PR#6 Ele foi Mattia Pascal

de Luigi Pirandello

Por vezes o que parece ser uma sorte tremenda acaba por se revelar o pior dos azares. E o facto de vermos a vida sorrir-nos, nem sempre quer dizer que ela o esteja de facto a fazer. É que os olhos enganam. E do mesmo modo a razão. O homem que foi Mattia Pascal não gostava de ser Mattia Pascal. E parece que a vida resolveu dar-lhe uma hipótese de ser outra pessoa.

Mas como reage um homem quando lê no jornal a notícia da sua própria morte? O mais provável é demonstrar prontamente que houve um engano. Mas para Mattia Pascal, a sua suposta morte era a liberdade que tanto desejava. E assim Mattia Pascal sai de palco e entra em cena Adriano Meis. Mais livre e mais rico do que Mattia Pascal alguma vez fora. Mas por vezes a raposa veste a pele do cordeiro…

Esta história feita de acasos tão improváveis, acaba por se revelar mais real do que ao início nos parece possível. É-nos narrada pelo próprio Mattia Pascal, e essa opção do escritor resultou tão eficaz, que nos sentimos quase que homens pequeninos que entraram na mente da personagem e tem acesso privilegiado aos mais íntimos pensamentos. E a partilha de ideias, pensamentos, opiniões, é tão intensa, que nos tornamos amigos de Mattia Pascal. Partilhamos as desilusões, as (poucas) alegrias, o sofrimento, a solidão. Somos o confidente de Mattia Pascal, aquele a quem ele conta tudo e nunca mente.

Neste romance, Pirandello aborda a temática da identidade e a dualidade entre a realidade e imaginação. Até que ponto é que se pode brincar com a vida ou o que é de facto a liberdade, são questões que nos surgem ao ler esta obra. Pirandello não dispensa um tom muitas vezes irónico e humorístico, expondo o ridículo das situações quotidianas. Este é um livro que, apesar de escrito em 1904, se mantém actual, não só pela temática da obra (a mente humana será sempre um tema actual), como também pelo estilo de escrita de Pirandello que é elaborado e inteligente, mas também fluido e tão apaixonante que nos faz sonhar.

Luigi Pirandello (1867-1936), escritor italiano galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1934, é um desconhecido para a maioria do público português. Para contrariar isso, surge este belíssimo “Ele foi Mattia Pascal”, editado pela Cavalo de Ferro, que, aliás, tem feito um excelente trabalho editorial de divulgação de grandes escritores desconhecidos dos portugueses.



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