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Ravi Naidoo

Entrevista com Sul-Africano, fundador da Interactive Africa que esteve na Experimenta Design para propor um "Mundo 2.0".

Diz que a mudança não poderá ser menos do que radical: o curso do planeta terá de ser alterado nas próximas décadas. Ravi Naidoo, fundador da Interactive Africa, uma empresa de Media e Marketing sedeada na Cidade do Cabo, e da Design Indaba, propôs na Open Talk de dia 10, na Experimenta Design, um “Mundo 2.0”, uma ideia que, devido às consequências ambientais do desenvolvimento, apela a um total recomeço. Uma completa reestruturação da forma como olhamos e sentimos a realidade das coisas. Numa conversa com o Rua de Baixo, Ravi não tem dúvidas: “a par da consciência ecológica, o design será uma das disciplinas fundamentais para o desenvolvimento da economia e da investigação”.

Refere que a partir do potencial criativo do continente, pretende mudar a forma como se olha para África. O que significa ser um criativo num continente que tem tantos problemas por resolver?

Desde a implementação da Democracia na África do Sul, em 1994, sentimos que nos devíamos focar em algo realmente transformador.

Precisávamos de uma mudança económica, uma vez que grande parte do problema em África é o facto de não ter havido ainda grande sucesso na criação de uma larga classe média.

Durante séculos, o principal problema do continente foi o comodismo. E com esta geração de africanos tecnocratas que têm várias capacidades temos de criar novos modelos para a África emergente. Como encontrar novos modelos? Penso que é um conceito tão delicioso olhar para a High-Tech, High-Art, High-Design, enquanto soluções para o continente. Portanto, parte do que temos procurado fazer é responder à questão de “Como podemos colocar criatividade, inovação e Design tanto na agenda nacional sul-africana como na agenda continental” e como fazer com que crianças, famílias e empresas, tenham uma paleta mais alargada em termos de profissões e carreiras que podem seguir. Vimos de uma base muito pequena mas não há razões para não estarmos contentes. Há 15 anos que podemos mostrar quem somos realmente.

Ao olhar para o painel de profissionais que estiveram presentes na Open Talk que apresentou na EXD conseguimos constatar que uma mudança desta dimensão, que se pode alargar posteriormente para um nível internacional, só é possível através da cooperação. Acha que a Comunidade Internacional está preparada para se juntar e evoluir para um “Mundo 2.0”?

Temos de estar. Não temos escolha. O mundo está a ficar cheio, temos de olhar para os problemas de hoje, como o aquecimento global. Parte do mundo depende de combustíveis fósseis mas o design tem um grande “papel reformador”. Tudo à nossa volta está a precisar de uma revisão. A que custo estamos a obter os utensílios que nos chegam, as tecnologias que utilizamos? O Mundo está cada vez mais obcecado com as formas e funções e eu já não aguento ver mais cadeiras ou moedores de sal e pimenta. Estou mais preocupado com o processo que está por trás deles, como é que eles chegaram até nós. Trata-se de dar uma segunda vida ao objecto, de mudar o seu valor e estender a sua utilidade. Nós desenhámos para um mundo hiper-abundante. Se tivéssemos começado a desenhar para um mundo de recursos mais escassos, seríamos muito mais conscientes em relação a esses mesmos recursos.

Referiu também que que a África do Sul estava para o continente Africano como os Estados unidos estão para o Mundo. Como lida com esta assimetria no seu trabalho, tendo em conta o estado do resto do continente?

Por um lado, a liderança é necessária e a África do Sul não tem medo de dar o primeiro passo, de tomar a iniciativa e estar à altura do que é exigido, mas também temos a preocupação de não ser demasiado sustentadores, uma espécie de “irmãos mais velhos”. Nós vemo-nos como fazendo parte de um grupo de companheiros. A África do Sul tornou-se uma espécie de “sala das máquinas” para um grande pedaço de África e as actuais infra-estruturas do continente estão a ser largamente construídas por empresas sul-africanas. Temos uma empresa de redes móveis em Joanesburgo chamada MTM que está espalhada por 25 países em África e está prestes a tornar-se a 3º maior empresa do mundo nessa área. Foram pioneiros em afirmar que se quiséssemos implementar a Democracia e promover o comércio, tínhamos de dar às pessoas a oportunidade de falar. É um Direito Humano básico. Portanto, há empresas sul-africanas com uma incrível perícia a investirem no continente. De facto, talvez tenhamos uma perspectiva única e este nicho ecológico que entendemos tão bem sejam os mercados emergentes dos outros países.  Se repararmos, as empresas que tiveram mais sucesso não foram aquelas que partiram para a Austrália, mas sim as que decidiram investir em África.

Não considera um pouco irónica que uma mudança tão global como o projecto Mundo 2.0 parta de África, supostamente o continente mais dependente de todos?

O Homem deu, literalmente, os primeiros passos em África. Faz sentido, a humanidade começou no nosso continente. E, de facto, existem grandes vantagens. Por exemplo, não temos de lidar com estruturas criadas no passado e que nos foram legadas. Para nós, é fácil operar uma mudança, enquanto que as economias inteiras dos ambientes mais estabelecidos se centram nos serviços e infra-estruturas já existentes e é difícil removê-las implementando novos modelos.

Design Indaba, empresa que fundou, foi ainda a curadora da componente South da exposição Timeless, que demonstra alguma da criatividade que tem vindo a evoluir na África do Sul desde 1994. Basicamente são apresentadas soluções criativas para alguns dos maiores problemas do contiente africano – HIV, desemprego, habitação…

Temo-nos esforçado bastante por espalhar os produtos com a marca “Made in Africa”, por arranjar compradores de todo o mundo. Parte da nossa missão vai muito além da celebração do design, temos de ter em conta que esta disciplina pode transformar a economia. Não posso não estar envolvido na crise du-jour da minha terra natal que é a criação de emprego, de habitações sociais. Se eu quiser ser relevante, mesmo como um jogador no espaço criativo, tenho de ter em conta os problemas que estão à minha volta.

Temos uma plataforma na Cidade do Cabo que fazemos anualmente, na última semana de Fevereiro. Tem duas partes: uma constituída por conferências, que está prestes a tornar-se uma das séries de conferências mais multidisciplinares do mundo. E a outra parte é uma exposição que contém o melhor da criatividade contemporânea sul-africana. São dois lados da mesma moeda, um é mais global, outro mais local. Frederico Duarte descreveu-o no Público como um “evento Glocal”. E é incrível, porque recebemos a inspiração e a atenção que as personalidades internacionais trazem ao país e os benefícios das personalidades locais que se motivam e acabam por ter espaço para produzir o seu próprio trabalho e expô-lo.

Quanto à EXD, já estávamos familiarizados com o trabalho que se estava a desenvolver em Portugal, mas é a nossa primeira vez aqui. Tem um óptimo programa e é uma das maiores plataformas de design da Europa.

Portugal é um mercado para a África do Sul?

O Mundo é um mercado para nós. E há uma nova geração de sul-africanos ambiciosos que acreditam nisso.

Há tantas coisas a acontecer no nosso país. Nós temos as capacidades necessárias. A diferença é que os nossos níveis de capacidade não têm uma grande profundidade. Temos de alargá-las para os serviços, para o sector público, para o desenvolvimento da economia, por isso o Governo pode ser um elemento capacitante para este desenvolvimento.

A África do Sul tem muitos paradoxos. O ultra-moderno e o tradicional estão completamente misturados numa espécie de caldeirão. Não há uma cultura homogénea e todas as suas particularidades fazem com que a expressão criativa seja vibrante.



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