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Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Quem tem medo de uma vida sem ilusões?

“Não quero peças reconfortantes (…) Quando se sai desse tipo de peça, a única coisa em que se pode pensar é onde se estacionou o carro.”
Edward Albee

Depois de se ver “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, certamente que tudo o que é mundano estará bem longe da nossa mente. Esta é uma peça sobre medos e como exorcizá-los; uma peça sobre o que é verdade e o que é ilusão. Somos, durante três horas, confrontados com o lado mais negro da natureza humana, e este confronto implica necessariamente uma reflexão sobre nós próprios. Até o título nos faz meditar sobre isso: Quem tem medo de uma vida sem ilusões?

Martha e George são um casal norte-americano de meia-idade; Nick e Honey são os seus jovens convidados numa noite tardia de sábado. Embora tudo se passe nos anos 60, a acção é extraordinariamente actual. Uma vida em conjunto marcada por amargura e desacordos, vontades desatinadas e frustrações, acaba por desabar naquela sala-de-estar, num espectáculo de agressividade verbal e jogos psicológicos a quatro.

Numa primeira fase, Martha lidera os jogos, humilhando o marido por todo o ressentimento que este lhe provocou, e desfazendo-se das convenções de boas práticas sociais, arrastando os seus dois convidados para a guerra matrimonial que ali se bate. No segundo acto, intitulado “Noite das Bruxas”, a relação entre Nick e Honey também entra na partida, desembrulhando-se um rol de segredos num misto de conflitos e competitividade. O terceiro acto, “O Exorcismo” (que era o título da peça no início da sua concepção), apresenta um desnudamento das quatro personagens, mas principalmente de Martha, despojando-a de todas as suas ilusões, deixando apenas os medos e a verdadeira natureza que a veste.

Embora Martha e George sejam o casal principal, a encenadora Ana Luísa Guimarães declara que esta é uma peça “muito a quatro”, em que “nenhum pode falhar”. E a verdade é que nenhum falha: Maria João Luís e Virgílio Castelo estão brilhantes como Martha e George, respectivamente. Um casal que (não) esconde momentos negros, atacando-se um ao outro com uma fúria que nos faz sentir, como espectadores, desconfortáveis. E, no entanto, um casal sobre o qual ainda é possível imaginar um passado apaixonado, ou espreitar momentos de ternura escondidos por entre a raiva e a amargura.

Romeu Costa e Sandra Faleiro (Nick e Honey) apresentam-se inicialmente como os cânones da perfeição caseira, ambos bonitos, bem-educados e de aspecto cuidado, estudado ao pormenor, que no entanto vão sofrendo uma metamorfose ao longo da peça. Nick como um jovem ambicioso, cuja ambição vai ditando um percurso onde não olha a meios para atingir o seu sonho; Honey como a esposa modelo, frágil e delicada, resignadamente feliz e bem comportada, embora submetida a todas as repressões que a sociedade de então forçava às mulheres.

“Quem Tem Medo de Virgina Woolf?” foi, aquando a sua estreia, um êxito de bilheteira e uma vitória controversa aos olhos da crítica. Juntamente com outros espectáculos, marcou um episódio de ruptura na História do Teatro, e é, ainda hoje, um grande título da dramaturgia contemporânea.

O texto é, pelas palavras de todos os intervenientes, extremamente rico mas ao mesmo tempo derradeiramente complexo. Mas é essa complexidade que o torna tão cru, tão real. Juntamente com um cenário fantástico, que apresenta a objectiva realidade de uma sala-de-estar juntamente com a subjectividade de relações que nela se processam, os espectadores conseguem uma total imersão na história. Se podem ficar chocados, também se podem rever nas personagens e, mais do que reflectir sobre elas, reflectir sobre si mesmos.
TEATRO NACIONAL D.MARIA II
SALA GARRETT

26 DE NOV 2011 A 29 DE JAN 2012



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