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“Puta de filosofia” de Carlos Alberto Machado

Pop e espirituoso.

Søren, como todos os detectives noir, é um gajo amaldiçoado. A maldição dele é a puta da filosofia, que o impede de seguir o caminho da restante brigada judiciária, ou seja, o caminho de quem se encaixa. Por isso, em vez de ser o típico durão, ele é mais um desajustado. Isso passa desde o início na escrita sem espinhas mas também sem exageros de Carlos Alberto Machado, que no mesmo romance, viaja tanto pelo universo pulp, como pelo do espírito crítico face ao sistema. Aliás, o sistema é mesmo o principal suspeito neste policial existencial, e grande parte do livro é passado, via um Primeiro Ministro que só não é Sócrates porque não está lá o nome dele e um Presidente que só não é o Cavaco porque não está lá o nome dele, a desancar sem misericórdia no status quo. Pelo meio há cenas de acção que não se levam demasiado a sério, cenas de sexo que não caem no rídiculo e um desfilar de influências filosóficas, conversa de macho sobre gajas boas e repastos de coelho ou marisco bem regado a vinho ora tinto ora branco que ajudam a tornar as personagens mais coesas e o livro mais fluído. No processo ainda há tempo para desancar nos policiais existenciais de fio e cordel como Dan Brown, que podia aprender muito com este “Puta da Filosofia” em vez de regurgitar bacoradas new-age para donas de casa frígidas e yuppies sem alma.

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Algures entre o universo “Pop 1200” de Jim Thompson e uma “Crónica dos Bons Malandros” de Mário Zambujal, “Puta de filosofia” não será provavelmente o livro policial que vai agradar aos fãs do género por ser demasiado espirituoso e se calhar também não vai apanhar os fãs de literatura por ser demasiado pop, mas ficam ambos a perder. Porque este, é das melhores coisas que tem saído da pena de autores portugueses nos últimos tempos, mesmo que Carlos Alberto Machado esteja pelas ilhas, e não no continente, o que acaba por tornar a coisa ainda mais atraente.



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