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“Remind” de Salomé Nascimento

Pintura no espaço Netcast, patente até 18 de Fevereiro.

we are all stardust

Chego ao espaço. Parede branca enorme. Pequenas formas, placas, todas agrupadas, acinzentadas, tamanhos levemente diferentes. Tudo um bocado minimal. A palavra é o que se vê logo. Ou melhor, as palavras, frases em inglês. Tipografia variada. O cérebro pôe-se logo a ler. “We are all stardust”. Só depois se consegue olhar o objecto como obra pictórica. Aqui não temos hipótese, podemos, mais ao pé, apreciar as pequenas falhas da tinta ou as texturas, mas a palavra impôe-se. Como um aviso. Um aforismo. Segundo o dicionário, aforismo é um preceito expresso numa sentença breve. Salomé expõe aforismos.

Podia agora começar a falar de Ludwig Wittgenstein, de ir buscar o Tractatus Logico-Philosophicus(!), das suas tautalogias, um livro que ele levou metade da vida a fazer e a outra metade a emendar. Ou falar de Jenny Holzer e dos seus truísmos, mas não. Não vou tornar este texto denso e espesso. Se calhar não é preciso. É mais simples do que isso. E no fim de contas, somos todos pó de estrelas.

Salomé não se quer esquecer do que é essencial. Aposto que tem estas mesmas frases escritas em post-its na parede do quarto ou do frigorífico. Às vezes as coisas simples e que são importantes, realmente importantes de saber, já as ouvimos mas não lhes ligámos. Aqui reli algumas e outras li pela primeira vez. É giro pensar que, fora algumas imagens que esta exposição propociona, (como os livros brancos atados, a um canto) é acima de tudo frases, ideias, que as pessoas levam na cabeça quando daqui saiem. Imagens de frases.

Não é à toa que a Salomé tem formação em Design de Comunicação. Aqui há algo realmente para comunicar. Isso está patente na sua liberdade de escolha de medium ao longo das várias exposições que já realizou. Não se prende a técnicas e usa-as para atingir os seus fins. A mensagem é o que interessa. Perguntei-llhe porque razão está só a expor nas paredes de uma galeria, porque não está a grafitar os seus aforismos em versão street, ou em outdoors e com um sorriso garantiu-me que já anda a planear algo nesse caminho.

As peças de Remind têm esse ar de bocados de parede, transportados para dentro da galeria. Seria interesante ver isso também acontecer no sentido contrário.

we do not see things as they are we see them as we are

Salomé esreveu, imprimiu, resinou. Usou materiais de construir pranchas de surf. Algumas peças, parecem “peles” de pranchas de surf arrancadas e esticadas na parede. “You can’t stop the waves but you can learn to surf”. Frases da cultura surf aqui no meio? Faz sentido… As minhas expectativas sobem. Uma surfista. Algo em comum sem ser a arte. Ahh…”costumas ir para onde? qual é a tua tábua?” Mas tenho que me concentrar, vim fazer uma reportagem sobre arte. Mas é impossível dissociar agora esse lado surfculture do resto, na minha visão destas peças. E não estou a falar de surf art, mas sim do surf como parte de uma cultura mais vasta, como background cultural da minha geração e das posteriores.

De um modo simples, as peças usam esse lado popart e de sabedoria oriental bem misturado e Salomé não só não se quer esquecer dessas verdades a que chegou como sabe que é importante expô-las. Para fazer sentido a outras pessoas (e só assim é que haverá a mudança de mundivisão que está subjacente a muitos destes truísmos) e para ela ter novas epifânias ao relê-las num espaço como este. Com espaço para serem lidas. Com tempo para as saborear.

Saí mais leve do que pensava, olhei para o céu e vi as estrelas , já não chovia. Qual “Tractatus Logico-Philosophicus”, qual quê! a aparente frieza e minimalismo da primeira impressão foi sendo gradualmente substituída pelo calor dos aforismos, pequenas grandes verdades que nos acompanham pela noite dentro. Algumas ficam para sempre.

Word up!

Everything it’s okay at the end
if it’s not okay it’s not the end



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