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O ruído e a música

Debates em obra com moderação de Tiago Pereira na Baixa-Chiado PT Bluestation. Dia 10 de Dezembro com David Santos, Vitor Rua e Carlos Alberto Augusto

Tiago Pereira, visualista e arquivista da MPAGDP, iniciou este debate com o seu próprio dilema técnico enquanto realizador: “Quando se está a gravar uma música e se ouve o som de um cão a ladrar ou de um sino de igreja a tocar, será que devemos parar essa gravação ou inseri-lo naquilo que estamos a gravar? Se queremos gravar uma paisagem sonora com os seus protagonistas dentro dela, como definir som de ruído? Decidi convidar estas três pessoas, David Santos, um jovem músico que trabalha e incorpora sonoridades estranhas no seu trabalho, Vitor Rua, músico que tem desenvolvido pesquisa na área do ruído dentro da música, e Carlos Alberto Augusto, músico que trabalhou com o ministério do ambiente no controlo de poluição sonora, para discutirem isso mesmo: o que é o ruído e o que é a música?”

David Santos começou por dizer que “quando se grava um disco em estúdio é diferente de estar a gravar ou a tocar ao vivo. Eu costumo gravar em casa e tenho um cão que, quando estou em gravações e sempre que eu toco a guitarra, ladra. Então decidi assumir que o cão fazia parte do disco, para não estar sempre a parar a gravação de uma faixa. Neste disco, o cão está lá como parte integrante da minha música.”

Vitor Rua falou do exemplo da gravação interrompida pelo som do cão a ladrar, e da pertinência ou não da utilização dos som ambiente: “Depende das músicas e dos músicos. Em todo o mundo os músicos têm os seus próprios sons ambientes e não pedem para colocar isso depois da gravação. Em África deve-se ouvir os elefantes na selva, e na Antártida os pinguins no gelo. Mas afinal o que é o ruído para a ciência da acústica? O que é o ruído na vida normal? O que significa? No sentido vulgar, ruído é depreciativo. O que a acústica diz é que há som e ruído, mas diz também, no dicionário, que o ruído é um som aperiódico, que não tem uma nota específica. Mencionam, como exemplo, o som de um motor de uma mota ou de um carro ou de um avião como ruídos. Mas como estes sons são sons periódicos, cria-se a confusão.”

Carlos Alberto Augusto afirmou que “convém saber o que é música e o que é ruído. A noção de ruído tem antecedentes históricos. Porque é que os músicos se interessam sobre o ruído? Nós não temos preconceitos, mas há música e há ruído, há ruído na música e música no ruído, mas são duas realidades em pólos opostos que têm valor por si. Ruído sempre houve. Na Roma Antiga, Júlio César mandou pôr palha nas ruas junto do palácio para abafar as rodas das carroças que por ali poderiam passar. Da mesma maneira que se faz arte com lixo reciclado, ou mesmo uma orquestra inteira com instrumentos feitos de lixo reciclado, pode-se fazer música com ruído. Mas que ruído é esse de que os músicos falam? Das estruturas musicais da idade média até ao sub-grupo do ruído como área musical, quem faz a cisão com o conceito de ruído é o compositor e visionário norte-americano John Cage. É John Cage que o liberta. E o ruído de que estamos hoje aqui a falar é o ruído segundo John Cage.”

Para David Santos, se uma gravação decorrer na rua, quanto mais som ambiente houver, melhor. Se o ruído é uma coisa que te incomoda é uma coisa que não deves fazer. Os novos estúdios construídos de raiz já têm a preocupação de ter um som que os distinga. Seja por estarem perto de uma estação de comboios ou no meio de uma floresta, precisam de ter um som ambiente que os distinga e identifique.

Tiago Pereira, ao longo do debate, foi reforçando as suas perguntas: “Se o mundo é um palco, o que é um ruído parasita? Como é que o podemos usar a nosso favor? Mas o que é ruído, qual é a sua definição? Se vivemos num mundo ruidoso porque é que não aplicamos ruídos na música?

