelho, calças largas e saias, onde emprega lantejoulas que têm a seda por suporte, jacquards com motivos animais e florais, tecidos lisos em apoio a malhas e fazendas.

O homem aparece trajado de uma forma classic-cool propondo aliar o uso do fato ao ténis e a bota; os acessórios, sapatos e botas incríveis que dão o aprimorado toque final em todos os conjuntos.

Miguel Vieira @ Portugal Fashion Vibe 2013
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Para findar a noite TMCOLLECTION by Teresa Martins revela os seus tecidos fortes onde recorre ao uso das lãs, algodões, linhos, jerseys e hand wovens propondo versatilidade e intemporalidade, encontradas em cores inusitadas como laranja torrado, xisto, azul, preto, neutros, cinzas e ganga, com reflexo nas “Origens”. Repletos de bordados, estampados e texturas que comunicam em tom outonal, revelam uma colecção feminina, bela e harmoniosa com recurso aos acessórios que abrilhantam os coordenados.

Elementos híbridos, de construção simples e gráfica, articulam-se com outros mais complexos que remontam às origens da TMCOLLECTION, onde cada peça vivia por si numa singularidade universal de texturas padrões e cores.

TMCOLLECTION by Teresa Martins @ Portugal Fashion Vibe 2013

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No espaço BLOOM desfilaram as sugestões de Cláudia Garrido com fortes malhas, diversificadas em padrões, texturas, relevos, pontos de tricot e cores, inspirada em “O Grande Gigante”de Oscar Wild, negligenciando a cara dos modelos com meias em tricot e respeitando a descontracção e diversão. Carla Pontes, numa visão mais micro que ganha corpo tridimensional, apresenta blocos texturados, volumes pregueados, rugosos, mas de toque macio onde predominam os tons azuis. Stefano Ficetola apresenta “REBUILD” com inspiração japonesa urbana que transpira masculinidade e jovialidade e, para fechar a primeira noite do espaço, Joana Ferreira apresentou também a sua colecção.

Hoje, após as propostas do INDUSTRY, seguir-se-ão nomes como Carlos Gil, VICRI, Lion Of Porches e Filipe Oliveira Baptista. Pelo espaço BLOOM passará Teresa Abrunhosa, Carlos Couto, Klar e, para finalizar a edição número 32 do Portugal Fashion, Luís Onofre e os seus acessórios.

Fotografia de Pedro Castro
Textos de Mónica Cardoso


23 de Março

INDUSTRY abriu o terceiro e último dia de Portugal Fashion com as propostas trazidas por Concreto, Cheyenne, Mad Dragon Seeker e Dom Colletto, actuais e dinâmicas, fazendo uso de diversos cortes e materiais com inspiração urbana, clássica e cool para um look actual e citadino.

Seguiram-se as propostas de calçado, com a abertura a cargo da Cohibas, e a inspiração nos Hipsters, lembrando o retro, com o cunho muito próprio da marca que nunca deixa de lado o modelo Rockabilly, desta vez disponível com uma sola mais larga e leve em busca do conforto.

Dkode apresenta uma colecção emotiva e romântica. Nela encontram-se acabamentos texturizados, metálicos, desbotados e oxidados. Referência moderna à fantasia emocional, que alia o teatral, ao barroco e ao vintage.

FLY LONDON apresenta uma colecção nada convencional onde no feminino plataformas em madeira, saltos rasos com berloques e cunhas fazem a festa. Para os homens as indicações são botins e sapatos de cordão em pele vintage, pormenorizando assimetricamente cores e formas.

De composição geométrica, Alexandra Moura + GOLMUD apresenta uma proposta com inspiração no quadrado, que busca conforto e simplicidade. O uso do unissexo torna-a versátil e contemporânea, o salto alto exalta feminismo. O uso dos detalhes dourados pretende evocar o mundo extraterrestre, numa estética repleta de simbologia.

J. Reinaldo reinventa os clássicos, numa conjunção de cores joviais e frescas. A nova colecção alia dinamismo e intemporalidade, numa mistura entre passado e futuro com interpretação contemporânea.

NOBRAND apresenta Crossroads, uma linguagem neo-western e aventureira inspirada nas road trips pela Route 66 onde se experienciam desertos, saloons, drive-ins e bares típicos no interior dos Estados Unidos da América. Dá corpo a uma visão homogénea, futurista, onde todos os caminhos se cruzam num design cósmico e vanguardista.

Com Silvia Rebatto viaja-se pelo tempo, com forte influência nostálgica no passado mas ambicionando viver o futuro. Os brilhantes dourados, ocre e tonalidades mate, aliam-se a cores mais graciosas e leves como lilás e turquesa, numa colecção funcional que não esquece a modernidade nem a tradição.

Carlos Gil e a sua selva desenfreada rasgam a passerelle com o feminismo forte e cheio de atitude, inspirado na mulher citadina que se divide numa linguagem que relembra os anos 60 e 70. Destaca-se a silhueta onde a cintura é protagonista, entre tons neutros como o preto, o branco e o camel, que se misturam com os verde selva e os rosa azália em comunhão com um vasto conjunto de materiais, com destaque para os pelos e os impermeáveis, traduzindo um estilo animal.

