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A Guy Called Gerald @ Gare

Um dos nomes maiores da música electrónica numa noite disciplinada. Red Bull Music Academy - Porto Hub

A Guy Called Gerald é um nome maior dentro da música electrónica. Conhecido acima de tudo pelo “Voodoo Ray”, uma das grandes faixas do movimento Rave, a sua carreira tem muito mais a dar. Acompanhando as tendências americanas, do Chicago House ao Detroit Techno, a partir da sua base no Reino Unido, Gerald chegou a pertencer também a outro grande nome dessa era, o colectivo 808 State, tendo co-escrito o seu hino “Pacific State”, trabalho pelo qual não foi creditado. Para além disso, desempenhou também um papel fulcral na evolução do Rave para o Drum ‘N’ Bass, influenciando artistas como Goldie. No entanto, e apesar do seu estauto de pioneiro, em anos mais recentes pouco se tem ouvido falar de Gerald, o que aguçou ainda mais a curiosidade de ver o seu live set no Gare, como parte do music hub da Red Bull Music Academy.

O artista subiu ao palco relativamente perto da hora anúnciada, bastante pontual ao menos pelos padrões da noite portuense (para os quais “relaxados” seria um eufemismo.) Vivia-se um ambiente confortável, com o espaço suficientemente preenchido para não ser constrangedor, mas ainda muito longe do tipo de concentração que pode tornar uma noite de clubbing desconfortável. Um público misto, com pessoal do Hip-Hop e público típico do Gare a conviver com o inevitável Pessoal Que Só Veio Para Aparecer Nas Fotos e vicesitudes avulsas. A abertura tinha ficado a cargo de Santo Ovideo Grime, numa onda entre o Dubstep e o modelo Buraka Som Sistema (portanto não, não foi um set inteiramente composto por Grime. mas já agora, lembram-se dos tempos do Grime? “Boy In Da Corner”, as compilações “Run The Road”, o Wiley. Foi fixe, não que esteja a dizer para revivalizarmos nem nada, mas fixe foi.) A contribuir para a boa disposição estavam os “anfitriões” Maze e Capicua, cujo trabalho de hype man teve bom valor, mesmo havendo só uns três pares de mãos a levantar-se quando os mesmos tentavam puxar pela audiência.

E a atracção principal? A Guy Called Gerald apresentou-se numa vertente de Techno bastante frio, abstracto e disciplinado. Volta e meia apareciam alguns toques de Drum ‘N’ Bass, alguns efeitos mais excêntricos. Mas a sonoridade actual de Gerald encontra-se bastante distante do que fazia no início dos anos 90, e se isso para ele como artista só pode ser considerado uma mais valia (quem não evolui morre, não era esse o velho lema?), não deixa de ser interessante como (em Portugal, ao menos) a sonoridade Rave tem pouca saída para revivalismos. Os grandes nomes do House e Techno clássico, e até mesmo de estilos menos respeitáveis como o Chill Out, vêm cá fazer sets fortemente ligados ao som dos seus tempos aúreos e ninguém acha estranho, mas quem revivaliza o que de certa forma foi o momento mais mediático da música electrónica? Não me venham falar do Nu Rave, que para justificação do seu nome apresentava apenas alguns sons de sirenes e uma ou outra faixa clássica no meio de sets que tinham toda a espécie de cenas (ou não fosse o termo saído do pensamento sempre histérico e desleixado do “New Music Express”). Será que o estilo é simplesmente demasiado ligado a um certo momento histórico para funcionar fora desse contexto? Os discos ainda soam altamente.

Mas voltemos a Gerald. Pôde-se detectar um certo ar de seriedade nos sons puros e duros que emanaram daqueles dois laptops, auxiliados pela cara de “serious DJ is serious” que o artista mostrou durante a maior parte do seu set. Há lá um certo sentido de propósito, uma orientação clara que merece o seu respeito; há também uma certa monotonia para quem curte sets mais diversos – o problema do estilo é que ou te comprometes a inteiro ou levas seca, não existem fãs casuais. E admito, houve momentos em que eu (que tendencialmente gravito mais para as melodias do que para o ritmo puro, e mais para tonalidades calorosas e soulful do que frias e ásperas – todos temos preconceitos, mais vale admitir) achei tudo bastante massacrante. Mas há que respeitar quem segue disciplinadamente o seu caminho, e foi uma experiência interessante ver por onde anda agora o criador de “Voodoo Ray”.

Fotografia de Francisco Abrunhosa



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