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Primeiros Sintomas no Negócio

Fomos ver Lindos Dias.

Lindos Dias, Hedda Gabler e Menina Júlia sobem ao palco em 2009 pela mão de Bruno Bravo, encenador e fundador da Primeiros Sintomas. Ao todo 3 narrativas que recriam uma nova entidade à viragem do séc. XX. Fomos ver Lindos Dias. No Negócio.

Um dia sem vida no qual o tempo teima em passar apresenta-nos Winnie – mulher na casa dos cinquenta – lentamente engolida pela terra e impossibilitada de se deslocar, unicamente ao alcance da sua mala, onde remexe ocasionalmente alguns objectos do quotidiano que servem de base à construção de uma narrativa fragmentada por acesso à memória dos velhos tempos. Por de trás, mal visível pelo público (e pelos seus sonhos também) está Willie, marido apático e adormecido, com o qual troca esporadicamente algumas frases (monossílabos) com o intuito de se certificar que não se encontra (já) sózinha.

Nesta dramaturgia, todos os objectos transportam o espectador para a luta dia-após-dia, hora-após-hora, contra uma vida não vivida, preenchida apenas por rituais de significado há muito esquecido num contínuo sem fim, até que a morte, por vezes desejada, por fim chegue. Um espelho que reflecte memórias já adulteradas de tanto revisitadas, uma canção que tarda em chegar e um revólver que vaticina uma libertação tardia.

Mais um lindo dia. Suspiros recorrentes que imploram por certezas prometidas mas nunca efectivamente vividas e muito menos sentidas dão tom a esta peça genial (e genialmente interpretada) que traduz um sentimento generalizado oprimido na sociedade governada por um Homem que, durante demasiado tempo, teve mais certezas que dúvidas, e nunca teve a coragem de valorizar a componente emocional enraizada em si.

As muitas dúvidas levantadas neste discurso desregrado são urgentemente subvertidas e condicionadas por um subconsciente acanhado que remete para instância divina a compreensão e o significado da vida. A mim cabe-me existir. O direito à felicidade é neste registo acompanhado por um proibicionismo exacerbado cuja contra-ordenação resultará em última análise em pena capital.

O teatro do absurdo, no qual a peça escrita por Samuel Beckett se insere (Happy Days), surge no contexto da crise existencial e de valores vivida no pós-guerra da segunda Grande Guerra, tendo por base o surrealismo, evidenciando a falência do Homem em todos os seus domínios de actuação. Religião, política e ciência. Esta peça é, posto assim, dotada de uma implacável actualidade à viragem do séc. XX, num mundo a cada dia mais material. Serenamente assistimos ao distanciamento do ser humano ao seu semelhante a troco de um punhado de tempo mal desperdiçado por entre a desconfiança diária, tornando-se urgente uma reflexão crua de preconceitos com fim ao recentramento colectivo por introspecção individual.

As peças que se seguem, Hedda Gabler, de Henrik Ibsen e Menina Júlia, de August Strindberg retomam a temática e ajudam a recriar um personagem mais humano. A não perder. No Negócio.



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