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Prodígios

Imagine-se um tema de tamanha densidade emocional e maturidade a ser composto por uma criança de 15 anos.

O mais claro exemplo é o de um rapaz nascido em 1973, no seio de uma família profundamente musical, que em 1990 editava um clássico que é hoje – e a par de muito poucos – uma referência obrigatória na colecção de qualquer DJ que se preze. O seu nome era Ron Trent, e o tema “Altered States” saía no disco “The Afterlife” pela Warehouse do desde há muito falecido Armando (um dos pioneiros da cena Acid de Chicago). Se o disco saiu em 1990, ele foi, nas palavras do próprio, composto e produzido alguns anos antes.

Imagine-se um tema de tamanha densidade emocional e maturidade a ser composto por uma criança de 15 anos. Uma das perguntas que me surge (no seguimento de discussões em torno da maturidade emocional como motor criativo na composição de canções – e nem se quer se está a falar de canções), é onde é que esta criança foi descobrir em si a crueza e capacidade de síntese para conceber melodias de tal forma complementares e emocionalmente desconcertantes?

Recentemente, podemo-nos reportar a um outro afro-americano, originário de uma outra cidade “vizinha” (Detroit, obviamente) que de forma análoga reflecte a riqueza da história musical da sua raça sob texturas quaternárias, tecendo linhas de Rhodes dóceis, baterias acústicas sob caixas de ritmos analógicas e samples de soul dispersas em câmaras de reverberação. O seu nome é Kyle Hall, e aos 17 já editou discos pela FXHE (de Omar S), pela Moods & Grooves de Mike Grant e pela sua Wild Oats. Coisa de bradar ao céu! Ainda mais prolífico que o primeiro.

Ainda comparável, em Londres, o já famoso Skream (primeiro album terminado antes dos 20 anos), ou o algo sobre-avaliado Rustie, também no início da sua vida adulta, revelam o quão fresco e jovem é este mais recente advento rítmico chamado vagamente de dubstep. Contudo, este ano, no Sónar, actuou um outro Londrino, Wbeeza, que celebrou este ano o 20º aniversário, veja-se quão sólida e coesa a sua produção no seu myspace. Como DJ é já convidado frequente nas muito concorridas Secretsundaze Parties, todos os domingos. É o artista mais recente da já estabelecida Third Ear, editora japonesa responsável pelo lançamento de vários momentos de relevo na história do house recente (como a remistura de Carl Craig para o tema “Falling Up”).

Em Portugal temos também um motivo de orgulho. Detentor de um invulgar primeiro nome (Oliveiros), este caldense detém uma pole position incontestada na produção musical portuguesa. Falo do omnipresente DJ Ride, com tenros 23 anitos, já venceu uma mão cheia de campeonatos de turntablism nacionais e não só, editou dois albuns, actua país fora com um quarteto de Jazz, colaborou por vezes incontáveis com músicos diversos e até já mereceu menção no Jornal da Noite. É das coisa mais próxima que temos de um menino-prodígio.

Paralelamente, no improvável cenário a sul do Tejo (por entre os milionários negócios do Hacienda Klub e a classe inegável dos Body Talk – duo de DJ culturistas que rasgam as camisolas a meio do set e actuam de tronco nu), também encontramos dois rapazolas já mais ou menos (re)conhecidos na noite lisboeta. Marco e Miguel ainda com 21 ou 22 anitos, já faziam maxis para editoras conceituadas fora de Portugal, sob o disfarce “Photonz”.

Nem por isso tiveram a merecida atenção nesta altura, que só neste momento começa a tornar-se inegável. Caso para dizer, água mole em pedra dura… ou música dura em ouvido mole… qualquer coisa do estilo. A Norte ainda mais exemplos… e para não me acusarem de ser xenófobo, falo-vos do jovem Jorge Caiado, da Póvoa do Varzim, que fez recentemente 20 anitos – e embora não tenha ainda atingido um ponto de internacionalização visível, é certamente um nome a ter debaixo de olho (pelo menos no universo do house, para já).

Mas há vários factores que determinam a ascenção eventualmente prematura de um artista. Como muitas coisas, as variáveis envolvidas são frequentemente aleatórias ou um concerto de factores felizes que agem como motor de um impulso irreprodutível. Nos casos dos estrangeiros, tanto Kyle como Ron nasceram num ambiente muito propício: pais eram músicos, o acesso a equipamento era imediato, e toda a infância passada a consumir e sonhar com música. Mas Wbeeza é já, aparentemente, fruto das imensas facilidades da Internet… a música toda que se pode ouvir na íntegra (Last.fm, ou até no Youtube), fóruns de discussão sobre discos raros e história de música, DJ mixes online disponíveis para download imediato, VST’s e DSP’s pirateados (software de criação sonora e musical) com link para download por rapidshare em centenas de blogue… com todos estes adventos e mais alguns, torna-se simples que a um jovem sentado à frente de um monitor seja acessível mais do que a simples curiosidade de conhecer o processo criativo da música que gosta.

