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Projecto Chão

Redescobrindo Lisboa dentro das suas carcaças. No edifício 18 da Rua da Trindade.

Quando se trata da produção de um evento cultural, a primeira questão fundamental é a escolha do espaço onde terá lugar. Reflicta-se. Qualquer um de nós, enquanto público, para além de saber ao que vai, pretende, no momento selectivo da decisão de investir ou não algum do seu tempo e dinheiro, saber “onde vai”.

Uma actuação dos Chemical Brothers é sempre uma actuação dos Chemical Brothers, mas se a mesma acontecer na estação do Rossio, então é algo mais que uma simples actuação dos Chemical Brothers. É um exemplo perfeito de como o espaço pode surpreendentemente jogar a favor de um evento.

Note-se que o conteúdo do evento em si se deteriora radicalmente, dadas as tremendas condições acústicas de um espaço como uma grande fábrica vazia, uma igreja ou… uma estação de comboios! No entanto, qualquer Lisboeta que tenha assistido ao evento recorda-o como um dos melhores concertos de sempre, tendo já esquecido o concerto dos Scissor Sisters a que assistiu apenas dois meses antes.

Atravessar o Verão Lisboeta percorrendo os jardins da cidade em lânguidas tardes domingueiras ao som de “jazz com dj” é outro exemplo de uma simples ideia transformada num evento de especial sucesso e que tem garantido a repetição do Pleno Out Jazz Festival nos últimos anos na nossa cidade. Já encontrar exemplos de insucesso é missão mais complicada pois, por definição, estão condenados ao esquecimento. Mas ainda assim não é difícil recordarmo-nos de quantos bares e discotecas, ainda que assegurando uma programação musical tão boa ou melhor que a proposta durante o período invernal, vêm os seus esforços esvaídos numa casa vazia durante as noites de Verão. O que levaria a reflectir sobre as oportunidades criadas, se espaços nocturnos fechados e espaços ao ar livre unissem esforços criando parcerias entre si.

Pense-se na zona fluvial Lisboeta de Santa Apolónia ao Bairro-Alto esticada ainda até Santos transferindo-se nos meses calientes para as linhas costeiras de Belém a Cascais e Margem Sul do Tejo, num contexto de coerência em termos de qualidade da programação musical oferecida. Dito de forma mais simples aqui entre nós. Se tantos dos bares e discotecas do Bairro e Cais-do-Sodré se acasalassem com os locais daquela linha que do Cais leva até Belém, poderíamos no Verão passar as noites à beira-rio sem necessariamente sermos submetidos a programações musicais de escolha duvidosa.

Como aliás se faz em grande parte das grandes metrópoles urbanas europeias, em que as mais bem sucedidas discotecas se associam a espaços abertos para onde no Verão transferem as suas programações e conceitos estéticos. Mas deixemos para já de lado estas considerações sobre o mundo e o business dos clubs nocturnos. Em moldes naturalmente diferentes, estas mesmas considerações podem ser tiradas no domínio das outras disciplinas artísticas para além da música. Por exemplo, numa exposição no âmbito das artes plásticas, na qual questões técnicas ligadas somente à iluminação do espaço podem comprometer o sucesso do evento independentemente da qualidade artística do seu conteúdo: as obras expostas. O local do evento é portanto uma faca de dois gumes. Tanto pode assegurar, como arruinar o sucesso de um evento cultural, a prescindir da disciplina artística envolvida. A prescindir na verdade do conteúdo artístico e/ou cultural do evento em si.

No projecto “Chão”, o centro das atenções é precisamente o espaço do evento. Mais, o espaço é a razão do evento. Após a primeira iniciativa em Setembro passado nos edifícios da Lx Factory, o Chão ocupa agora o edifício 18 da Rua da Trindade, em tempos integrado na área do Convento da Trindade.

A velha fábrica de Alcântara serviu de palco a um conjunto de projectos musicais experimentais onde os interiores desgastados e as velhas estruturas do complexo protagonizaram de forma inédita o palco criativo das ideias, através da exploração das particularidades acústicas (de impossível replicação virtual) do mesmo.

O percurso arquitectónico e histórico do número 18 da Rua da Trindade é tão rico quanto longo. O projecto Chão propõe-se agora a explorar os quase 700 anos de história do edifício, com um conjunto de iniciativas multidisciplinares focalizadas no espaço em si e na sua história. Debates no âmbito da arquitectura, oficinas de desenho, arte urbana e, claro, divagações sonoras com fartura desde o puro experimentalismo sónico, aos mares do free jazz, até à arte de “fazer música com um leitor de música” chamada gira-disquismo. E quem sabe mesmo dançar às portas do convento. Ou seja, uma verdadeira festa, não NO mas AO Espaço.

A iniciativa tem potencial e o programa promete. Resta senão que, desfrutando de uma veia questionadora que nada faria prever que de mim se apoderasse esta manhã, deixar um último ponto de reflexão. Não é fácil compreender porque seja a ocupação de espaços urbanos, por alguma razão ou segundo algum critério tidos como devolutos, uma acção social ainda com tão reduzida expressão na cidade de Lisboa. Não quando a oferta de espaços abandonados com condições perfeitamente regulares para o seu aproveitamento mais do que abunda. Quando as razões para uma procura expansiva desses mesmos espaços se agregam pelo somatório de ideias e potenciais projectos para esse mesmo aproveitamento. E quando a sugestão deste aproveitamento não é de todo aquela ideia ultra-radical-utópica e simplesmente se trata de fazer algo certo, como está mais que demonstrado por toda a Europa fora onde a bem sucedida prática de “ocupação artístico-cultural de espaços devolutos” não é novidade e envolve universos tão díspares como a arte sacra e o mundo da moda e do design, muitas vezes todos num só. Ganharia o público, os proprietários, a cultura e até, porque enfim é de isso que falamos, os próprios espaços.

Mas… já temos todos idade e juízo suficiente para saber que o mundo se move, por vezes, por “estranhas forças ocultas” que ao pequeno comum mortal se fazem sempre verdadeiramente ocultas.



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