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Primavera Sound ’10

Houvesse uma Primavera destas em Portugal.

Parc del Fòrum em Barcelona, de 27 a 29 de Maio

O panorama dos concertos em Portugal transformou-se nos anos 90 com o aparecimento dos festivais de Verão: foi uma transfusão de sangue novo em veias onde corria sangue muito ressequido. Bandas que não passariam antes pelo país, como que montaram cá o seu estaminé, tão bem recebidos se sentiram (não é difícil lembrarmo-nos de artistas que deram cinco ou seis concertos num espaço muito curto de tempo: dEUS, Lamb, Ben Harper, Guano Apes). O problema é que isso levou à cristalização dos concertos e do gosto que se vive agora. Pela enésima vez temos os Pearl Jam a encabeçar um festival e se formos ver os nomes dos festivais mais importantes –  Optimus Alive, Super Rock Super Bock, Paredes de Coura, Sudoeste –  deve haver muitas poucas primeiras vezes.

Uma e outra vez somos brindados com o mesmo, samo samo diriam os americanos (para quem não sabe: samo=same old (shit), e curiosamente, ou como curiosidade, o nome que Jean-Michel Basquiat usava nos seus graffitti), percebe-se que as promotoras não queiram arriscar; quando se aposta no novo, há sempre o risco de se perder muito dinheiro, e em Portugal parece que o risco é maior. Até as bandas dos palcos secundários, normalmente as propostas mais arriscadas, são nomes seguros em qualquer parte do mundo: Vampire Weekend, The National, Florence + The Machine, The XX, Grizzly Bear esgotam salas até em Portugal e nenhum se estreará por cá de qualquer maneira. (Nem quero entrar por coisas como Skunk Anansie, JET e afins que já deveriam estar mortos e enterrados a bem da saúde pública.)

Serve este longo intróito para falar do Primavera Sound. A principal vantagem de um festival como o Primavera é a tentativa de apresentar novidade: todas as bandas e artistas “quentes” têm espaço no festival catalão, ou seja, todas aquelas coisas que andamos a sacar e a ouvir obsessivamente neste momento (e o momento é muito relevante, é diferente ver um concerto de uma banda que está no ponto, do que o ver seis meses depois, que é o que acontece na melhor das hipóteses por cá). Os nomes “alternativos” dos festivais portugueses são aqui os cabeças de cartaz, os arriscados são aqueles que com sorte a ZDB ou a Filho Único trazem cá e meia-dúzia de pessoas vão ver e que só vêm porque vão tocar a festivais como este (ou não – esses são os nomes médios). Não custa perceber então por que tantos portugueses (e ingleses, e americanos, e franceses, e irlandeses, e…) se dirigem a Barcelona nesta altura do ano.

O primeiro dia

Arranjar lugar para estacionar o carro em Barcelona não é tarefa fácil – os parquímetros são um balúrdio, nos descampados o mais provável é o carro ser pilhado, os vidros partidos e alegrias do género, e os parques de estacionamento subterrâneos também são para o carote mas ainda assim a melhor solução. De qualquer maneira, não se aconselha a ninguém (que não tenha medo de andar de avião) levar o carro numa viagem de 1200 quilómetros para Barcelona. É uma chatice. Por estas e por outras (mais por estas) é que chegámos ao festival pelas onze da noite, tendo já perdido uns quantos concertos imperdíveis, caso do dos The Fall.

Mas chegámos a tempo dos Wild Beasts.

