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“Post-it”

Whatever it means.

Em Post-it, Márcio Pereira (seu autor) antes de quaisquer juízos ou opiniões alheias impute-lhe um cauteloso “Whatever it means”. De facto, as interpretações da sua performance autoral subjugarão sempre as apreensões dos receptores sob as suas experiências e exigências distintas.

No entanto, dificilmente o naipe diferencial que no decorrer da sua performance, no passado dia 20 de Outubro esteve na Igreja de S.Vicente, em Évora, não lhe terá captado a significância profunda do seu desempenho revendo-se num ou outro momento da sua actuação.

Primeiramente, há uma espécie de existência quase metafísica que, ao longo da performance, se cria e escolhe a si e em si própria, com a ajuda de mais dois personagens ou “eus” (perseguidos por Sofia Pereira e Zara Pereira) se preferirem, actuando.

O crescimento do movimento, a urgência com que se evade no momento em que sai da concha protectora e que acompanha grande parte do espectáculo, o jogo de formas/estados de inquietação permanente, a hibridez das linhas sonoras que o cosem – ora morosas ora iluminadas, expansivas e viscerais (destaque para o entrosamento musical ao longo de toda a cena, que conta na evolução do – seu – eu com o cruzamento de universos musicais distintos que recorrem/passam tanto ao e pela técnica de sampling de Laurie Anderson como podem e, na realidade, culminam, no lirismo sinfónico do período barroco) – e que intensificou nitidamente algumas das premências sentidas no todo da sua expressão corporal.

Há quem tenha escrito em tempos, aquando as fantásticas considerações da inteligência sensível e até dualidade “tensão-harmonia” características do período romântico, que sob uma carapaça de tartaruga, formal, rígida e imbatível, escravizada pelas normas e já com pouca capacidade de surpreender, muito dificilmente o carácter mais “belo”, idílico até, das variadas artes irá ter a capacidade de compreender e fazer uso da transgressão, encarando-a como ruptura de preceitos enraizados que caminha no sentido de uma nova ordem ou criação. “Post-it”, pode, por breves instantes, perder-se num excesso de artefactos (luz, cor, matérias – entre os prateados e o amarelo e os eus desfasados da sua vivência), mas o negro que também envolve a sua realidade deixa-nos os primeiros grãos de areia nesta engrenagem do entendimento como um todo. Ou melhor, os vários “recados” deixados pela igreja de S.Vicente na noite de 20 de Outubro são já, ainda que com franca e assumida noção do início da abertura de um campo e estética, mesmo que pessoal, com muito para explorar, uma ferramenta incrível da sua existência parafraseando o jovem actor “Whatever it means”.



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