Vítor Rua continuou a dar exemplos vários da confusão actual nas definições entre ruído e música: “a definição de silêncio no dicionário é a ausência de ruído. Se estiver um amigo meu a tocar Beethoven num cravo às duas da manhã na minha casa, como é música e não é ruído, estamos em os dois em silêncio. As definições estão confusas e erradas. O silêncio e o ruído são ambos tipos de escuta, mas que são também por sua vez estados audíveis. Se estiverem duas pessoas na mesma paisagem sonora encostados um ao outro, num campo por exemplo, o que for da cidade chama-lhe silêncio e o outro, habituado ao campo, chamará ruído aos pequenos sons da natureza que consegue distinguir. Nesse sentido, a palavra portuguesa barulho é muito mais correcta do que ruído que é uma definição muito mais confusa.”

“No tempo de Wagner o piano era um instrumento que se tocava muito baixinho, no momento em Wagner tocou piano para uma condessa ouvir uma ópera, que ele estava a preparar, ela desmaiou por causa do ruído ensurtecedor. Já para John Cage era musicalmente mais importante ouvir os sons da 5ª Avenida do que ouvir uma ópera lírica num Teatro. O nosso sistema auditivo tem a possibilidade de criar silêncio para não ouvirmos o nosso coração a bater ou os nossos pulmões a respirar. Até há máquinas para produzir silêncio.”

Segundo Carlos Alberto Augusto, o conceito de ruído é volátil, mas o conceito de música também. O som de natureza não é musical. Há música que antes era ruído para quem a experimentava, noutras épocas. Mesmo Beethoven ou Debussy ouvidos em headphones também podem provocar surdez. O ouvido está a sempre a ser destruído pelo ruído, e a surdez é a primeira doença profissional deste País. O aumento de surdez nas camadas mais jovens é medonho, e isso nada tem a ver com conceitos estéticos ou musicais. Um som a dois centímetros e meio do tímpano pode rebentar com a audição de qualquer um.

Para Vítor Rua, “… a renovação da teoria do som vai virar o mundo de pernas para o ar. Mesmo a ideia das ondas de som é questionada, o som apenas existe na fonte sonora, o que se move até nós é a informação sobre esse som. O som está onde é produzido e só aí existe. Quando se ouve um som não se cataloga o som mas a informação que ele transporta. O som de um cão nunca é descrito pela nota em que foi emitido, mas por aquilo que nos parece ser. Há pessoas que defendem que o som é do tipo objecto e não do tipo evento.”

Aqui Carlos Alberto Augusto passou uma peça musical de um autor canadiado feita à base de sons da estação de Copenhaga na Dinamarca, para mostrar a influência do ambiente sonoro na música, que para quem aqui passa nem percebe que está a ouvir um trecho de uma música.

“A moda das gravações na música clássica, por exemplo, aposta cada vez mais em gravações em ambientes informais que não são estúdios. Cada vez mais temos música gravada com passarinhos por trás.”

“Diz que John Cage se fechou numa câmara isolada que absorvia totalmente os sons, durante um curto período de tempo. Fechou-se nessa câmara para ouvir nada e passados 30 minutos começou a ouvir um som muito agudo e outro som muito grave. Falou com o técnico que estava no exterior, queixando-se que a câmara não era afinal à prova de som. O técnico explicou-lhe que esses dois sons eram sons do seu próprio corpo. O som agudo era o som do seu fluxo nervoso e o som grave era o som da sua corrente sanguínea. A conclusão a que chegou é de que o silêncio absoluto não existe. A sua famosa obra 4m33s foi escrita depois dessa experiência.”

Para Tiago Pereira, é sempre o músico mais inseguro com a sua música o que se incomoda mais com o ruído. Como a estranheza das gravações na televisão ou no cinema, em que se gravam os actores com microfones direccionados para depois na montagem se inserirem ruídos e som ambiente que permitam que o som visual crie a ilusão de um espaço real.

Carlos Alberto Augusto concluiu que todo o som que nos rodeia pode ser transformado em música e que mais recentemente ganhámos tolerância a alguns tipos de som, anteriormente considerados ruído, depois do início da utilização dos aparelhos electrónicos na música em geral.



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