Os Wild Beats lançaram “Two Dancers”, talvez o melhor álbum de 2009 – pelo menos o melhor álbum pop -, e deram em Setembro do ano passado um concerto perfeito em Brooklyn no Union Pool, perfeito porque provavelmente não darão outro concerto assim, em que todas as partes estão na máxima força e o todo é bem maior que a soma delas (diz-se que o concerto em Portugal também não foi mau). Lá está, estavam no momento “quente”: o álbum havia saído há pouco tempo, recebido com críticas entusiastas. Agora, passados nove meses, a coisa parece estar a desintegrar-se. Tom Fleming, a voz mais grave do grupo, foi o único que não esteve em palco a verificar o som, para depois comparecer no concerto visivelmente alterado (no mínimo estava muito bêbado) numa pose de estrela que se coaduna mal com o restantes elementos da banda. O som esteve péssimo e o mais prejudicado foi Ben Little, o subtil e maravilhoso guitarrista dos Wild Beasts, o Johnny Marr desta geração e o elemento mais interessante da banda, mais interessante do que o falsetto de Hayden Thorpe e do que a precisão rítmica de Chris Talbot. Mais do que inferior ao concerto visto em Nova Iorque, este foi um mau concerto, que nem as excelentes canções salvaram. Espera-se que não seja um mau prenúncio do que aí vem. Seria uma grande pena.

De seguida, foi tempo de ocupar o lugar na linha da frente para o concerto dos Pavement e com isto perder mais uns quantos concertos. Mas são os Pavement, minha banda de eleição e que julgava nunca poder vir a ver (com esta onda de reuniões acho que já não resta nenhuma). Daí que não sinta remorsos por ter esperado uma hora junto ao palco. E felizmente não me desiludi.

As canções dos Pavement são tão ou mais frescas agora do que quando saíram – especialmente as da santíssima trindade do meio: “Crooked Rain, Crooked Rain”, “Wowee Zowee” e “Brighten the Corners”, mas os álbuns dos extremos (primeiro e último) também são muito bons – e em concerto são soberbas. Stephen Malkmus é um grande compositor e maior performer ainda. Daquelas pessoas que sem dificuldade chamam toda a atenção para si; e se a sua carreira a solo não tem sido tão bem sucedida, o seu nome tem sempre andando pelas bocas do mundo. Os outros Pavement precisam mais dele do que ele precisa dos Pavement, embora se lhe note alegria, escondida por entre amuos e gestos teatrais. Mas a reunião dos Pavement é de certo mais marcante para Scott Kannberg, o eterno número dois, que vive aquilo como se não houvesse amanhã e até se presta a um crowd-surfing no final. Bob Nastanovich, cuja importância só se percebe em concerto, é ao mesmo tempo hype man e multi-instrumentista, o homem dos refrães gritados, o lado mais lúdico da banda, que toda ela é lúdica. A marreca de Mark Ibold é menos prenunciada do que quando toca com os Sonic Youth e Steve West é o gajo gorducho e barbudo, o Seth Rogen que todas as bandas devem ter.

Os Pavement tocaram todos os clássicos – «Gold Soundz», «Cut your Hair», o genial «Shady Lane» e o histérico «Stereo», «Spit on a Stranger» e «We Dance» que até deu direito a uma dança – e outras canções mais complicadas (principalmente de “Wowee Zowee”), num concerto para fãs mais ferrenhos que também agrada aos outros. Tenho a certeza que se os Pavement lançassem um novo álbum seria óptimo. O talento de Stephen Malkmus floresce com os outros membros da banda e se fosse tão bom como “Terror Twilight” já teríamos o ano ganho (o ano em que saísse o álbum, que se espera próximo). Fica esclarecida a dúvida, os Pavement ainda são uma das melhores bandas do mundo.

O cansaço já não deixou ver os Fuck Buttons de perto. Em concerto não se desviam muito do que são em disco, o que quer dizer que são estupidamente bons – “Tarot Sport” é estupidamente bom – mas não acrescentam muito ao que já existe. Via-se cá do alto muita a gente a dançar ao som daquela música electrónica furiosa e bela. Uma banda que no máximo encheria o aquário da ZDB (vão ao Lux a 16 deste mês, a ver quantos vão) teve direito a muita gente a assistir, gente conhecedora ou em caso contrário interessada em conhecer. É também com público destes que se fazem festivais destes.