Portugal Fashion Vibe 2013(ver galeria)

 
VICRI
evoca o homem maravilha, aperaltado com as já notáveis cores garridas onde se destacam azuis, verdes, laranjas e grenás, sarapintados com aplicações inspiradas nas patentes militares. Remontando às épocas mais abastadas encontram-se toques de ouro envelhecido.

De influência Rockabilly, ostenta feltros, flanelas algodões e sedas recuperando o clássico fato completo, estilo italiano, a calça e blazer, inovando com detalhes em pele e introduzindo casacos curtos, trespassados e as capas. Nas camisas estampam-se motivos abstractos, onde as gravatas e os laços são convidados a ficar.

Como é hábito, as peças ousadas e discretamente excêntricas contribuem para a construção de uma marca forte e exclusiva que se prepara reforçar a sua internacionalização.

 

Portugal Fashion VIBE 2013 - Carlos Gil(ver galeria)

Lion Of Porches introduz pela primeira vez uma colecção KIDS com propostas para menino e menina para Outono/Inverno. Conjuga peças simbólicas da marca, de inspiração britânica, com requinte nos materiais, acabamentos e detalhes.

LION, a sua linha mais própria, de inspiração preppy, dá destaque a tecidos como fazendas, lãs, tartan, caxemiras, xadrez aprimorados com emblemas que fazem referência ao estilo colegial, revezando cores como o marinho, verde, vermelho e amarelo.

Na linha CITY, sem quebrar a identidade da marca, sugere-se elegância e versatilidade, com inspiração britânica, sensual e feminina onde se usam as sedas como requinte. A mulher prima pela sedução contrapondo ao charme desprendido do homem.

Portugal Fashion VIBE 2013 - Lion of Porches(ver galeria)

Seguiu-se a feminilidade, sempre presente nas propostas de Felipe Oliveira Baptista. “Inquietude” concentra-se nas imagens performance de Helena Almeida, evocando força e condensando a tridimensionalidade numa peça de vestuário sóbria onde os volumes revelam a geometria em estado puro. A forma desdobrada do corpo e abstracção evocam Pina Bausch. Uma estética ainda por definir mas explorando a forte influência portuguesa após uma nova interpretação do “Livro do Desassossego”, de Pessoa, e do filme “TABU” (2012), de Miguel Gomes, que pretende misturar a repressiva austeridade e a sensualidade cintilante revelando uma linha condutora com clareza, um “ultra-classicismo” sem aspirar à intemporalidade mas antes à afirmação de uma modernidade sem época. Passeiam-se peças volumosas e assimétricas, saias e vestidos de comprimento fora do vulgar, casacos oversized de corte masculino, com grande destaque para os ombros descaídos abraçando o corpo com prints, evocando a fauna em materiais como híbridos, lãs, cetins, nylons, couros e camurças rígidos e flexíveis, monocromáticos contrastados com preto, salpicados de azul, cinza e rosa.

Portugal Fashion 2013 - VIBE (ver galeria)

DIELMAR provoca com a robustez sexy do homem que leva a vida ao estilo boémio e criativo. Desvenda um playboy citadino, que readquire elementos clássicos ao estilo sensual de “Boardwalk Empire”, “Mad Man” ou “Downton Abbey”, enfatizando os pormenores ásperos, gastos e envelhecidos em lãs, jerseys, tweeds, veludos e nattés, estampados e tingidos com destaque para os efeitos semi-brilhantes, em versões super 130’s e 150’s e os cotelê em 8, 12 e 14 canas de aspecto usado e lavado, entre bases escovadas e desgastadas que contribuem para a visão confortável, retro e vintage, que parecem transpirar a história de uma vida, entre acessórios, tons neutros, frios e quentes criando o ambiente outonal.

Luís Onofre fecha a passerelle de mais uma edição de Portugal Fashion com a irreverência dos seus acessórios. Tendo por tema “Black is Back”, a colecção decompõe-se em tonalidades, materiais e apliques metálicos. Botas, botins, galochas, sandálias e stilettos pintados de cores em suplemento ao preto, como verdes, castanhos, mel, pérola e fúchsia evocam o ambiente equestre em primazia com materiais como o couro que contrasta casualidade e sofisticação presente nos motivos metálicos aplicados nos canos, biqueiras e saltos, rasos ou de 16cm, com destaque para a estrutura metálica no interior do salto em plexiglass transparente.

As malas são apresentadas em dimensão maior e sempre a concordar com o calçado. Robustas, conjugam também aplicações metálicas, diversos tons e materiais.

 (ver galeria)

No Espaço Bloom, que destaca e apresenta novos talentos, João Melo e Costa, Mafalda Fonseca e Diana Matias foram alguns dos nomes da noite com propostas arejadas, jovens e irreverentes.

E assim terminou mais uma edição do Portugal Fashion na Alfândega do Porto onde se assinalou a necessidade de exportação da moda nacional, que, como de resto a todos os níveis, atravessa também um duro período menos rentável e onde todas as vozes afirmam a necessidade de determinação, entrega, persistência e muito trabalho.

Fotografia de Pedro Castro
Textos de Mónica Cardoso 



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