Na actualidade, diria eu, estabeleceram-se condições necessárias ao desenvolvimento deste tipo de fenómenos. A distância entre imaginar e concretizar é cada vez menor, e sobra apenas a questão da validade.

De tal forma que o mero acto de reproduzir a música de outros (sem dar o edge pessoal) perdeu imensamente o seu valor artístico, dada a sua banalidade corrente. A menos que um DJ coleccione vinil, ou de outra forma, utilize um método tecnologicamente único, a sua probabilidade de fazer vida dessa forma é diminuta.

A liberalização da música, torna o processo de procura e descoberta em algo frio e disperso, com pouca ou nenhuma orientação e triagem… e é possível que por falta do desenvolver de um sentido crítico ou de um sentido de validade artística, muitos dos possíveis prodígios nunca venham a ser devidamente valorizados, por não se conseguirem destacar da mediocridade das normas musicais standartizadas pelos status quo, frequentemente injustificados e inconsequentes, que os “crescidos” determinam nos seus pódios mediáticos.

No caso dos artistas referidos, felizmente isso não aconteceu. Ao consultar a bio de qualquer um deles, vemos que houve sempre uma feliz ocorrência: alguém deu por conta de uma fonte de talento que merecia uma ocasião para se expressar, e deu a orientação e a viabilidade processual necessárias.

Pela minha experiência, e tendo tido também eu um início de carreira prematuro, posso falar um pouco mais sobre as diferenças reais entre as dificuldades de há 10 anos (quando eu tinha 17) que separavam um jovem artista dos seus objectivos, e as de hoje em dia. Quando comecei a querer dar a minha música a ouvir, a descrença pela minha idade era de tal forma normativa, que eu raramente tinha resposta das demos que enviava e só aos 18 anos consegui editar um tema (estava a tentar desde há 5 anos), o equipamento necessário era caríssimo e a formação requerida para saber mexer nele era ainda mais difícil de aceder. Não havia youtube, nem cursos de produção, e era muito complicado encontrar quem me instruísse sobre produção musical. Foi apenas por aí que descobri como a frustração e a teimosia são também sinais de uma vontade de nos fazermos ouvir, e que se o mundo não nos estende a mão, temos de ser nós a fazer por isso.

Eu diria que com todas as dificuldades de há 10 anos (supra-mencionadas) ultrapassadas no presente, a maior dificuldade prende-se novamente no combater da indistinção e vitória sobre a possibilidade cada vez maior de um jovem artista se perder, anónimamente, num mar de pessoas que pretendem a mesma coisa que ele. É engraçado como tudo é cíclico. Se há 10 anos achavam que eu era demasiado novo para procurar uma carreira, e por isso tive de lutar tanto por um mínimo de destaque, hoje em dia ninguém é demasiado novo, mas tem de ser suficientemente bom no que faz (e ao mesmo tempo convicto) para sobressaír do meio de uma multidão que tem a mesma facilidade de acesso ao conhecimento e às ferramentas.

Nem todos os artistas têm a felicidade de serem descobertos cedo nas suas carreiras, mas gostava de dizer (nem que seja para bem do meu desabafo), que acredito que mais cedo ou mais tarde, o reconhecimento vem a quem se esforça… e pode demorar muito tempo (veja-se o mais recente caso de histeria em massa, Tony Lionni pela Ostgut, que fez o hit “Found a Place” e ganhou reconhecimento aos 37 anos, depois de 20 anos a trabalhar na área).

Embora seja impressionante ouvir espíritos tão novos a criarem obras tão maduras, a validade de uma obra destaca-se da idade, ou da condição de quem a cria. É apenas preciso ter os ouvidos atentos a quem está a começar, mas também a quem já começou há muito e ainda está a descobrir-se. Não há um método científico para a arte, e quem é novo mas quer entrar no mundo dos graúdos não deve ter um estado de graça só por ser mais novo, mas por ser bom naquilo que faz. Porque só por aí se pode realmente dar valor ao génio de quem, sendo jovem, mostra ser comparável aos pares.

Com isto concluo, pedindo desculpa a quem não referi – especialmente aos mais jovens e criativos artistas lusos, que todos os anos conheço através do meu trabalho na Red Bull Music Academy e não só – já que só me ocorreram inicialmente os nomes mais evidentes. Talvez eu próprio, por essa omissão, seja criticável pelo necessário escrutínio de escolher a quem mencionar…



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