Projecto de Execução @ Negócio

Um refogado de afectos no Bairro Alto.

O feminino invadiu os palcos no ano que passou. Estórias dispersas, reuniões de famílias forçadas, crónicas de balcão, divórcios e outras guerras afectivas, deram o mote para se trazer à colação o mundo feminino. Estórias de mulheres contadas por mulheres foi o grande hit teatral de 2005.

Começar o ano novo com uma peça que põe em cena três mulheres leva-nos imediatamente a colocar a questão: “mais do mesmo?”

A magia da Arte não está somente na estória que se conta (quando se conta uma estória), mas essencialmente na forma como esta se conta, como nos é apresentada, como nos é proposta e em que moldes se cozinha. A cozinha é aliás o cenário escolhido pela Mala Voadora na peça “Projecto de Execução” em cena no Negócio, um espaço novo da Galeria ZdB.

Três mulheres na cozinha. Do que falam quando projectam executar?

Os mitos em torno do que as mulheres falam sem a ameaça da presença de um indiscreto ouvido masculino têm dado lugar desde a romances, como a apostas entre amigos, mais desconhecedores das “confidências” femininas.

Afinal, do que é que elas falam quando estão juntas? De moda? Da cozinha? Deles? Umas das outras?

A resposta é: de tudo isso, de nada disso, e intercalando isso com aquilo. Como num refogado, onde os temperos se misturam para apurar, as suas palavras cruzam-se desconexas, próprias de quem sabe que o sal e pimenta q.b. são resultados aleatórios da soma que resulta o bom gosto. As conversas fluem, com a cadência própria de uma anarquia própria da ordem das sensações, das preocupações, das partilhas.

Mas, antes de tudo, há o silêncio; ou melhor, a ausência de conversas. Há uma coreografia de preparação, de ritmos de olhares e sorrisos, da dança destas personagens no espaço da cozinha e no espaço da sua amizade. Estão lá as idiossincrasias, as ligações, os sorrisos quotidianos, as angústias, o cumprir o compasso da preparação da refeição. Tudo nos é dado por luzes, por movimento, por cor, por sons, pelo cheiro da comida que se prepara.

Eis que depois nos é dado o texto propriamente dito. O apetite é-nos aguçado e, depois de nos enfeitiçarmos nos cheiros e em todas as sensações, estamos ávidos de texto, de palavras, de diálogos, de conversa, de confidências.

O texto que nos é oferecido pelas três actrizes, com um cenário branco por trás, sentadas, permite-nos concentrar apenas e só nas palavras. E aqui reside a singularidade e beleza desta peça: o texto é-nos dado depois das acções, dos gestos, das movimentações. Como que podemos nós, espectador, confeccionar o nosso próprio refogado, a nossa própria refeição teatral. O encenador dá-nos os ingredientes para podermos juntar e aplicarmos as imagens às palavras que ouvimos naquele momento as personagens dizerem.

A beleza e singularidade desta peça residem ainda na autenticidade do texto que me pareceu tão real e quotidiano, o que me fez suspeitar que teriam sido as actrizes a gravarem um verdadeiro jantar e a transpô-lo para cena. Informação que foi corroborada pelo encenador que nos explicou que as actrizes gravaram três jantares, o que originou umas quantas horas de texto que depois foi recortado e readaptado e que resultou naquele “cozinhado” final. Confessou-nos ainda o encenador que seria incapaz de criar um texto daqueles por desconhecer esse mundo feminino.

A beleza e a singularidade desta peça estão na sua originalidade, mas essencialmente no seu cheiro a real, desde o cozinhado à relação das três mulheres em cena, desde os movimentos próprios da gastronomia aos gestos típicos da amizade. A beleza e singularidade desta peça estão na liberdade e, ao mesmo tempo, no desafio que lança aos espectadores, de cozinharem a sua estória, de temperarem com imaginação e criatividade q.b. Sorrisos e empatias a gosto.



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