rdb_queresfiado-2009_header

Queres Fiado?

Parte III: Os Parodiantes de Lisboa e o humor politico-erótico do pós 25 de Abril.

Para além das revistas de “surtidos” humorísticos internacionais que praticamente dominaram a imprensa de humor durante o Estado Novo, surgiu também nessa época um grupo de comediantes portugueses que vieram alterar o panorama cómico português. Eram os Parodiantes de Lisboa, que para além de um semanário que durou apenas cerca de um ano, apresentaram durante meio século um programa radiofónico de humor.

Com a Revolução dos Cravos e o fim da censura, vulgarizam-se as revistas de humor que misturam a sátira política com desenhos e fotografias eróticas.

Aqui ficam alguns nomes sonantes que marcaram as últimas décadas do fascismo e as primeiras décadas da liberdade:

Os Parodiantes de Lisboa

Em 1947 surge nas tabacarias portuguesas a “Bomba”, um semanário humorístico que durou pouco mais de um ano. Mas, apesar da sua curta vida, a “Bomba” criou um grande impacto no humor português, por ter originado as “Emissões Bomba” na Rádio Peninsular de Lisboa. Os argumentos do programa eram escritos e intrepretados por Ruy Andrade e Manuel Purga, dois dos principais colaboradores do semanário. A estes juntou-se também João Andrade, irmão de Ruy. Quando a “Bomba” desapareceu das bancas, as “Emissões Bomba” também cessaram, mas o trio continuou a trabalhar na rádio, desta vez no programa “A Parada da Paródia”, que durou  cerca de 50 anos.

Surgiram assim os Parodiantes de Lisboa, que em 1960 adaptaram o seu humor a outro semanário, também intitulado “A Parada da Paródia”, dirigido por António Gomes de Almeida (que entrevistei na edição passada).
Para além da transcrição de alguns sketchs do programa radiofónico, o semanário incluia foto-gozos, anedotas ilustradas, alguns textos cómicos e “A Bronca da Semana”, uma secção regular, onde eram publicadas calinadas encontradas em jornais ou tabuletas de lojas, ou qualquer outra situação caricata que os colaboradores encontrassem.

Por vezes existiam também números temáticos dedicados a variadissimos assuntos, como as moscas, as casas de penhores ou o vinho (numa edição impressa a roxo e com uma senha que dava direito a bebida gratuita no Abel Pereira da Fonseca).

João Benamor

Encontram-se poucos dados biográficos sobre este artista, mas a verdade é que o seu traço é dos mais facilmente reconhecíveis  dos cartoonistas portugueses. Benamor colaborou com ilustrações em várias publicações nos anos 1960, inclusive a Parada da Paródia, mas também na revista Plateia, Crónica Feminina e a Barraca. Publica também vários livros de humor (com títulos como Piadas Picantes)com as suas piadas ilustradas, foto-gozos e alguns artigos roubados de revistas como a Mad.

Depois da Revolução dos Cravos, edita a revista quinzenal Olho Vivo, com um humor político-erótico que rivalizava com o de Vilhena. Abundavam as caricaturas a políticos da época, críticas ao velho Estado Novo e várias fotografias ou desenhos de mulheres nuas. Os foto-gozos são também abundantes nesta revista, utilizando essencialmente fotogramas de filmes eróticos. Esta publicação é, de resto, fácil de encontrar em vários alfarrabistas ou em feiras da ladra.

Pão Comanteiga

Mais uma publicação cuja história está ligada a um programa de rádio. Pão Comanteiga começou por ser uma rúbrica de humor que integrava o Contra-Ataque, um programa de quatro horas da Rádio Comercial, apresentado por Carlos Cruz. O programa esteve no ar entre Fevereiro e Junho de 1982. Voltou a ser emitido em 1988, desta vez acompanhado de um suplemento do jornal A Capital. Os textos eram escritos por Carlos Cruz, José Duarte, Mário Zambujal, Clara Pinto Correia.

José Vilhena

Por último, destaco José Vilhena, aquele que será provavelmente o melhor e mais conhecido humorista gráfico nascido em terras lusas, a par de Raphael Bordalo Pinheiro.
A sua actividade começou ainda nos anos 1950, ilustrando piadas e escrevendo textos de humor para revistas como o Cara Alegre e O Mundo Ri. A par destas colaborações, foi publicando e distribuindo uma série gigantescade livros, chegando a publicar nove livros num único ano.

Vilhena nunca teve medo do lápis azul, e nunca se absteve de publicar as suas piadas e cartoons com caracter erótico (quase pornográfico) ou de mandar as suas bocas ao regime salazarista. Por estas faltas de respeito foi preso três vezes durante o Estado Novo.

Depois do 25 de Abril começa a publicar a revista de humor mais conhecida entre nós: a Gaiola Aberta, da qual se intitulou Director Vitalício. Escrita e ilustrada por si de uma ponta a outra, a revista tinha como principais alvos os políticos, tanto do Estado Novo como do pós-revolução, e a Igreja Católica. Quase todas as críticas a estas figuras eram misturadas com desenhos e fotografias de mulheres nuas ou referências sexuais.

Para além do Gaiola Aberta, Vilhena publicou ainda as revistas O Cavaco, o Fala-Barato e O Moralista. Os seus livros e revistas encontram-se facilmente e a bom preço em vários alfarrabistas.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This