O festival multiplex

O Primavera Sound é um grande festival, grande em número de bandas (200? – não vou contar), grande em número de palcos (7), grande em número de pessoas que vão lá assistir (milhares e milhares – as suficientes para esgotar as pensões e hotéis de Barcelona). Chega a ser grande de mais. E implica muitas escolhas. Muitas escolhas difíceis: a dada altura estão a tocar os Wilco, os Les Savy Fav e o Panda Bear ao mesmo tempo. Fazia-se um bom festival só com estes três. É possível duas pessoas verem muitos concertos e não coincidirem em nenhum. São sete palcos, por Deus, são sete escolhas a cada momento. Muitas dores de cabeça e alguns remorsos. Não vi ou não pude ver: The XX, Tortoise, Broken Social Scene, Titus Andronicus, Spoon, Shellac, Low, Japandroids, Built to Spill, Van Dyke Parks, The Slits, The Field e mais não sei quantos. Se um gajo quer ver um pouco de tudo – o chamado zapping – acaba por não ver nada, se se quer muito ver uma coisa – e às vezes é preciso ir cedo para arranjar um bom lugar – perde-se umas três ou quatro.

E isto tem mais que a desvantagem óbvia – a de não se ver tudo o que se quer: implica que não se ver nada que não se quer ver. Isto pode parecer parvo, mas quantas vezes já não vimos nos nossos festivais de um só palco coisas que nos surpreenderam, que nos fizeram querer conhecer mais, para não falar de coisas que nos irritam e as quais temos de considerar para o bem e para o mal. Lembro-me de ter visto My Bloody Valentine no ano passado num festival em Nova Iorque (sei que o mesmo aconteceu em Portugal) em que metade do público se sentiu revoltado, humilhado, contestado por aquela música. (A mim aconteceu-me revoltar-me com os Tool, mas a ideia é a mesma.) E isso é bom. É bom haver um espaço de partilha, em que as noções de boa e má música se degladiam gerando novos conceitos, originando reapreciações. Isso não existe no Primavera Sound, é possível ir a tantos festivais diferentes dentro do festival, que só há reafirmação do próprio gosto e deixa de haver esse saudável conflito. Num mundo de segmentação do gosto, chega-se um pouco mais à frente.

Devo referir que retirei estes conceitos e ideias deste texto de Tom Ewing (ver link relacionado), um dos poucos críticos de música que ainda pensa nestas coisas e um dos melhores da Pitchfork. Se bem que no artigo ele esteja a falar de tops de vendas de singles e não em festivais vai dar ao mesmo.

O segundo dia

Desta vez chegámos mais cedo e mais cansados – fazer a Avinguda Diagonal até às Glòries na madrugada anterior não foi boa ideia.

Primeiro, um pouco de zapping: os finais dos concertos de Scout Niblet e de Thee Oh Sees. Scout Niblet parece frágil e vulnerável de guitarra em punho só com um baterista descalço a acompanhá-la. Mas tem garra, uma doçura zangada e boas canções descarnadas. Acabou na bateria a fazer com que o público algo endorminhado a seguisse em cânticos agrestes e absurdos. Pelos cinco minutos que vi deles, os Thee Oh Sees são interessantes naquela onda de guitarras rudes e estridentes.

De seguida, os Condo Fucks, ou melhor, os Yo la Tengo a fazerem versões sem muito sal, a fingirem que são uma banda de rock clássico dos anos 50. O resultado não é grande coisa, estão lá os jogos de vozes, a guitarra maníaca de Ira Kaplan, mas as canções ou as versões que delas fazem ficam a milhas dos originais dos YLT ou mesmo doutras versões que já fizeram. James McNew, o baixista, parece ter um papel mais relevante e as canções que canta são ainda assim as melhores. Uma experiência interessante, mas esquecível.

