Ramiro

“Ramiro”, de Manuel Mozos

O Anti-Herói.

Ramiro, a mais recente longa-metragem de Manuel Mozos, foi o filme escolhido para a sessão de abertura do Doc Lisboa ’17, com lotação esgotada e estreia mundial naquele mesmo festival mas a estreia nas salas portuguesas está prevista para 1 de Março. Nomeado para Melhor Filme no Mar del Plata Film Festival (secção de Competição Internacional) e tendo feito parte da Secção Oficial do Festival de Sevilha também em 2017, Ramiro auto-intitula-se como uma “comédia delicada” mas é muito mais do que isso.

Simplesmente Ramiro, alfarrabista de profissão, é o homem que se apaixona por toda a gente menos por si próprio e pela sua escrita, que renega com tanta constância como à felicidade. Declama nos saraus intelectuais que declaradamente despreza a poesia de outros que lhe são queridos enquanto escrevinha numa sebenta atribulada nos intervalos da vida e dos sonos que o sofá lhe rouba.

Ramiro é o anti-herói de quem muitos sentem saudades, uma promessa que não deve ser apressada, são os editores e as televisões que o procuram e até o seu cão tem nome de escritor mas a escrita fica em segundo plano quando tantos dos seus amigos o chamam à vida vivida.

Enquanto permanece estático ao lado de hieróglifos e homens condenados, Ramiro oferece barquinhos de madeira onde se afogam memórias que não passarão de ficções criadas para que não se sofra como na vida real. Os grandes planos de Manuel Mozos parecem clamar que deixemos estes homens e mulheres existirem nesses pequenos momentos de ribalta e felicidade estática um pouco antiquada (não é por acaso o uso do formato 4:3) mas brilhante e cheia de cor saturada, algures entre o claro/escuro da pintura barroca e o excesso cromático de Douglas Sirk.

A felicidade em Ramiro são esses pequenos focos de luz ou os momentos de ressaca infantil quando o protagonista vai vender livros na feira e fingindo estar acordado se resguarda nos insuficientes óculos escuros. Continua comprando e vendendo livros e colecções enquanto poupa sofrimento àqueles que à sua volta gravitam, sem deixar de ser duro e sofredor.

o homem que se apaixona por toda a gente menos por si próprio

Entre livros velhos, bifanas e imperiais, Ramiro contempla vidas como num quadro barroco, iluminado por círculos de luz que lhe focam as rugas da preocupação, construindo as pontes que Patrícia, engenheira do LNEC, logra não conseguir construir para chegar ao coração do alfarrabista.

Ramiro, simplesmente, podia ter cognome ou subtítulo mas não é preciso, é apenas o homem que se escapa da sua natureza com a mesma simplicidade com que partilha cigarros com a Dona Amélia no banco do jardim ou declama poesia sozinho à noite para as águas dos lagos urbanos. Esmurrado no seu orgulho, comprará o bilhete de saída a 1 euros e não mais que isso.



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