“Psicose” | Miguel Costa Ferreira e João Sequeira

“Psicose” | Miguel Costa Ferreira e João Sequeira

Tudo em “Psicose” é uma incógnita: não só o espaço e o tempo, como também o próprio narrador

Editado no final do ano passado pela El Pep, “Psicose” é um livro de Miguel Costa Ferreira (argumento) e João Sequeira (desenho) que reúne as colaborações entre esta dupla que se conheceu na célebre Tertúlia de BD de Lisboa de Geraldes Lino.

Em “Psicose”, a história que dá título ao livro, visitamos o que parece ser um hospício, para seguirmos o narrador – um dos pacientes – na sua procura pela liberdade após um momento de aparente consciência. Consciência, essa, que chega ao ponto de o fazer questionar a sua própria loucura.

Tudo em “Psicose” é uma incógnita: não só o espaço e o tempo, como também o próprio narrador – inclusive a sua psicose ou sanidade. Será o narrador mesmo louco porque, simplesmente, a visão que tem do mundo é diferente da dos outros? Será que aqueles cuja percepção da realidade difere drasticamente da maioria são automaticamente doidos? Ou será que estão apenas num outro patamar de sanidade, num outro extremo? Os julgamentos, esses, os autores deixaram ao critério de cada um.

O aspecto mais interessante da história, e aquele que a destaca entre as demais, é o trabalho gráfico de Sequeira, que a partir da cor negra utiliza uma série de técnicas que resultam num produto final não só lúgubre e sujo – por vezes a relembrar o “Diário de K” de Filipe Abranches -, como também disfuncional e psicótico. De salientar a secção de material extra, no final do livro, com esboços de “Psicose” que revelam um pouco do funcionamento do processo de criação de João Sequeira.

Além da história principal, podemos contar ainda com mais três curtas: “Républica”, “Movimento Perpétuo” e “The Road”, todas desenhadas por Sequeira exclusivamente a negro, tal como em “Psicose”.

“Républica” prima pelo seu argumento inteligente e irónico; em poucas páginas se mostra como o mundo continua a girar enquanto o Homem será sempre o Homem. Não é de admirar que tenha vencido o 1º prémio (escalão A+) no festival “Amadora BD”, em 2010. Já “Movimento Perpétuo” e “The Road” são, tal como “Psicose”, histórias menos sóbrias e mais surrealistas. Na primeira – vencedora do 1º prémio (escalão B) no festival Moura BD 2011 -, os autores voltam a abordar a percepção da realidade, enquanto em “The Road” (escrita em Inglês) focam que o mundo pode mudar e todos nós com ele, mas a estrada, esse caminho a percorrer, está sempre lá à nossa espera.

A edição em si é deveras curiosa. Por dentro tem um ar muito artesanal e pessoal, como se das páginas originais se tratassem – foi legendada à mão; por fora, a escolha da capa dura e da lombada demonstram um certo brio, uma certa preocupação em querer distingui-la numa qualquer livraria ou estante pessoal.

Edição: El Pep Editora



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