Agora Tim Harrington, vocalista dos Les Savy Fav, é um animal de palco. Não gosto muito da expressão, no entanto é a melhor maneira de o descrever. Como ele só o Iggy Pop dos tempos áureos. Tim é gordo, careca e barbudo, não devia ser uma estrela, não devia causar as tempestades que provoca. De resto, quem o vê passar na Bedford Avenue em Williamsburg ou o quem o viu respeitosamente a assistir ao concerto de Pavement diria que é um tipo calmo. E será, não sei, mas em palco como todos os bons performers transforma-se. Traz vestido um fato peludo não identificável – que despe rapidamente para ficar só com uns calçõezinhos mínimos – salta para o meio do público, cai no chão, fica-se por lá a cantar, levanta-se e foge para as bancadas onde continua. A banda lá vai tocando, mas não interessa muito. O que interessa é o gajo gordo e careca, que deixa o público – que o segue sempre com os olhos, que lhe tenta tocar – eufórico. Tim pede a onda nas bancadas com a sua voz de cana rachada (é engraçado, um gajo grande e gordo com voz de cana rachada) e consegue-o. Naquela noite, conseguiria tudo. Estranha-se que os Les Savy Fav e os seus hinos/cânticos «The Sweat Descends» e «Who Rocks the Party» não façam mais sucesso em Portugal. Estes são daqueles que se cá viessem uma vez, vinham mais três ou quatro.

Ver Les Savy Fav e depois os Pixies é como passar da noite para o dia. Esperar uma hora pelos Pixies (e não ver Shellac por exemplo) é um erro imperdoável. Os Pixies já não existem, são um museu de cera itinerante que tocam todas as músicas do best of “Death to the Pixies” quase sem tirar nem pôr. E já andam nisto há seis anos. Para quê? Charles Thompson ou Frank Black ou Black Francis ou qualquer outro jogo entre estes nomes não se poderia interessar menos por aquilo tudo – os Pixies são a sua chaga, a razão por que é conhecido e por que continua a gravar a solo, mas já não lhe diz nada, e talvez lhe dê algum nojo, nota-se-lhe alguma condescendência pelos fãs que gritam pelo «Where is my mind?», e até se engana na letra da canção, o que se percebe, mas por que não acabar com aquela fantochada? -, os outros também não, Kim Deal sorriu o tempo todo, o que eu atribuo a uma qualquer medicação para a maleita que não a deixou cantar. Nem o facto de terem tocado «Alec Eiffel», uma das suas melhores canções do injustamente subestimado último álbum “Trompe le Monde” escondeu o facto de que os Pixies estão velhos e gastos e nunca trarão nada de novo ao mundo. Aqui clama-se: Death to the Pixies.

Estava estragada a noite.

O festival à beira-mar plantado

O espaço – conhecido como Parc del Fòrum por ter sido criado para o Fórum Universal das Culturas em 2004 – que acolhe o Primavera Sound desde 2006 é deslumbrante. Junto ao mar, tem espaço para sete palcos, sem atropelos, todos com bancadas para se assistir aos concertos sentado: havia o San Miguel para as bandas maiores, o Ray Ban e o ATP para as médias e mais lá para o fundo o Vice com as pequenas. E ainda, o palco Pitchfork, com bandas escolhidas pela famosa publicação online. O Auditório, onde decorreram os concertos mais intimistas (mais uma expressão foleira), é uma obra prodigiosa da dupla de arquitectos suíços Herzog & de Meuron a fazer lembrar a portuense Casa da Música. A organização do festival é perfeita, muitas casas-de-banho, muitos balcões de cerveja, não se tem de esperar muito tempo nem por uma nem outra, mesmo quando há muita gente, e acreditem que sexta e sábado esteve muita gente. E a cereja em cima do bolo é que não levamos com quinhentas merdinhas das marcas patrocinadoras como acontece nos festivais portugueses e que acaba por ser contra-producente, basta terem o nome dos palcos e aparecerem nas fotografias dos concertos. É um descanso.

O público também merece um elogio: acorre a/enche todos os concertos, mesmo as propostas mais difíceis e diferentes, sempre com predisposição a conhecer. Não há palcos vazios, nunca. Também é engraçado ver os músicos em concertos de outras bandas – Tim Harrington sossegadíssimo nos Pavement e a irromper pelo palco a dançar nos Liquid Liquid – ou a passar por nós pelo festival. Eu vi o Steve West dos Pavement com um roadie a ir para um concerto, e ouvi falar de um James McNew muito bêbado no dia antes do concerto dos Condo Fucks.

