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“REI JOÃO”, de William Shakespeare nas ruínas do Convento do Carmo

O cenário ideal.

A peça Vida e Morte do Rei João, de William Shakespeare recebe a sua estreia em Portugal nas emblemáticas ruínas do Convento do Carmo. Baseada em factos verídicos da política inglesa, esta peça não poderia receber melhor espaço cénico para se estrear em terras lusas: um cenário real para um enredo baseado em acontecimentos reais. O estilo gótico das ruínas a céu aberto torna-se no cenário perfeito para nos transportar à realeza de uma Inglaterra sombria aquando da transição do século XII para o século XIII, governada pelo então João Sem Terra.

Encenado por António Pires, este texto foi trabalhado em conjunto para cena com a dramaturga Luísa Costa Gomes, que considera algumas das temáticas ainda ressonantes nos dias de hoje, em virtude da mediatização banal das influências, das políticas e das vontades pessoais. Sendo esta uma peça datada, não existem propriamente mediatismos. Porém existe uma grande influência dos jogos de ambição e poder, particularmente comuns nas peças do dramaturgo inglês assim como os infortúnios dos protagonistas, maioritariamente homens com um importante cargo na sociedade e com um determinado auxílio manipulador de uma mulher em específico para a tomada de decisões.

Nem só de cenário se faz um espetáculo de teatro. Por se tratar de um espetáculo de época, com cerca de duas horas de duração, podemos recear cair no aborrecimento. A iluminação e a sonoplastia não contribuem para favorecer o ambiente, carecendo de elementos que preencham mais a ação nestes aspetos. No entanto, a cor e os modelos dos figurinos deixam-nos despertos e tornam as marcações de cena mais apelativas. E à medida que se aproxima do fim a intensidade das cenas ganha um crescendo, fazendo com que todos os elementos se fundam num só.

Nesta versão não nos é alheio o papel da mulher, seja como manipuladora, seja como mãe sofredora ou até mesmo como parte do povo. Também a mulher, enquanto atriz, interpreta personagens masculinos, mas que em nada interferem na compreensão do enredo. O que mais atrapalha na sua compreensão é por vezes o tom cantado dos versos na interpretação de alguns atores, uma vez que o português aqui é mais cordial e mais afastado do coloquial dos dias de hoje e, portanto, mais trabalhoso no que toca às intenções da palavra.

Nos últimos anos tem sido habitual espetáculos ao ar livre durante o mês de Agosto nas ruínas do Carmo, a cargo da companhia Teatro do Bairro. Com o objetivo de estabelecer o diálogo entre o Teatro e as mais diversas artes, este ano a escolha recaiu sobre a Arquitetura, pelo que foi feito um convite ao arquiteto responsável pelo projeto Teatro do Bairro (2008) – Alberto de Souza Oliveira – para pensar o espaço cénico, enquadrado ao ar livre e dentro deste monumento lisboeta.

A tradução do título deve-se ao facto de este não ser um espetáculo somente para portugueses, mas para todos os estrangeiros interessados em desfrutar de uma noite de teatro diferente. E para os que mais temem as saídas culturais devido ao presente perigo invisível, todas as medidas de contenção estão a ser tomadas. Neste caso, António Pires considera ter tido sorte, uma vez que este espetáculo já estava agendado para ser apresentado ao ar livre, pelo que apenas tiveram de repensar a disposição do espaço para deixar o público confortável e com as devidas distâncias exigidas.

Uma experiência única a cargo do Teatro da Bairro que alia o teatro à arquitetura para ver nas ruínas do Carmo de 29 de Julho a 15 de Agosto, de segunda a sábado às 21h30.

 

FICHA TÉCNICA

REI JOÃO, de William Shakespeare


29 de Julho a 15 de AGOSTO | Segunda a Sábado | 21h30
MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO


Encenação: ANTÓNIO PIRES
Tradução e Versão para Palco: LUÍSA COSTA GOMES
Com: ALEXANDRA SARGENTO, CAROLINA CAMPANELA, DINARTE BRANCO, DUARTE
GUIMARÃES, FRANCISCO TAVARES, GONÇALO NORTON, JOÃO BARBOSA, LUÍS LIMA BARRETO,
MARIA JOÃO FREITAS, MÁRIO SOUSA, RAFAEL FONSECA e SOFIA MARQUES
Cenografia: ALBERTO SOUZA OLIVEIRA
Figurinos: LUÍS MESQUITA


Espectáculo ao ar livre. Peça legendada em Inglês



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