Rescaldo Queer Lisboa 2013 – Entrevista a Ana David

Queer Lisboa 17 – Rescaldo

Entrevista a Ana David, directora do Queer Lisboa

Pode falar-nos sobre o seu percurso até aqui? Como é que chegou a directora de um festival cinematográfico e como é ser directora de um festival com a dimensão do Queer? 

Eu fui voluntária no Queer Lisboa 13 e no ano seguinte, no Queer Lisboa 14, o João (João Ferreira, Director Artístico do Queer Lisboa) chamou-me para os ajudar e fiquei como assistente de produção. Nessa altura, gostaram do meu trabalho (risos) e convidaram-me para a direcção e fui ficando e tem sido um trabalho muito bom de se fazer.

É gratificante porque estamos um ano inteiro a trabalhar num evento e, no final, consegue perceber-se o resultado desse trabalho de um ano muito intenso. É bom ver as pessoas reagirem muito bem à programação e ao festival.

O que é que considera ser o mais difícil na organização de um festival? 

O mais difícil? A angariação de patrocínios, de financiamento privado… Digo privado porque o público, felizmente, já está assegurado e tem estado bastante estável, graças ao apoio da Câmara Municipal de Lisboa e do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), que têm sido parceiros constantes do festival e com quem temos acordos trianuais…

Os financiamentos privados são algo no qual temos que trabalhar arduamente todos os anos e vai variando. Os acordos são anuais e não temos garantias, de um ano para o outro, de que o parceiro se vai manter connosco. A única garantia que temos é que se fizermos um trabalho, em princípio, vamos estar incluídos nos eventos que esse parceiro vai patrocinar no ano seguinte.

Este ano, por exemplo, aconteceu que patrocinadores com quem trabalhamos já há algum tempo e que se têm mantido ao longo de várias edições, tiveram que descer substancialmente o seu apoio ao festival porque se viram com um orçamento para apoio a eventos muito reduzido em relação ao habitual.

Acho que esse é o trabalho mais difícil do festival. Claro que tudo o resto, a programação, garantir uma equipa para o festival, são tudo aspectos que têm a sua dificuldade mas que se fazem.

Para quem desconhece o que é a cultura queer, como é que a descreve?

Queer quer dizer toda a sexualidade e orientação sexual que fuja do normal, daquilo que é considerado pela sociedade o normal ou mais comum. Isso inclui LGBT, tudo o que é lésbico, gay, bissexual, transexual ou transgénero e também comportamentos sexuais fora do baralho. Não se restringe só a LGBT, mas a tudo aquilo que foge à banalidade e aos normativos.

Como é que acha que os portugueses vêem o cinema gay, lésbico, bissexual, transexual e transgénero? Ao longo dos anos, tem dado conta de alguma evolução neste aspecto?

No início do Queer as pessoas iam ao festival e tinham alguma vergonha de lá estar e algum receio de, publicamente, serem vistas no festival. Neste momento, isso já não existe, de todo. Temos um público bastante alargado que vai ao festival e que se interessa muito por cinema: quer cinema queer, quer cinema no geral. Isso, para nós, é muito importante.

Há aquele tipo de público que vai ao festival há muitos anos, que é fiel ao festival e que vêem o evento como algo que não querem perder porque encontram-se lá com os amigos e porque vêem filmes de que gostam e depois há aquele público mais especializado, que vai ao festival porque gosta de cinema.

Sim, acho que sim. Respondendo à pergunta muito directamente, acho que sim. Acho que as pessoas, pelo trabalho que o festival tem feito, gostam cada vez mais de ir ao festival e de ver cinema queer.

Quais eram as suas expectativas para a edição deste ano e qual é o balanço que faz desta última edição do festival?

A nossa grande expectativa era manter a audiência nos 8000 mil espectadores, que é uma meta que temos conseguido alcançar, é um patamar no qual temos estado estáveis nos últimos anos. Queríamos mantê-la porque tínhamos ciente que, com a crise financeira, as pessoas estão a  poupar onde podem e a cultura acaba sempre por ser um dos primeiros campos em que se poupa, em que tenta cortar, e estávamos realmente com receio de não conseguir atingir esses 8000 espectadores. No entanto, para grande surpresa nossa, não só conseguimos, como aumentámos e ultrapassámos em 10%, se não estou em erro, a meta dos 8000 espectadores, o que para nos é óptimo.

Contudo, algo ainda mais importante do que o número de espectadores que o festival teve este ano é o feedback que recebemos da audiência em relação à programação. Durante aqueles 9 dias no Cinema São Jorge sentia-se mesmo um fervilhar e uma satisfação muito grande com a programação e as pessoas discutiam os filmes e gostavam do que tinham visto. E quando não gostavam, pelo menos paravam para discutir o porquê de não terem gostado e isso para nós é muito gratificante, saber que as pessoas vão ao festival, debatem sobre cinema e saem de lá satisfeitas.

Quais são, no seu entender, os destaques do Queer Lisboa 17?

Gostava de realçar o facto de ter sido uma programação com um forte destaque feminino. Os dois Prémios do Público, quer o da Competição para a Melhor Longa-Metragem, quer o da Competição para o Melhor Documentário, foram atribuídos a filmes femininos, “Facing Mirrors” e “Born Naked”, respectivamente, e houve um aumento de realizadoras no festival, e isso para nós também é importante, dar a cara ao cinema feito por mulheres.

Quer deixar um incentivo a quem nunca se atreveu a ir ao festival? Por que é que as pessoas devem participar na próxima edição?

Simplesmente porque há muito bom cinema no Queer Lisboa para se ver e não há qualquer tipo de constrangimento que os obrigue a não ir. A não ser por motivos financeiros, caso os bilhetes sejam muito caros no próximo ano, vai ser uma edição à qual devem ir. E vai ser o Queer Lisboa 18, o que significa que vai ser atingida a maioridade do Queer, o que pede uma edição especial.

É possível adiantar algo em relação à próxima edição do festival?

Neste momento, para além de estarmos a fazer um balanço da última edição, estamos a trabalhar na próxima. Temos algumas ideias a fervilhar atrás dos bastidores mas não podemos avançar com o que quer que seja porque são coisas que ainda carecem de confirmação.

 



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