O terceiro dia

No terceiro dia estávamos mais descansados e decididos a ver mais concertos. Assim fizemos. Mas chegámos atrasados a Roddy Frame, que acabava de perguntar se o público conhecia os Aztec Camera. Claro que sim, não era essa a razão por que ele estava ali, pelo álbum que gravou aos 19 anos – “High Land, Hard Rain” em 1983? Alguém conhece o resto da sua obra? Eu não e não é que não interesse, tenho a certeza que sim, Roddy Frame é um excelente compositor, mas aos 46 anos continua preso ao seu magnus opus que já tem quase trinta anos, do qual cantou algumas canções sozinho com a sua guitarra acústica no palco do Auditório. E ainda assim deu um dos grandes concertos do festival: «Oblivious», «Walk out the Winter» e «We Could Send Letters» são grandessíssimas canções e a sua guitarra que sempre deveu tanto ao flamenco deu-se bem por Espanha. A dada altura a luz projecta-se sobre ele e desenha a sombra de Elvis na parede. Fica-lhe bem. Com o outro escocês Edwyn Collins, Roddy Frame é um dos grandes heróis esquecidos da primeira metade da década de 80.

Os Grizzly Bear, por sua vez, não se dão bem com o ar livre. O seu som feito de detalhes leva-o o vento e as vozes dos espanhóis – o povo mais barulhento da história. Têm boas canções, quatro bons músicos que se ligam muito bem, mas são melhores em disco ou em sala. Mas pareciam contentes de estar ali e a sua música é da mais aventureira que passou por Barcelona, sempre a tentar conquistar novos territórios, se bem que de vez em quando lhes caia o pé para o chinelo do prog-rock. Mas não muito, os Grizzly Bear não são dessas desmesuras.

Espera-se pelos No Age no palco Pitchfork, alguém vai fazendo um castelo de copos de plástico para gáudio do público que se vai juntando aos poucos, que lhe dá mais uns copos para a sua construção e lhe vai tirando fotografias. Alguém menos atento bate na obra, fazendo cair uma das torres e o artista já farto acaba a demolição. Chega-se assim à hora do concerto. Os No Age são engraçados, fazem um som de que se gosta, próximo dos Dinosaur Jr. e dos My Bloody Valentine – para isso têm um teclista para fazer os sons que saem facilmente da guitarra de Kevin Shields. Mas sabem um bocado a requentado, uma banda nova que soa a velha. Também tiveram problemas de som – o palco Pitchfork teve o pior dos sons – o que não ajudou. O público, esse, saltou e pulou como se fosse 1986.

Falávamos há pouco de heróis esquecidos e o que são os Sunny Day Real Estate senão heróis esquecidos? Considerados os pais do emo, nunca haviam tocado antes na Europa. E merecem tocar muitas e muitas vezes. Não têm culpa da descendência que deixaram, a sua música é daquela soluça, que berra e amaina, que sussurra e explode, de uma precisão geométrica que lembra a matemática dos Slint. Os SDRE dão este concerto provavelmente pelo sucesso da reedição dos seus primeiros álbuns – “Diary” é um grande, grande álbum – mas não se ficam por aí. Não se ficam pela nostalgia. Tocam dos seus álbuns mais recentes e demonstram uma alegria imensa por estarem a actuar perante aquela multidão. Eles são os anti-Pixies e são bem mais relevantes que estes e bem mais merecedores de reavaliação. Deram um dos concertos do festival.

Ainda deu para dar um saltinho aos nova-iorquinos Liquid Liquid, banda no-wave do princípio dos anos 80, a quem James Murphy  deve muito (pelo menos o som dos LCD Soundsystem). Deu para dançar aquele som seco – apesar do nome – feito de batuques e muita cowbell (aí está uma banda que não precisa de mais cowbell). Acabaram com «Optimo» e Tim Harrington a dançar no palco. Já não deu foi para ouvir «Cavern», o que é pena.

A seguir, uns cheirinhos de Pet Shop Boys e Lee “Scratch” Perry. Os primeiros a revisitarem os seus famosos singles – ainda deu para ouvir «Always on my Mind» – com o habitual espectáculo cénico – desta vez tinha a ver com cubos, digamos que era cubista – que esconde a nudez de um palco com um gajo a cantar e outro nas teclas. Tive pena de não ver mais, mas são as escolhas, à altura que chegámos lá já não dava quase para ver o palco e resolvemos ir ver o velho “Scratch” Perry com as sua Babylons e Zions e quinquilharias do género. Até gosto de dub, mas não há paciência para aquela filosofia retrógrada. Valha-nos os seus seguidores que souberem extrair a música e não a conversa. Fica a dúvida se aquele era realmente o Lee Perry, parecia muito ágil e àquela distância bem podia ser um sósia.

Ben Frost àquela hora, já seriam umas duas da manhã, é assustador. Electrónica entrecortada com reverberações de guitarra a imitar os nossos piores pesadelos de uma maneira prazeirosa é um ponto difícil de atingir, mas Ben Frost consegue-o levando-nos numa viagem que tem algo de contos-de-fadas contadas a crianças antes de dormir. O concerto estava a ser muito bom, só não ficámos até ao fim pelos HEALTH. Os HEALTH que encerraram o nosso festival da melhor maneira, a sua música é impressionante: doce e violenta, faz-nos perder num torpor sonolento para nos acordar visceralmente para a porrada que se aproxima, que nos rodeia, que nos incita, de que fazemos, finalmente, parte. Uma banda que seria prometedora se já não tivesse justificado a sua existência com “GET COLOR”, o melhor álbum do ano passado (olha outro). Como é que estes putos conseguem? Uma das grandes bandas da actualidade.

A nostalgia pós-Last.fm e últimas considerações

Isto tudo é muito bonito, o Primavera Sound é muito bom, mas se formos a ver bem, perpetua a nostalgia que reina sobre todos nesta época. Mais de metade dos nomes do festival são de bandas pós-punk do princípio dos anos 80 ou do rock distorcido da segunda metade da década (algumas coisas, poucas, dos anos 90) ou que praticam a sonoridade com as devidas vénias aos seus ídolos. O cartaz do festival faz lembrar a canção dos LCD «Losing my Edge», tal é o desejo de mostrar um conhecimento profundo da história da música popular nos últimos trinta anos e a fuçanguice de não querer perder o comboio – qualquer banda que tenha uma referência positiva na Pitchfork tem direito a ir ao Primavera Sound. Substitui-se uns deuses por outros, não são os Pearl Jam, são os Pixies, não são os Gogol Bordello, são os Wilco. Para o panorama português seria uma lufada de ar fresco, mas parece estar a cristalizar-se e a tornar-se mais uma instituição, que dará azo a uma decrescente criatividade musical. Influências sempre as houve, mas grande parte das bandas, as mais novas, não consegue ou não quer ultrapassá-las, preferindo ser bons copistas. E dar-se tanta relevância a bandas passadas – por muitas boas que sejam, por muita importância que tenham – não é salutar.

O fenómeno passa para o público, que com a Internet e o acesso fácil a toda a música que passou, parece querer reviver uma época que nunca viveu. Só assim se explica os moshs e os crowd surfings insistentes quando alguma música é mais acelerada. É como um tique, um reflexo condicionado, que não tem grande cabimento às vezes e se faz para se fazer parte de mundo que ficou lá atrás e não vai voltar, por muito que puxemos por ele. Esta é a geração pós-Last.fm que sabe tudo sobre música, que sabe como se fazia na altura, que tem um gosto impecável, uma sabedoria irrepreensível, mas que o mais das vezes é estéril. Talvez seja da segmentação de que Tom Ewing fala no seu artigo. É necessário o conflito de ideias para que se avance, se não fica tudo demasiado morno, estanque, morto. Mas a música tem uma capacidade imensa de se reinventar (já que não dá para se inventar) e a possibilidade de uma surpresa nos aguardar amanhã não é pequena.

Por fim fica a pergunta inevitável: porque é que os espanhóis teimam em usar mullets?



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